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Coluna de Padre Assis: Não mais te chamarão Abandonada

Padre José Assis Pereira. Publicado em 19 de janeiro de 2019 às 16:31

No evangelho de João o começo da vida pública de Jesus não acontece, como nos evangelhos sinóticos, como celebramos no Domingo passado no seu batismo, e sim numa festa de casamento (cf. Jo 2,1-11). Ele consegue numa festa de casamento, imagem muito querida pelo Antigo Testamento, expressar a aliança de amor entre Deus e seu povo, portanto, nestas bodas, Jesus realiza prefiguradamente, como verdadeiro esposo suas núpcias divinas com a Humanidade.

As Bodas de Caná, portanto, têm um significado simbólico muito forte. O autor do quarto evangelho consegue ver neste episódio o anúncio programático da missão de Jesus. Como o primeiro sinal que Jesus faz neste evangelho, preanuncia tudo aquilo que Ele realizará em sua existência até a consumação plena hora da cruz.

Vamos tomar como principal referência neste Domingo das Bodas de Caná a leitura da profecia de Isaías (cf. Is 62,1-5). Este livro foi escrito por volta dos anos 515-500 a.C., depois do regresso do povo judeu do exílio da Babilônia.

“Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não descansarei, enquanto não surgir nela, como um luzeiro, a justiça e não se acender nela, como uma tocha, a salvação.” (v. 1) Na época Jerusalém estava num estado deplorável, era só ruinas: as muralhas, o palácio e o templo estavam destruídos. Havia numerosos colonos pagãos ocupando as casas e as terras que tinham sido do povo judeu. Os ricos se aproveitavam dos pobres.

A moral do povo que havia retornado da Babilônia estava no chão, além de viver pobremente, lhes custava até prestar culto a Deus nessas condições. E isso não podia continuar assim, pois para o povo judeu Jerusalém era e continua sendo, a cidade do Deus Altíssimo, onde Ele habita no meio do seu povo.

“Serás chamada com um nome novo, que a boca do Senhor há de designar… Não mais te chamarão Abandonada… teu nome será Minha Predileta e tua terra será a Bem-Casada, pois o Senhor agradou-se de ti e tua terra será desposada.” (vv. 2-4) Com palavras fortes, mas ao mesmo tempo poéticas, como um belo poema de amor, o profeta nos fala de um Deus que ama com amor esponsal seu povo, como um jovem apaixonado ama seu primeiro amor.

Dai estas palavras tão esperançosas, palavras de amor a Jerusalém e o desejo de que recupere seu esplendor. O profeta deseja que seja uma santa cidade da qual Deus governe os povos do mundo com justiça.

Certamente, o profeta nos fala da cidade de Jerusalém, mas também nos fala do coração dos judeus que então a habitavam e do coração de todos aqueles que agora meditamos com fé este texto sagrado.

Porque todos passaram ou estamos passando por um momento de crise espiritual por causa de algo que fizemos, dissemos ou pensamos. Refiro-me a esses momentos nos quais nosso coração se parece com essa Jerusalém devastada e abandonada, que os judeus encontraram ao regressarem do exílio, e não sentimos nela a presença de Deus. Como o profeta, desejamos com todas as nossas forças reconstruir nosso coração para que volte a ser esse lugar de onde Deus governe nossa vida com amor e justiça.

O texto profético que fala do amor de Deus pela cidade de Sião descrevendo um casamento real. Ao mesmo tempo fala de uma Jerusalém nova, anuncia uma religião nova, revisada pelo amor eterno de Deus. Jerusalém é a esposa, mas o que faz uma esposa se em sua festa de casamento faltar o vinho novo do amor? Isso é o que aconteceu na festa de casamento em Caná, (cf. Jo 2,1-11) a profecia de Isaías se cumpriu, o Senhor torna a Humanidade “sua Predileta”, a Desposa na Cruz e lhe dá um nome novo: Meu Povo!

O que são as “bodas de Caná”? Muitas interpretações têm sido dadas a esse primeiro sinal que Jesus realizou. Entre elas, fico com uma que me parece essencial: Jesus vem estabelecer uma aliança definitiva entre Deus e a humanidade.

As “bodas de Caná” não é a descrição de um casamento real. O que aqui se nos propõe considerar, é chamar a nossa atenção para o vazio de uma religião que perdeu o vinho da vida. Uma religião aguada, triste, sem alegria, sem ânimo, sem sentido, sem paixão, sem amor e sem vida. Quando uma religião serve somente como a tradição de ritos repetitivos e não como criadora de vida, perde seu ser. Pois uma religião sem amor é como um casamento sem amor.

A força da mensagem deste evangelho é que Jesus, Palavra de Vida no evangelho de João, muda a água que devia servir para a purificação dos judeus, inclusive as seis talhas estavam vazias; os ritos de purificação vazios de sentido, as muitas carências da religião.

Jesus nos propõe anular as coisas vazias, uma religião de ritos estéreis e desumanizantes, ou não necessários para a verdadeira alegria de viver e nos convida a transformar a água em que talvez se tornou o nosso amor, nossas relações interpessoais ou matrimoniais, nossa religião, nossa Igreja; em vinho novo, “ o vinho melhor até agora”. (v. 10)

Às vezes a nossa vida é como as “bodas de Caná”: fica sem vinho, quer dizer, sem alegria, sem amor, sem esperança. A monotonia de nossa vida cotidiana, os contínuos problemas que vão surgindo, as dificuldades que devemos superar… pouco a pouco nos vão minando por dentro até que um dia nos damos conta de que estamos mergulhados na tristeza e na desesperança, feito aquelas seis talhas de pedra. E pensamos que Deus nos abandonou.

Nesses momentos é recomendável pedir ajuda à Virgem Maria, a Mãe de Jesus. Ela, como nas “bodas de Caná”, sabe bem qual é nosso problema, e pede ao seu Filho que o solucione. Quando oramos com devoção a Maria, ela nunca nos falta.

Às vezes a solução não é imediata, ou não resulta como nós esperávamos. Mas o certo é que, antes ou depois, de um modo ou de outro, graças à sua intercessão nosso coração se cura, convertendo-se na esplendorosa Jerusalém que tanto sonhava o profeta: um lugar onde reina o amor, a alegria, a justiça e a felicidade.

Os mestres espirituais nos dizem que os tempos de crises são oportunidades que Deus nos dá para amadurecer interiormente e aproximamo-nos mais dele. Por mais vazios que nos sintamos, é importante não deixar de amar a Deus e desejar seu regresso. Ainda que às vezes isto seja difícil, com a ajuda de nossa Mãe, a Virgem Maria, nossa alma voltará a sentir-se a “predileta” e a “desposada”, a “alegria de teu Deus”. E, assim, da crise sairemos fortalecidos.

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