Fechar

Fechar

Coluna de Padre Assis: Páscoa, a festa da Vida

Padre José Assis Pereira. Publicado em 31 de março de 2018.

Por Padre José Assis Pereira

Nenhum dos quatro Evangelhos narra o fato da Ressurreição de Jesus, pois não foi presenciado por testemunhas; era um fato sobrenatural que, de si mesmo, escapava à experiência humana. E isto só vem dar credibilidade ao fato da Ressurreição, pois, se se tratasse duma ficção, era de se esperar que se dessem os seus pormenores.

São João, no evangelho proclamado hoje (cf. Jo 20,1-9) nos propõe acompanhar Maria Madalena, amiga de Jesus que teve uma amarga surpresa ao encontrar o túmulo, que é símbolo da morte e de seu silêncio humano, vazio. “No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro e, vê que a pedra fora retirada do sepulcro. Corre então e vai a Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava, e lhes diz: ‘Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram’” (vv. 1-2).

Naturalmente, o sepulcro vazio, como tal, não pode ser uma prova da Ressurreição. Os dois discípulos vão fazer o reconhecimento do local e verificar indícios eloquentes, aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus. Efetivamente o corpo do Senhor não estava. O teriam roubado? O que teria acontecido? O próprio João vai dizer que “eles ainda não tinham compreendido a escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos” (v.9).

Muitas pessoas sofrem hoje a aflição de Maria Madalena porque não sabem onde está aquele ente querido que morreu e foi sepultado, como o Senhor; e por não saber onde ele está para abraçá-lo de novo, ainda que esteja morto.

Só o discípulo amigo de Jesus ao entrar no sepulcro vazio “viu e acreditou” (v. 8). Os outros levaram mais tempo para reconhecer o Senhor Ressuscitado. Este é o ponto culminante deste evangelho proclamado hoje. Essa experiência com o Ressuscitado tão comum às primeiras comunidades cristãs que irrompe na vida dos discípulos só é comunicável com símbolos que permitem aproximação com a realidade vivida. Mas na hora de transmitir essa experiência, cada evangelista, dentro de sua comunidade e contextos culturais, destaca determinados aspectos. Daí as diferenças nos relatos evangélicos das aparições do Ressuscitado que a Liturgia irá apresentar ao longo dos cinquenta dias do Tempo Pascal.

Maria Madalena é figura simbólica, representa a comunidade sem a perspectiva da fé, incapaz de assimilar a morte de Jesus. Ela descobre a ressurreição, mas não a pode interpretar. Mas, não nos esqueçamos de que ela receberá logo adiante, depois de reconhecê-lo de maneira mais íntima e pessoal, a missão extraordinária de ser testemunha da ressurreição como

Apóstola dos Apóstolos: “Vai dizer aos meus irmãos.” (cf. Jo 20,17)

A fé dos primeiros discípulos na Ressurreição de Jesus baseia-se, em última análise, no encontro pessoal com Ele depois da morte. Aqueles que não o tinham encontrado pessoalmente confiavam no testemunho fidedigno de quem o afirmava. Como nós, na nossa busca de argumentos a favor da Ressurreição, não podemos ir além da credibilidade das testemunhas que a afirmam e cuja fé passou a ser normativa para a Igreja.

O discípulo predileto, “viu e acreditou”. É a única ocasião em que se afirma, em todo o Novo Testamento, que alguém acreditou ao ver vazio o sepulcro. O evangelista João dirige-se a leitores que na sua maioria, não tiveram nenhum encontro pessoal com Cristo do estilo daqueles que são narrados por ocasião das aparições. Apesar disso, poderiam ter a certeza da sua fé em Cristo Ressuscitado? Não era necessário um encontro pessoal? O evangelista responde que essa série de provas não era necessária. Ele próprio, aliás, tinha creditado tendo como ponto de partida, não o encontro pessoal, que seria o ideal, mas simplesmente o sepulcro vazio.

Só este “discípulo viu e creu”, porque o sepulcro vazio lhe levou a entender a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos (cf. Jo 20,8-9). Ver, crer, compreender a Escritura. A Escritura serve de base e garantia à fé. A garantia da verdade não são os olhos que vêm nem a mente e o coração que compreendem, sabemos que eles nos podem enganar. Mas a Palavra de Deus é segura: “Eterna e estável como os céus” (Sl 119, 89).

Nesta sexta-feira santa diante da morte de Jesus, morte violenta, dolorosa, humilhante e desumana nos questionava se estávamos acostumados com a morte? E percebíamos que nunca vamos nos acostumar com a morte. Hoje celebramos o fracasso definitivo da morte porque “sabemos que Cristo, uma vez ressuscitado dentre os mortos, já não morre mais; a morte já não tem domínio sobre ele”. É verdade que as cruzes e as mortes continuam a entristecer e enfeiar a paisagem de nosso mundo, tanto que, muitas vezes, nos faz duvidar do fracasso da morte: penso nos assassinatos de crianças e jovens, vitimas da violência cega; penso nas mulheres maltratadas e assassinadas e tantas outras mortes; penso em tantas pessoas que clamam por justiça e estão de luto…

Mas, os cristãos, cremos no Ressuscitado: “A morte foi absorvida na vitória. Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?”  (1Cor 15, 54) Apesar da situação de morte que existe no mundo, hoje a Igreja unida a seu Senhor proclama o grande mistério da Vida, agora indestrutível e absolutamente nova do Ressuscitado. Deixemo-nos inundar pela graça deste fato que nos enche de esperança segura e eficaz com a fé cristã que recebemos em nosso Batismo.

Pelo Batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo Ressuscitou dos mortos… assim também nós levemos uma vida nova” (cf. Rm 6,3-11). Portanto, o Apóstolo Paulo nos assegura que se fomos mortos com Cristo, cremos que também viveremos com Ele. Por isso a morte não deveria ser para nós cristãos, absurda, porém se o é para alguém, então se nos propõe, a partir de uma fé mais profunda, entender que Deus nos destinou a viver com Ele. Recusar esta dinâmica de ressurreição seria como negar-se a viver para sempre. Não seria somente recusar o mistério de Deus que nos deu a vida, a vida nova para cada um de nós. Por isso, crer na ressurreição é crer no Deus da vida e nessa nova vida, que já começa aqui no cotidiano de suas vidas com sabor de eternidade.

A experiência viva, o encontro com o Cristo Ressuscitado todo cristão pode fazer. Pois é um dom que Deus concede, o que podemos fazer é pedir ao Senhor a graça desta experiência. Que melhor dia que o Domingo de Páscoa para renovar esta fé pascal-batismal e pedir ao Senhor a graça desta experiência! O importante para o cristão é fazê-la, porque quem a tem feito, não poderá seguir vivendo da mesma maneira. Essa experiência viva e intensa toca e muda a mentalidade, os costumes, o estilo de vida, o modo de relacionar-se com os outros, os critérios de ação, as ações mesmas, até mesmo o caráter.

Ressuscitar é tarefa e meta de cada dia. Nossa peregrinação pelo mundo é conquistar em cada momento o estado de “ressuscitados” cumprindo em todo momento a vontade de Deus. Demos testemunho de nossa experiência pascal de fé e dessa vida nova de ressuscitado, pois assim o fez Maria Madalena, Pedro e João: viram, creram e testemunharam que Cristo estava vivo e que a morte já não mata mais.

Feliz Páscoa!

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube