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Coluna de Padre Assis: Cristianismo sem seguir a Cristo não existe

Padre José Assis Pereira. Publicado em 8 de setembro de 2019 às 12:30

“Naquele tempo: Grandes multidões acompanhavam Jesus”. Assim começa o Evangelho de hoje (cf. Lc 14,25-33). Jesus a caminho de Jerusalém, como em outras ocasiões encontra-se rodeado por multidões que o seguiam. No entanto, Ele não alimenta ilusões. Não se deixa enganar pelos entusiasmos fáceis das pessoas. Parecia fácil seguir este jovem e brilhante pregador; que falava com autoridade, amava as crianças e preferia a companhia dos pobres.

Também hoje somos muitos os que nos dizemos cristãos. Nossa sociedade segue sendo considerada majoritariamente cristã. Mas, a questão hoje, como ontem, não pode perder-se na constatação estatística ou numérica, mas se estamos ou não dispostos a seguir Jesus. “Seguir Jesus é um compromisso sério e ao mesmo tempo alegre; exige radicalidade e coragem”, diz o Papa Francisco. O seguimento de Jesus é radical, portanto, não se pode tomá-lo superficialmente, nem tampouco pretender adaptá-lo aos gostos ou caprichos pessoais por mais atrativos que possam ser.

O seguimento de Jesus tal como o Evangelho sinaliza se deve viver com coerência. O ponto forte da mensagem de Jesus na perícope do Evangelho de hoje, não é tanto “carregar a cruz”, mas sim “caminhar atrás de mim, seguir-me”, diz Jesus às multidões. Comumente dá-se mais destaque ao “carregar a cruz”, usado infelizmente para alimentar uma espiritualidade e atitude conformista de pensar, que Deus quer o nosso sofrimento: “Jesus carregou a sua cruz pesada e eu tenho que carregar a minha cruz que ele me deu, a isso devo me conformar”. Mas será isso a que Jesus me chama e pede a mim?

Em que consiste para o cristão escutar o chamado de Jesus a “carregar a cruz”? Consiste em uma entrega generosa pela humanidade inteira. Não pretendamos rejeitar a cruz com algum método, pensando que o cristianismo ou a vida mesma será mais fácil. Um cristianismo sem cruz não existe. Por outro lado, o cristão há de ter claro em que consiste a cruz, porque  pode acontecer que, às vezes, ponhamo-la onde Cristo não a pôs. Todavia, pode acontecer que um cristão, tratando de assumir a cruz de Cristo, viva mortificando-se em diversos aspectos de sua vida. Não deve ser assim. Deus não quer o nosso sofrimento! O sofrimento não é caminho de salvação. O caminho de salvação é Jesus, “Caminho, Verdade e Vida.” (Jo 14,6)

É importante recordar que a cruz cristã só se entende em seu conteúdo mais genuíno a partir do seguimento a Jesus e do serviço à causa do Reino. Jesus chama seus discípulos a segui-lo pondo-se incondicionalmente a serviço do Reino de Deus. A cruz não é senão o sofrimento que se produzirá na vida do discípulo como consequência desse seguimento fiel a Cristo, seu projeto e o destino doloroso que o discípulo compartilhará com Cristo se seguir realmente seus passos: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo.” (v. 27)

Esta humilde observação é muito importante já que na atualidade, às vezes, se chama facilmente cruz a qualquer coisa que faz sofrer, inclusive as contrariedades e sofrimentos que a vida nos traz, gerados por nossas escolhas erradas ou nossa maneira equivocada de viver. Na realidade, não temos de confundir a cruz com qualquer desgraça ou contrariedade que encontramos na vida. A cruz não é o mal ou o destino penoso, mas sim o sofrimento que resulta para nós unicamente do fato de estar seguindo configurados a Cristo. A cruz é um sofrimento vinculado não à existência natural, mas sim ao fato de ser e agir como cristão.

Viver como cristão incomoda frequentemente na sociedade, e inclusive na Igreja. Se alguém vive evitando os problemas e conflitos, se não sabe correr riscos, se não está disposto a suportar as incompreensões e o sofrimento pelo “Reino de Deus”, não pode ser discípulo de Jesus.

Segui-lo, supõe aceitar em nosso coração o peso do amor com todas as exigências e consequências, isso certamente nos assusta. Não buscamos a cruz, ela inevitavelmente vem, se instala, faz sofrer. Essa cruz é a que devo levar atrás de meu Mestre. Segui-lo carregando a cruz é caminhar por onde Jesus caminhou, é seguir atrás dele, porque quando se caminha atrás de alguém, fica fácil ver o que o outro faz para, assim, poder imitá-lo. Por isso o discípulo não é chamado a caminhar nem à frente nem ao lado do Mestre, mas sim atrás dele seguindo-o.

“Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!” (v. 33) Seguir Jesus supõe fazer uma opção por Ele, e toda opção exige renúncia. É escolher isso ou aquilo. A opção feita irá marcar nossa vida. O seguimento de Jesus requer renunciar a todo tipo de apegos, inclusive afetivos: “quem não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” (v. 26) Desapegar-se, negar-se ou esquecer-se de si mesmo, dos próprios interesses pessoais para fixar o olhar em Jesus para se converter em autênticos e verdadeiros discípulos seus, seguindo-o. Aderir radicalmente a Ele, porque o discipulado requer a absoluta liberdade do discípulo levando uma vida ao estilo de Jesus em nosso tempo e em nosso mundo.

Definitivamente, a cruz que Jesus aceitou não era qualquer sofrimento. Se Jesus aceitou a cruz não foi por que o Pai lhe impôs ou por gosto, mas sim como consequência, porque não quer negar-se a si mesmo nem ao Pai que ama sem fim a humanidade e busca a felicidade de todos seus filhos e filhas. Portanto, temos de afirmar que o Evangelho de Cristo e seu alegre anúncio de felicidade passam pela cruz. Por isso, ignorar a cruz de Cristo para orientar tudo a uma busca de felicidade, utilizando inclusive a religião como um meio mais para o desfrute ou a satisfação dos desejos imediatos, é desvirtuar a cruz e falsear o cristianismo.

Por a cruz de Cristo no centro da vida cristã não significa centrar o cristianismo no dolorismo neurótico ou na aceitação resignada dos sofrimentos da vida, renunciando a toda busca de alegria e felicidade. A cruz não é negação da aspiração da pessoa humana à felicidade, nem tampouco resignação ou aceitação masoquista da dor como único caminho para merecer uma felicidade que se situaria exclusivamente na outra vida.

A mensagem: “cruz aqui e felicidade na eternidade” falseia o núcleo da boa notícia de Jesus Cristo. Porque o anúncio cristão não se reduz a oferecer uma salvação para a outra vida e a exigir aqui, para merecê-la, sofrermos com paciência, sabendo praticar a mortificação, o sacrifício e a repressão das tendências à felicidade.

É nesta vida onde o ser humano deseja a felicidade e a sente tão pouco, onde Jesus nos convida a acolher o Reino de Deus e onde aprendemos também a não só “carregar a cruz”, mas sim “caminhar atrás dele”, segui-lo.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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