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Coluna de Padre Assis: Os cristãos, reprovados no Amor

Padre José Assis Pereira. Publicado em 19 de maio de 2019 às 10:12

No V Domingo da Páscoa o discípulo amado nos leva ao “Cenáculo”, à última ceia de Jesus (cf. Jo 13, 31-35) e seu discurso de despedida, seu testamento aos seus discípulos: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.” (vv. 34-35) A Eucaristia celebrada hoje à luz deste mandamento novo adquire uma força toda especial: é o encontro com a fonte daquele amor novo e a manifestação daquela nova comunidade que Jesus imaginou.

Onde está a novidade deste ensinamento de Jesus? Jesus não inventou o Amor, aliás, o mandamento de “amar o próximo” encontra-se já no Antigo Testamento (Lv 19,18). Então, como compreender esta “novidade”? Jesus confirmou o mandamento já conhecido, o ampliou para que coubesse o amor ao inimigo e o destacou dentre todos os mandamentos como a plenitude e perfeição da Lei. O próprio Jesus nos dá a chave para entendê-lo: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim… como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.” (Jo 13,1. 34)

A palavra hoje colocada na boca de Jesus, pelo evangelista João é ágape”, aqui utilizada como o amor gratuito, que faz dom de si, o amor até ao extremo, o amor que não guarda nada para si, mas é entrega total e absoluta. A essa entrega de si mesmo aos outros, Jesus chamou de Amor. E é dessa nova forma de amar que Ele nos fala hoje.

Em um mundo onde tudo se paga, onde nada é gratuito, o cristão é chamado a introduzir a gratuidade do amor ágape”, em suas relações, em que se ama por nada, por causa de nada. Amar não a partir de sua carência, mas amar a partir de sua plenitude. Amar não somente a partir de sua sede, mas amar a partir de sua fonte.

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos.” “Que grande responsabilidade nos confia hoje o Senhor! Diz-nos que as pessoas reconhecerão os discípulos de Jesus pelo modo como se amam entre si. Por outras palavras, o amor é o bilhete de identidade do cristão, é o único ‘documento’ válido. Se este ‘documento’ perde a validade e não se volta a renová-lo, deixamos de ser testemunhas do Mestre.” (Papa Francisco) Isto é o que distingue quem acredita em Cristo. O amor gratuito, como a fé, constitui o ser ou não ser do cristão.

Ser cristão, discípulo ou discípula de Jesus, é “amar uns aos outros”. Esse é o catecismo que devemos viver. Tudo o mais encontra sua razão de ser nesta lei suprema da comunidade que Jesus imaginou para seus discípulos, “Igreja casa do amor fraterno”. Tudo o que não seja isso é trair, é abandonar como Judas, “que saiu do cenáculo”, a comunhão com o

Ressuscitado e desistir da verdadeira causa do evangelho, desistir e matar o Amor.

Ao longo de nossa história bimilenar sempre nos ronda a tentação de confundir o ‘documento’, o sinal de identidade dos cristãos. Numa carta a Diogneto escrita por um cristão anônimo, por volta do ano 120 d.C., buscava-se conhecer melhor a nova religião que revolucionava os valores da época, particularmente os da fraternidade e solidariedade de relacionamento entre os seres humanos, e se espalhava com tanta rapidez pelo Império Romano, ali lemos: “Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário… adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros… Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e tem abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, a aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.” Que bela exortação! Ouso dizer que quando amarmos assim, damos ao mundo que nos rodeia, o verdadeiro testemunho de que somos discípulos e discípulas de Cristo.

“Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos.” Onde quer que haja uma pessoa que ame aos outros, por Cristo; que viva, testemunhe e pratique o mandamento do amor, aí está um cristão. Não podemos inventar outro sinal diferente daquele que nos marcou Jesus: amar como Ele nos amou está aí a nossa marca indelével. Só nos diferenciamos dos outros se amarmos gratuitamente, servindo, perdoando, dedicando aos outros nossa atenção, nosso tempo, compreendendo-os nas suas tristezas e alegrias, limpando do nosso estilo de ser e agir todo egoísmo, desprezo, prepotência e a indiferença ou esquecimento. É preciso que deixemos marcar em nós o Amor de Deus e amemos, não somente por palavras, mas com ações e de verdade.

Somos permanentemente examinados no amor, mas nessa matéria a maioria dos cristãos é reprovada nos exames. Temos posto demasiadas normas, algumas muito pesadas e outras um tanto discriminatórias, onde só devia estar o Amor. E não só não há amor, mas até em muitos casos o que circula entre nós é uma coisa muito próxima do ódio. Nem sequer amamos aos nossos familiares e nem tampouco aos vizinhos.

No mundo moderno se tem instalado um egoísmo solitário e duríssimo. Uma situação de fechamento tal, que leva as pessoas a um isolamento que não só é produzido pela vergonha de expor sua crise, mas também porque as poucas aproximações que experimentaram para partilhar seu problema são recebidas com frieza ou hostilidade e muitas até saem da comunidade cristã por não se sentirem nem acolhidas, muito menos amadas.

Há muitas instâncias da Igreja e de seus fieis que lutam contra esse mundo maldito. Temos que unir-nos e trabalhar duro para que não haja violência, egoísmo, falta de solidariedade e que tudo isso saia dos setores da sociedade que se diz cristã, aliás, esta sociedade está sendo honesta em não mais se dizer cristã, “o Estado é laico!” Certamente temos de trabalhar para que essa falta de amor, que produz violência, egoísmo e falta de solidariedade, não frutifique em parte alguma. Mas o cristão deve ser exigente também consigo mesmo, quanto a uma possível cumplicidade com os violentos, perversos e opressores; com os que matam inocentes e os culpados; com os que como Judas são assassinos do Amor.

Talvez não sejam momentos fáceis os que vivemos. Mas são tempos nos quais amar ao estilo de Jesus é um desafio. Porque cremos que o Amor dá sentido ao humano seguimos anunciando o Evangelho na certeza de que o Ressuscitado nos anima e acompanha!

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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