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Coluna de Padre Assis: Paixão de Cristo, radical experiência de amor

Padre José Assis Pereira. Publicado em 13 de abril de 2019 às 11:20

Chegamos, finalmente, a Jerusalém. Percorremos com Jesus, durante toda a Quaresma um longo caminho até aqui. Ouvindo e meditando sua Palavra que nos chamou à conversão, ao amor misericordioso do Pai e ao perdão. Somos convidados pela Sagrada Liturgia a estar com Jesus em Jerusalém, cenário principal em que acontece a nossa Páscoa.

Não estamos hoje dramatizando um acontecimento de dois mil anos atrás. Estamos revivendo, fazendo memória, atualizando o “mistério pascal” de Cristo. A Liturgia deste Domingo de Ramos e da Paixão, além de abrir as celebrações da Páscoa, nos apresenta cenários inesperados, que criam o ambiente espiritual e celebrativo de toda esta “Semana Santa”.

Celebrar o “mistério pascal” de Cristo sua paixão, morte e ressurreição é abismar-se no silêncio contemplativo a um Deus a quem o amor tornou humanamente frágil. O apóstolo Paulo, apresentando um dos hinos cristológicos mais antigos na carta aos Filipenses, resume o caminho da redenção com dois verbos: “aniquilou-se” e “humilhou-se” a si mesmo (cf. Fl 2,6-11). “Estes dois verbos indicam-nos até que extremos chegou o amor de Deus por nós. Jesus aniquilou-se a si mesmo: renunciou à glória de Filho de Deus e tornou-se Filho do homem, solidarizando-se em tudo conosco – que somos pecadores – Ele que é sem pecado. E não só… Viveu entre nós numa condição de servo: não de rei, nem de príncipe, mas de servo. Para isso humilhou-se e o abismo da sua humilhação, que a semana santa nos mostra, parece sem fundo”. (Papa Francisco)

Portanto como discípulos de Cristo somos chamados a ter “os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites, experimentou a fome, a sede, o cansaço, conheceu as tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, traído por alguém que considerava irmão, misteriosamente abandonado pelo Pai, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir conosco “até ao fim dos tempos”: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos cristãos.

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente e com grande intensidade dramática por todos os quatro evangelistas é a sua Paixão. Ela é a culminância de toda a vida e obra redentora de Cristo. Os sofrimentos que o Senhor abraçou voluntariamente, “ninguém me tira a vida, mas sou eu que a ofereço livremente.” (Jo 10,18), põem em evidência, do modo mais significativo, o seu amor infinito por todos e cada um de nós.

Na Paixão escrita por Lucas (cf. Lc 22, 14-23,56) Jesus “toma resolutamente o caminho de Jerusalém”. Esta viagem que começa quando “Ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51) se prolonga até a sua entrada na cidade santa, “pois ele caminhava à frente, subindo para Jerusalém” (Lc 19,28) e se torna um itinerário teológico. Jerusalém, portanto, é etapa intermédia dessa viagem que termina junto do Pai, na ascensão de Jesus, último episódio do seu evangelho (cf. Lc 24,50-52).

Hoje Jesus chega a Jerusalém vive todo o processo movido contra Ele, que o leva à dolorosa morte na Cruz. Ao entrar em Jerusalém, uma multidão de discípulos o aclama: “Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!” (Lc 19,38). Era a aclamação do povo, que em Jesus via o Rei-Messias e Ele se deixa aclamar.

Há muita esperança no meio do povo. De acordo com uma tradição antiga, esperam um Messias. Ninguém sabe direito como será ele. Muitos esperam um novo Rei. Ao longo de sua vida Jesus sempre se opôs a toda manifestação pública e fugiu quando queria o povo proclamá-lo Rei. Mas agora, é curioso, Ele se deixa conduzir em triunfo: “Se eles se calarem, as pedras gritarão!” (lc 19,40) Mas, Jesus é um rei com características inconfundíveis. Entra na cidade santa montado num jumentinho e proclamará sua realeza messiânica somente diante dos tribunais. Mas Ele entra para vencer! Como? Pelo amor. Até chegar aqui, Ele havia feito um caminho.

Assumiu e anunciou o projeto do Pai. Muitos fatores suscitaram a inimizade, a inveja e o ódio dos chefes político-religiosos do povo judeu. Seus inimigos conseguiram enfim legitimar sua condenação à morte.

Agora chegou a vez de Jesus enfrentar a tentação derradeira. Desistir? Não! Se Deus é amor, Jesus como seu Filho, enviado, jamais poderá desistir da missão, custe o que custar. Ele sente a tentação de descumprir a vontade do Pai: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice”. Desabafa no meio da angústia: “Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!” (Lc 22, 42)

Ele enfrenta todos os sofrimentos de sua Paixão: torturas, flagelação, coroação de espinhos, crucificação, traição de Judas, humilhação, ingratidão do povo, inveja e ódio… A multidão, que pouco antes o aclamara, troca os louvores por um grito de condenação. Enfrenta com amor, com espírito de entrega. Mas o que ainda nos impressiona é que ao longo do caminho para o calvário Jesus não pensa em si mesmo Ele ainda encontra tempo para consolar as mulheres: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23, 28) e do alto da Cruz, suas palavras são de perdão e entrega: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,33); a um dos condenados crucificados ao seu lado disse: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43) e ainda toca o coração do centurião que diz: “De fato! Este homem era justo!” (Lc 23, 47)

Para Lucas, ao narrar esses fatos, o discípulo de Cristo é chamado a seguir e acompanhar o Mestre em sua angustia: “Jesus foi para o monte das Oliveiras. Os discípulos o acompanharam” (Lc 22,39); é aquele que carrega a cruz de Jesus: “Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus”. (Lc 23,26); se depois não segue o seu exemplo só lhe resta o caminho do arrependimento como Pedro que “chorou amargamente.” (Lc 22, 62)

“Somos chamados a escolhermos o seu caminho: o caminho do serviço, da doação, do esquecimento de nós próprios. podemos encaminhar-nos por esta estrada, detendo-nos nestes dias a contemplar o Crucificado… para aprender o amor humilde, que salva e dá a vida, para renunciar ao egoísmo, à busca do poder e da fama. Com a sua humilhação, Jesus convida-nos a caminhar por esta estrada”. (Papa Francisco)

Jesus deixa-se crucificar por amor, no amor o sofrimento humano ganha valor salvífico. Com esta certeza, gerações de homens e mulheres, seguem o Crucificado nesta radical experiência de amor.  Do amor da Cruz nasce o heroísmo de tantos mártires, da Cruz nasce a maravilhosa caridade de tantos santos, da Cruz nasce a revolução do amor. Bendita seja a Cruz de Cristo e sua paixão e morte redentora! Em silêncio, contemplemos o mistério desta Semana.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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