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Coluna de Padre Assis: O mistério de um Deus crucificado

Padre José Assis Pereira. Publicado em 24 de março de 2018.

Por Padre José Assis Pereira

Chegamos ao sexto domingo da Quaresma, com o qual tem inicio a Semana Santa o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Começa a grande semana litúrgica que nos conduz ao Tríduo Pascal, à paixão, morte e ressurreição do Senhor; “mistério pascal”, centro de nossa fé e liturgia cristã.

A Semana Santa é um tempo de profundas e piedosas vivências religiosas; o mistério do Deus “entregue por nós” e a força de sua ressurreição, nos convocam a contemplar a Cruz que é o triunfo do amor sobre o ódio, a esperança frente toda desesperança.

No século IV os cristãos empenhavam-se por imitar os últimos passos da vida de Jesus, desde sua entrada em Jerusalém até sua ressurreição. Para isso celebravam nos mesmos locais e procuravam manter até os mesmos horários destes últimos acontecimentos de Jesus. Dai os relatos de uma celebração que procurava recordar a entrada de Jesus na cidade santa. Da igreja-mãe de Jerusalém, esse costume foi se espalhando para todas as demais igrejas. A entrada solene de Jesus em Jerusalém entre palmas e hosanas foi assim incorporada como abertura da Semana Santa.

Os quatro evangelistas referem à entrada de Jesus em Jerusalém, com algumas pequenas diferenças. Este ano o evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém segundo Marcos (cf. (Mc 11,1-10) nos conduz pela alegre e festiva procissão com ramos de palmeira acompanhando o Messias para o seu triunfo. Toda a “tradição” e beleza da procissão dos ramos nos convidam e nos introduz naquela experiência de ir a Jerusalém com o profeta da Galiléia. Jesus, sem duvida, já sabia o que o esperava: o julgamento, a condenação e a morte. Tudo isso foi representado muitas vezes na estética litúrgica ou teatral, mas em torno daquela Páscoa do ano 30 não havia nada teatral, senão a dura realidade.

Jesus não se deixa iludir pela gente da cidade que vai recebê-lo, com ramos de palmeira como a entronizar um rei vitorioso ou pelos gritos e aclamações messiânicas de “hosana”; porque não se sentia Messias, ao menos como alguns o interpretaram. Estas aclamações darão o colorido político que irá justificar a sua condenação ante os poderosos judeus.

A abertura solene da “semana santa” tem também por centro o Mistério Pascal de Jesus Cristo. Daí a relação com o evangelho pascal por excelência, o relato da Paixão do Senhor. Sendo este o único Domingo no ano em que se proclama o relato da Paixão, este ano segundo Marcos (cf. Mc 14,1-15,47). Não devemos passar apressadamente os olhos por estas páginas, mas meditá-las, metermo-nos dentro destas cenas e renovar a sua lembrança: quem sofre, quanto sofre, para que sofre, porque sofre e por quem sofre? Esta meditação não nos deixará indiferentes ante um amor tão grande.

A Paixão segundo Marcos é o relato mais primitivo que temos dos evangelhos. Sabemos que não podemos explicar este texto em uma breve “homilia”, mas que devemos convidar cada um a se sentir protagonista deste relato dramático e considere onde você podia estar presente, em que personagem, como atuou nesse caso. Precisamente porque é um relato que nasceu quase com toda segurança, para a liturgia, é a liturgia o momento adequado para experimentar sua força teológica e espiritual.

O que nos impressiona é que Jesus a tudo se deixou submeter por obediência ao Pai, para nos redimir como verdadeiro Filho de Deus. Ele não reage, mas aceita passivamente o que lhe está a acontecer, a fim de “se cumprirem as escrituras”. Assim, Marcos quer acentuar que Jesus não se revolta contra os acontecimentos, que não pode impedir.

Neste relato da Paixão ninguém toma a defesa de Jesus. É abandonado pelos discípulos, traído pela multidão, zombam dele, é flagelado e humilhado pelos soldados, insultado pelos que passam. Faz a experiência da impotência, do abandono. Somente algumas mulheres o observaram de longe. Jesus sente-se completamente abandonado por todos, até pelo Pai e, por isso, grita: “Meu Deus, porque Me abandonaste?” (Mc 15,34)

Marcos apresenta Jesus sempre em silêncio durante o processo. Perante os ultrajes, as provocações, as mentiras, Ele cala-se. Nada responde. Consciente de que já haviam decidido a sua condenação, não aceita qualquer disputa que em nada iria alterar a sentença. Não reagindo, Jesus atesta não apenas a sua firmeza de estar na verdade, mas a convicção de que a justa causa por Ele sustentada acabará por triunfar.

O cristão, como Jesus, não se demite, não deixa de lutar contra o mal, mas procura a verdade por todos os meios legítimos. É alguém que, como Jesus, se recusa a utilizar a falsidade usada pelos seus opositores através da difamação ou da violência. Não se amedronta com a derrota, não se preocupa com a vitória dos seus adversários, pois sabe que se trata dum sucesso passageiro, ilusório porque é efêmero.

Mas o ponto central de toda a narração da Paixão do Senhor segundo Marcos é a profissão de fé declarada ao pé da cruz pelo centurião romano: “Na verdade, este homem era Filho de Deus.” (Mc 15, 39). Todo o Evangelho de Marcos apresenta-nos Jesus recomendando àqueles que os curava para nada revelarem. Tal segredo deve ser conservado até o fim, pois só depois da sua morte e ressurreição será possível perceber quem Jesus verdadeiramente é. O centurião reconhece Jesus como “Filho de Deus”, não pelos fatos extraordinários que acontecem no momento da morte do Senhor, mas pela forma como Ele morre.

O Deus da cruz, que é o que Marcos quer apresentar-nos, não é Deus por ser poderoso, mas por ser fraco e crucificado. É evidente que este é um Deus que escandaliza; por isso se permitiu que fosse um pagão quem ao final, no fracasso aparente da morte na cruz, se atreva a confessar o crucificado como “Filho de Deus”. Este soldado pagão é a figura de todas as pessoas que chegam à fé em Jesus, não por terem presenciado qualquer prodígio, mas por terem percebido o sentido duma vida oferecida aos irmãos por amor. É da descoberta desta manifestação do amor de Jesus que brota a verdadeira fé, adesão e seguimento de Cristo.

A cruz torna visível a sabedoria de Deus, que consiste justamente em seu amor que não exclui ninguém, mas que se volta especialmente às pessoas fracas e fracassadas. A cruz é sinal de um amor incondicional que dá esperança a cada pessoa que não tem nada a mostrar… Portanto, a cruz é para Marcos a virada das trevas para luz, da impotência para novo poder, do ódio para o amor. Na cruz, Jesus arriscou-se até as primeiras linhas de frente da maldade humana, para vencê-la ali por meio da força de seu amor. Dessa maneira, a cruz é para nós um sinal da esperança de que não há nada que não possa ser transformado por meio da luz de Jesus Cristo.” (Anselm Grün)

Marcos revela-nos, pois, que a lógica de Deus é muito diferente da lógica humana. Mas é inegável que, da cruz, o Filho de Deus confunde a sabedoria humana, o poder e a força dos poderosos. Como vemos por estes poucos traços, o relato da Paixão do Senhor não fica somente no litúrgico, pois os aspectos espirituais e teológicos são de maior importância.

Quanto a nós, teríamos acompanhado Jesus do horto das Oliveiras, ao seu julgamento e ficado ali, junto a Cruz no Calvário, ou teríamos também abandonado o crucificado, como o fez um jovem que o seguia envolvido num lençol. Eles o prenderam, mas o jovem largou o lençol e fugiu completamente nu. (cf. Mc 14,51) Este jovem representa o discípulo de Cristo. Para segui-lo os discípulos deixaram tudo, mas no momento em que perceberam que o fim do caminho é a entrega da própria vida, tudo abandonam, mas agora não para seguir Jesus e sim para fugir. E nós, como nos situamos em face desse mistério de amor?

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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