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Coluna de Padre Assis: Escutar o Filho de Deus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 24 de fevereiro de 2018 às 16:48

*Por Padre Assis

Neste II Domingo da Quaresma queremos refletir sobre o amor, seja o de Deus pelo homem, seja o do homem por Deus. Só quando o amor passa ao terreno da experiência vital é amor poderoso e eficaz. Um amor que não passe pela experiência corre o perigo de degenerar em egoísmo, em abstração ou em puro sentimentalismo.

Abraão experimentou o amor fiel de Deus por isso seu amor permaneceu firme no momento da prova. Jesus experimentou o amor do Pai e o amor às pessoas, por isso pode abraçar a cruz com decisão e liberdade. São Paulo (cf. Rm 8,31-34) experimentou o amor forte de Cristo, por isso, diz quem poderá separar desse amor.

A experiência de Abraão (cf. Gn 22,1-2.9-13.15-18) é que “Deus provê”. Ele “viu” um carneiro emaranhado no espinheiro e o ofereceu em holocausto em lugar do seu filho Isaac e assim mostrou seu amor agradecido ao Senhor.

No início da narração aparece um verbo: “pôr à prova”, que vai presidir a todo o relato e vai definir o sentido dessa história. Deus vai “submeter Abraão a uma prova”. A ideia de que Deus submete o seu Povo ou indivíduos a “provas” é relativamente frequente no Antigo Testamento. Estas “provas” servem, normalmente, para que Deus possa conhecer o coração do seu Povo e experimentar a sua fidelidade.

A “prova” a que Abraão é submetido é especialmente dramática. Deus não podia pretender a morte de Isaac, fazendo com que Abraão seguisse os bárbaros costumes cananeus; apenas quer ”por à prova”, isto é, avaliar a fé, a obediência e o amor do seu eleito: O Senhor pede-lhe algo absurdo humanamente, que ofereça o seu único filho Isaac em holocausto.

Contudo, Isaac não é, apenas, o filho único e amado de Abraão, ele é também, o herdeiro da promessa. Isaac é a garantia de um futuro, dessa descendência numerosa que irá tomar posse da terra; é a garantia dessas promessas que deram sentido à peregrinação de Abraão desde que Deus o mandou deixar a sua terra, a sua família e a casa de seus pais. Como é que Abraão vai reagir a esta “prova”?

Do princípio ao fim, Abraão não abre a boca a não ser para dizer: “Aqui estou!” Expressão de disponibilidade total diante de Deus. De resto, Abraão não discute, não argumenta, age, apenas. Todo o comportamento de Abraão ao longo desta “crise” testemunha que ele “teme o Senhor”. A história do sacrifício de Isaac destina-se, sobretudo, a propor-nos Abraão como o protótipo do crente ideal, que sabe escutar Deus e acolher os seus projetos com obediência incondicional, com confiança total. Mesmo que as propostas de Deus resultem incompreensíveis.  

Na nossa vida, contudo, nem sempre Deus ocupa o lugar central. Com frequência, o dinheiro, o poder, a carreira profissional, o reconhecimento social, o sucesso, ocupam o lugar de Deus e condicionam as nossas opções, os nossos interesses, os valores que nos orientam. 

Os apóstolos Pedro, Tiago e João “viram” o Senhor transfigurado (cf. Mc 9,2-10) e pelos olhos veio o desejo de ficar ali contemplando e vivendo esta experiência inefável. Os olhos são as janelas do amor: por eles entra o amor como o raio de luz, e pelos olhos passa transparente e luminoso o raio do amor do coração até a pessoa amada. Isso que acontece com o amor humano, sucede igualmente nas relações de amor entre as pessoas e Deus.

“Este é meu Filho amado, escutai-o” (v. 7). Com estas palavras, Deus Pai dava Jesus Cristo à humanidade como seu único e definitivo Mestre, superior às Leis e aos profetas. É doce ao ouvido escutar a voz da pessoa amada. Por isso Abraão que ama a Deus escuta sua voz que lhe chama e em seguida responde: “Aqui estou!”, em um gesto de disponibilidade do amor. Por isso o Pai convida aos discípulos a escutar o Filho Jesus para que através das suas palavras chegasse a seus ouvidos as revelações do amor. Escutar a voz do amado traz em si uma atitude de obediência cristã, coincide com a escuta da voz divina, que põe em movimento o desejo de fazer o que quiser o amado.

O ser humano atual é quem, sem duvida nenhuma tem escutado e escuta mais palavras em toda a história desde suas origens. Muitas dessas palavras lhe agradam e as escuta com gosto. Outras lhe aborrecem e então simplesmente fecham o canal de comunicação ou buscam outra conversa mais agradável.

Existem palavras que causam medo, palavras dos pais, palavras dos educadores, palavras das leis, palavras da Igreja.

Onde fala Jesus hoje, para que possamos escutá-lo? Fala-nos antes de tudo por meio de nossa consciência. Mas por si só ela não basta. É fácil fazê-lo dizer o que nós gostamos de escutar. Por isso, necessita ser iluminada e sustentada pelo Evangelho e pelo ensinamento da Igreja. O Evangelho é o lugar por excelência no qual Jesus fala-nos hoje.

Mas sabemos por experiência que também as palavras do Evangelho podem ser interpretadas de maneiras distintas. Quem nos assegura uma interpretação autêntica é a Igreja, instituída por Cristo precisamente com tal fim. “Quem a vós escuta, a mim escuta” (Lc 10,16). Por isso, é importante que busquemos conhecer a doutrina da Igreja, conhecê-la em primeira mão, como ela mesmo a entende e a propõe, não na interpretação, frequentemente distorcida, dos meios de comunicação.

Quase igualmente importante como saber onde fala Jesus hoje é saber onde não fala. Ele não fala certamente através de magos e adivinhos. “Escutai-o!” Há um só mediador entre Deus e os homens; não estamos obrigados a ir “às cegas”, para conhecer a vontade divina, a consultar isto ou aquilo. Em Cristo temos toda resposta.

Lamentavelmente, os ritos pagãos voltam a estar na moda. Como sempre, quando diminui a verdadeira fé, aumenta a superstição.

São João da Cruz (1542-1591) dizia que desde que, no Tabor, disse-se de Jesus: “Escutai-o!” Deus se fez, em certo sentido, mudo. Disse tudo; não tem coisas novas para revelar. Quem lhe pede novas revelações, ou respostas, ofende-o, como se não se houvesse explicado claramente ainda. Deus segue dizendo a todos a mesma palavra: “Escutai-o! Lede o Evangelho: aí encontrareis nem mais nem menos do que buscais”.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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