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Coluna de Padre Assis: Chamados ao amor

Padre José Assis Pereira. Publicado em 4 de maio de 2019 às 12:19

A Eucaristia que celebramos, especialmente aos domingos, dia do Senhor é a refeição pascal com Cristo Ressuscitado. É celebrar a alegria da presença viva do Cristo que prometeu: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt 28,20).

No Evangelho deste III Domingo da Páscoa (cf. Jo 21,1-19) vemos a terceira aparição do Ressuscitado a Pedro e um grupo de discípulos que não eram mais que sete: quatro pertencentes ao grupo dos “doze” e três dos “outros”. Número que tem um caráter simbólico expressando a plenitude e a totalidade.

Nesta aparição a diferença das anteriores é que se dá junto ao lago de Tiberíades ou mar da Galiléia. Muitos encontros com Jesus aconteceram às suas margens. Suas águas limpas e azuis foram o cenário íntimo dos encontros de Jesus com aqueles aos quais chamou a serem seus discípulos. Neste relato se funde dois episódios primitivamente distintos: uma “pesca milagrosa” e uma “refeição pós-pascal”.

No primeiro episódio através da linguagem simbólica da pesca, João sublinha qual deverá ser a missão dos discípulos: “pescadores de homens” e descobrir, através dessa “pesca”, que para serem bons pescadores, não basta sair para pescar, como o fizeram Pedro e seus companheiros, mas que é necessário escutar o chamado do Ressuscitado, porque sem a presença de Jesus, sem seu animo e sua orientação, não tem evangelização fecunda. O que parecia impossível, o que nunca teriam conseguido sozinhos conseguiu-o com a ajuda do Senhor. “Sem mim, nada podeis fazer!” (Jo 15,5)

É o Senhor quem fez o milagre! A confiança no Senhor os salvou. Como é perigoso, certamente pensou Pedro, confiar-se só em si mesmo e querer fazer todas as coisas em nome próprio. A autossuficiência, a vaidade, o egoísmo se metem facilmente entre as frestas da nossa alma e nos empurram a todos, bispos, padres e ministros leigos e leigos a caminhar muitas vezes na direção equivocada do personalismo e até autoritarismo do poder.

A “pesca” é responsabilidade de toda a Igreja; essa é a missão da Igreja, mas a figura de Pedro é central neste episódio rico de simbolismo: a barca representa a Igreja, agora guiada por Pedro; a rede cheia de peixes e que não se rompe assinala, por um lado, a unidade da Igreja e por outro, a capacidade de acolher em seu seio todas as pessoas sem distinção de raça, sexo, cultura, condição social, mentalidade…, a todos sem exceção. Essa mesma plenitude e universalidade da Igreja aberta a todos os povos e nações se representam com o número de peixes que pescaram: 153. Representa o grande número dos que aderiram à pregação dos apóstolos.

No segundo episódio, o Senhor se reúne com seus discípulos e come com eles. Esta refeição tão frugal de peixes e pão, preparada pelo próprio Cristo é símbolo do banquete eucarístico. Tudo nos ajuda a compreender a presença de Jesus Ressuscitado na vida da Igreja. Comer com o Ressuscitado é um símbolo de que Cristo está vivo no meio de nós. Cada dia, quando celebramos a Eucaristia revivemos esta mesma refeição. É o Senhor Ressuscitado que nos convida a comer com Ele e se nos dá como alimento.

Hoje Jesus Ressuscitado se reúne conosco porque quer fazer-nos comunidade, porque quer renovar-nos na fé pascal, porque quer fazer-nos suas testemunhas. Como fez com Pedro, a única pergunta que nos faz é se o amamos, se o queremos. Na conversa à mesa Jesus dialoga com Pedro. É estremecedora esta passagem: se por três vezes Pedro havia negado o Senhor, por três vezes agora o Senhor lhe pergunta se ele o ama. Pedro não pode dizer com toda verdade que o ama, pois é certo que lhe negou por três vezes. Mas apesar destas faltas de amor de Pedro, que negou o Mestre, Jesus confia nele e o encomenda que cuide de seu rebanho. Finalmente lhe diz: “segue-me”. Deus só espera de nós isto, que amemos. Que amemos a Ele e que amemos de verdade ao próximo. O mesmo amor que Deus tem por nós, até o ponto de dar a vida na cruz, é o que espera agora de nós.

É verdade que todas as virtudes cristãs nos fazem bons cristãos e todas são necessárias. Mas é o amor cristão o que melhor nos define como cristãos, quer dizer, como filhos e filhas de Deus e irmãos de Jesus Cristo e do próximo. É que realmente o amor cristão inclui e engloba todas as outras virtudes humanas e cristãs: não se pode praticar a verdadeira justiça cristã sem ter amor cristão. E o mesmo podemos e devemos dizer das virtudes da solidariedade cristã, da paz cristã, verdade cristã, da defesa cristã da vida…

É verdade que a palavra “amor” tem tantos significados. Por isso, devemos compreender que muitas pessoas nos censuram a nós cristãos que falamos muito de amor e menos de justiça, paz e verdade. Mas a verdade é que viver e praticar o amor cristão é o mais difícil e importante que pode fazer uma pessoa cristã. Quem não trata com justiça social os seus empregados não pode dizer que tem amor cristão, nem é uma pessoa cristã. E o mesmo podemos dizer de todos os empresários, políticos, banqueiros, governantes etc. Por isso, Jesus, antes de entregar a Pedro o cuidado de seus cordeiros e ovelhas, só lhe pergunta se o ama, porque sabe que se o ama a Ele, amará também a seu próximo.

A história de Pedro também se pode repetir hoje em nossa Igreja e em cada um de nós. Jesus sabe da debilidade e “negações” de seus pastores, apesar de todos os dias lhe dizerem o quanto lhe amam. Não temos que demonstrar-lhe competência nenhuma, nada, somente apoiar nosso ministério, nosso serviço pastoral, nosso amor em seu Amor, e nossa fidelidade em sua Fidelidade.

Como Pedro e seus companheiros continuamos a ouvir o forte e comprometedor convite de Jesus: “Segue-me.” Seja qual for a nossa missão ou função na Igreja e no mundo, elas só terão sentido na medida em que realmente descobrirmos como Pedro que “Tu sabes tudo” de mim, de cada um de nós. Que poderemos amá-lo como Ele quer ser amado, amarmos a Jesus, a Igreja e aos outros, com um amor que só se faz autêntico se se faz entrega generosa aos mais pobres e necessitados de amor.

Ao mesmo tempo tomamos consciência das dificuldades que esse amor, esse papel, esse ministério traz. Chegará o momento em que, como foi profetizado a Pedro: “Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres”, o levarão amarrado, lhe perseguirão, caluniarão, maltratarão e lhe crucificarão. A profecia se cumpriu em Simão Pedro e seguirá se cumprindo. Porque também hoje o mesmo que ontem e amanhã, o que está no lugar de Pedro, o Papa Francisco sofre em sua carne a dor de ser fiel a seu divino Mestre.

O Senhor Ressuscitado deseja encontrar-se conosco. Ele preparou para seu povo um banquete no Céu. Até então, a Eucaristia que celebramos é uma garantia desse banquete que nos preparou. Vivamos com prazer esta festa pascal, e que esta celebração nos ajude a crescer cada dia no amor.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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