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Coluna de Padre Assis: A virtude ética-cristã da humildade

Padre José Assis Pereira. Publicado em 1 de setembro de 2019 às 9:37

No evangelho de hoje (cf. Lc 14, 1.7-14) Jesus aparece como o Mestre sábio que ensina a virtude da humildade numa refeição na casa de um fariseu, num dia de sábado (v.1). Ora, os fariseus, em troca, não têm interesse por aprender, creem saber tudo. Tão somente buscam um pretexto para criticá-lo e desautorizá-lo.

Para as refeições nas “comunidades farisaicas” se tinha o cuidado de não convidar ninguém que não cumprisse com as normas estritas de comportamento, de preceitos etc. Não era admitido qualquer um nestas ceias que tinham duas funções principais: eram lugares para o debate e a controvérsia sobre diversos temas de interesse, e serviam aos anfitriões para demonstrar seu status, para competir em prestígio e reconhecimento social com seus convidados e concidadãos. Este último é o motivo pelo qual os convidados buscam reclinar-se nos lugares mais próximos ao anfitrião. E é o que Jesus vai censurar através de duas parábolas (vv.8-14).

Na primeira parábola Jesus se dirige aos comensais a propósito do lugar que devem ocupar quando são convidados:“vai sentar-te no último lugar… quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado.” (v. 10-11). Comportemo-nos de maneira cortês e astuta, ainda que só seja por medo ao ridículo. Deixemos que seja nosso anfitrião quem nos mostre qual é o nosso lugar: E na segunda parábola Jesus se dirige a quem convida para que faça uma melhor escolha dos convidados: “convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te.”(v.13).

É quase impossível escutar uma parábola que se refere a um banquete e não pensar imediatamente nas parábolas do Reino. Aquelas nas quais o anfitrião é Deus mesmo. Assim Jesus convida os seus ouvintes a seguir o seu exemplo, Ele revela como é o anfitrião divino: Convida os excluídos, os pobres, os aleijados, coxos e cegos a sentarem-se à mesa com Ele. Converte o banquete em um sinal e antecipação do Reino.

Esta é a lógica desconcertante de Deus e do messianismo insistentemente reafirmado por Cristo: “Embora de condição divina, Ele privou-se de sua glória, esvaziou-se a si mesmo e tomou a forma de servo e tornando-se semelhante aos homens; por isso, foi exaltado e diante d’Ele se dobra todo o joelho.”(cf. Fl 2,6-11). Perante um Deus que se faz pobre e escolhe o último lugar na ordem social, o de servo,é necessário que os nossos banquetes de festa, e, sobretudo a mesa eucarística, na qual se deve inspirar toda a vida dos cristãos, executem concretamente o revolucionário projeto do Deus que “derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1, 52) e convida-nos a nos colocarmos no último lugar para servir, como o fez Jesus, “manso e humilde de coração.”(Mt 11,29).

Abre-se hoje uma porta para que se compreenda de um modo novo o que é a humildade evangélica. O elogio à virtude da humildade é um lugar comum na ética clássica do bem viver. Segundo a ética, a felicidade se alcança através do exercício da virtude. A pessoa virtuosa é uma pessoa sábia. A sabedoria, portanto, não consiste em acumular muitos conhecimentos, como se fossemos enciclopédias, mas sim, em saber viver. Sábio é o que sabe conduzir retamente sua vida e, por isso, o que é capaz, não de conquistar a felicidade, mas sim de acolhê-la como um dom.

Em nossos dias, a virtude da humildade às vezes se entende de forma negativa, como se fosse sinônimo de falta de coragem e decisão. Mas, também hoje, a humildade é uma virtude muito valorizada. Se tivéssemos que buscar um equivalente contemporâneo aos heróis da época clássica, aqueles que eram tomados como modelos de virtude, provavelmente nos fixaríamos nos atletas e desportistas. Identificar-nos-íamos com seus êxitos e celebraríamos seus grandes “gestas”. Cremos, além disso, que o bom desportista deve mostrar-se, no exercício de sua profissão, como uma pessoa virtuosa. Deles, como dos heróis da Antiguidade, esperamos qualidades como a honradez, a lealdade, a honestidade, a entrega, a valentia… e a humildade.

Ser humilde é ser consciente da própria fragilidade: conhecer e reconhecer as próprias limitações, só assim pode calibrar corretamente o alcance de nossas possibilidades. Ser humilde é ter a virtude da gratuidade, é ser agradecido: saber que tudo o que somos e temos o devemos aos que nos ajudaram a crescer e a amadurecer no campo pessoal e profissional, saber que nossos méritos não são nunca exclusivamente próprios.

A tradição sapiencial do Antigo Testamento se desenvolve graças ao diálogo que se entabula entre a fé judia e a filosofia grega. Os judeus são conscientes da riqueza cultural que abriga o pensamento helenístico e não se fecham a ele. Descobrem na filosofia uma ferramenta que pode ser de grande ajuda para aprofundar em sua fé. Além disso, vêm a necessidade de expressar suas crenças segundo o novo modo de pensar próprio da época, para ser entendidos e para poder justificar sua opção de vida frente a outras concepções, que se oferecem nas diferentes escolas filosóficas.

O livro de Ben Sirac, o Eclesiástico louva a virtude da humildade exatamente pelas razões que a filosofia já havia posto em relevo: face ao homem consciente de seus limites e agradecido pelos dons recebidos: “Na medida em que fores grande deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor… Pois grande é o poder do Senhor, mas ele é glorificado pelos humildes a quem ele revela seus mistérios.”(cf. Eclo 3,19-21.30-31). Onde está a novidade, então? A novidade está no horizonte em que a humildade e as demais virtudes se situam: o amor e a misericórdia de Deus. A felicidade e a plenitude que procura a vida virtuosa não podem estar senão em Deus.

A humildade evita que a pessoa se “ensimesme” e se “endeuse” servindo de antídoto contra a idolatria e o orgulho. Ajuda-nos a relativizar nossas próprias forças abrindo nosso coração à confiança em Deus. Faz-nos tomar consciência de que necessitamos dele. Permite-nos que um sincero e reverente agradecimento ao Criador seja despertado em nosso interior. Para agradecer a Deus, não tem que se “empequenecer” a pessoa; mas a pessoa deve ser consciente de sua medida porque só assim poderá abrir-se à Transcendência. O Eclesiástico, portanto, nos recorda que aquilo que verdadeiramente nos faz mais pessoas, nos aproxima mais daquele que dá sólido fundamento e sentido a toda proposta ética, Jesus nosso Mestre de Vida.

E a palavra e a pessoa de Jesus e seu ensinamento sapiencial levam à plenitude o que foi revelado no Antigo Testamento. O Reino de Deus começou com Cristo, que reconciliou definitivamente Deus com a humanidade, tal como recorda a Carta aos Hebreus (cf. Hb 12,18-19.22-24a): Jesus é “o Mediador da Nova Aliança”. Mas Deus não constrói seu reinado à margem da liberdade humana, não no-lo impõe. Por isso, ainda que o Reino de Deus não possa reduzir-se a um projeto ético, contém orientações éticas, já que não é independente do que a pessoa, livremente, escolha fazer com sua vida.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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