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Coluna de Padre Assis: Chegou a hora da cruz

Padre José Assis Pereira. Publicado em 17 de março de 2018 às 12:03

Por Padre José Assis Pereira

Os cristãos católicos ao aproximarem-se os dias solenes da paixão salvadora e da ressurreição gloriosa de nosso Senhor assumem um enorme desafio: ver Jesus e mostrá-lo ao mundo, através do anúncio do Evangelho, da cruz e do testemunho.

Quem é Jesus? Essa pergunta o próprio Jesus fez e continua a fazer: quem sou eu realmente ou quem eu gostaria de poder mostrar. Chegou, pois a hora desta revelação. Chegou a hora da cruz!

O Evangelho deste quinto domingo da Quaresma (cf. Jo 12,20-33) nos aproxima da verdadeira figura de Jesus Cristo: não é um “superman”, nem um “super-herói”. Sendo o Filho de Deus, lhe aguarda a cruz, o sofrimento e a morte: “Chegou a hora” anunciada por Ele. A hora de deixar-se amar pelo Pai e amar os seus até o fim.

Hora da “entrega” da vida ao Pai, hora da mudança em nova vida, hora da passagem; sua páscoa para o Pai, passar desta realidade para a nova realidade de glorificado-ressuscitado. Os evangelhos, sobretudo os sinóticos, nos remetem a esta hora, ao “Getsêmani”: um estado de angústia, de luta interior.

Como qualquer ser humano, também a sua alma se sente perturbada pelos próximos acontecimentos. “Agora me sinto angustiado.” (v. 27) Jesus “angustiou-se” ao aproximar-se a hora de enfrentar a morte. Ele tinha plena consciência de que ia sofrer uma morte violenta, e que todos iriam abandoná-lo. Ele sentiu a carga psicológica que isso implica e apela à compaixão do Pai: “Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim.” (v. 27)

Talvez até nos perguntemos que Deus é esse que permite o sofrimento e a morte do seu Filho. Acreditamos num Deus que é Amor ou num Deus que impassível deixa sofrer e matar seu Filho? Mas Deus amou o seu Filho e ama-nos no meio dos sofrimentos. Ele não nos tira do nosso sofrimento. Em obediência ao Pai e por nosso amor, Jesus a tudo se sujeitou. Ele como homem angustiou-se, preocupou-se, como nós às vezes estamos tão perturbados. O que fazemos quando estamos angustiados e o que Jesus faz? Abaixou-se ao mais profundo de nossa dor; sofreu como qualquer outro mortal as terríveis dores físicas e morais e a repugnância ante sua morte: “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus.” (Heb 5,7)

Mas, como Jesus “foi atendido”, em quê? É dificil dizer. Sabemos que Ele sofreu e morreu na cruz depois de sua oração no Getsêmani. O autor da carta

aos hebreus descreve com palavras cheias de realismo a oração e a angústia de Jesus. Se o autor fala que “Ele foi atendido”, isto só pode ter dois sentidos: que Jesus não conseguiu a libertação do cálice de amargura, mas alcançou a coragem para enfrentar a sua paixão identificando-se plenamente com a vontade do Pai. Ou, que o realismo da morte de Cristo, os gritos e lágrimas que Deus escuta, não evitando a morte, mas pela ressurreição, converteu-a em fonte de salvação.

Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa obediência a Deus por aquilo que ele sofreu” (Heb 5,8). Obedecendo, escutando o Pai, ou melhor, por aquilo que sofreu aprendeu o que é obedecer, a ser fiel à Aliança de Amor do Pai. Não é que o sofrimento tenha sido o meio para aprender a obediência, mas a consequência desta. Trata-se de uma aprendizagem não teórica, mas existencial.

Eu te amei com amor eterno, por isso conservei para ti o amor.” (Jr 31,3) A revelação do Deus da Aliança, este infinito amor começa logo após a queda dos nossos pais no paraíso. Esse amor foi reafirmado por Ele através das várias Alianças ao longo da história da salvação, como vimos ao longo destes domingos da Quaresma da Aliança: a aliança com Noé, o sacrifício de Abraão, a Lei de Moisés, a aliança de Deus com seu povo na crise dramática do exílio da Babilonia… O profeta Jeremias anuncia uma nova Aliança (cf. Jr 31,31-34). “Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei… uma nova aliança… Imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la en seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo.” Este oráculo é uma das grandes professias messiânicas. Esta “nova aliança” tem seu pleno cumprimento em Jesus Cristo. Ele é quem viverá de modo pleno, total, absolutamente fiel, a união com Deus.

A imagem do grão de trigo apresenta um traço básico do mistério pascal: a vida brota a partir da morte. “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto.” (v. 24) A história de um grão de trigo nos ajuda a entender a nós mesmos e o sentido de nossa existência. Cair na terra e morrer não é só o caminho para “dar fruto”, mas também para seguir vivendo!

O que ocorre com o grão de trigo que se recusa a cair na terra? Vem algum pássaro e o come, ou seca, ou é moído na farinha, comido e aí termina tudo. Se ao contrário o grão de trigo é semeado, reaparecerá e conhecerá uma nova vida. O grão de trigo é a imagem da vida cristã. É preciso morrer para germinar, para gerar frutos.

Jesus aceita ser grão que morre para frutificar abundante. Em Jesus se dão as mãos duas realidades fortemente antagônicas: a morte e a fecundidade. Nós em geral, não estamos dispostos a perder a vida. Cristo, em troca, a perdeu, não se apegou a ela, e dessa maneira a ganhou para sempre e nos alcançou a possibilidade de também nós a ganharmos, seguindo seus passos.

Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer servir, siga-me…” (vv. 25-26) Jesus exige dos seus discípulos não ter medo de ser semente, de ser grão de trigo, de ser pão para a vida do mundo; não ter medo de perder a própria vida. Como diz o compositor e cantor Gilberto Gil:

O amor da gente é como um grão

uma semente de ilusão

tem que morrer pra germinar

plantar nalgum lugar

ressuscitar no chão

nossa semeadura

quem poderá fazer aquele amor morrer…

se o amor é como um grão

morre, nasce trigo

vive, morre pão.”

Muitos de nós já vivemos a experiência de aceitar algo que preferíamos não ter que enfrentar por causa de um bem maior, por causa do amor. Quem faz isso pode parecer um perdedor para quem olha de fora, mas cada um sabe em nome de que valor se é capaz de enfrentar dificuldades e depois dizer: valeu à pena!

Há situações na vida as quais a “parábola do grão” coloca uma luz tranquilizadora. Você tem um projeto que lhe importa muito; por ele trabalha ou dá a vida. Este projeto havia-se convertido no principal objetivo da sua vida, e eis que você o vê como caído na terra e morto. Fracasso total! Lembre-se do grão de trigo e espere. Nossos melhores projetos e afetos devem muitas vezes passar por esta fase de aparente morte para renascer com frutos.

Jesus deixa aos seus discípulos a última e suprema lição; que devemos aprender. Com a sua morte aprendemos que é preciso amar até o fim. Qual a nossa resposta a tanto amor? Como devemos nos sentir profundamente gratos e devedores a quem tanto nos amou! Não podemos ficar indiferentes à cruz de Jesus, ao seu mistério pascal. Contemplemos mais profundamente o Amor infinito que Deus nos revela na paixão e morte de seu Filho, descubramos que, como diz o Papa Francisco, “a cruz de Cristo é fecunda. Os cristãos podem tornar-se ‘grãos de trigo’ e dar muito fruto se como Jesus, ‘perderem a própria vida’ por amor de Deus e dos irmãos.”

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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