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Coluna de Padre Assis: A salvação é de todos

Padre José Assis Pereira. Publicado em 25 de agosto de 2019 às 22:07

São Lucas nos apresenta no Evangelho de hoje (cf. Lc 13,22-30) Jesus que caminha para Jerusalém. É uma viagem prolongada a que o evangelista se refere em mais de uma ocasião. Jesus percorre cidades e aldeias ensinando que a salvação é para todos. Possivelmente a propósito deste ensinamento um ouvinte lhe pergunta: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” (v.23) Ainda que pareça estranha esta pergunta, temos que levar em conta que ela era normal no ambiente farisaico daquele tempo e se segue repetindo de diferentes maneiras e tons no tempo presente.

À pergunta que lhe fazem Jesus não dá uma resposta direta dizendo se os que vão se salvar, são muitos ou poucos. Mas indica um caminho, uma “porta” que leva à salvação, a conversão. Jesus responde a seu ouvinte apresentando-lhe a exigência do Reino: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão.” (v.24)

A imagem da “porta estreita” usada por Jesus é muito ilustrativa. Naquele tempo, quando começava a escurecer, fechavam-se as portas da cidade e dos palácios e abria-se uma pequena porta, por onde só passava uma pessoa por vez, podendo-se assim controlar quem entrava e quem saia. Além da porta estreita sugerir a penitência, sugere também que a passagem para o Reino é um assunto individual: cada um, com os próprios pés e na própria vez, entra ou sai. Não se entra por delegação. Não posso mandar outro a participar do banquete do Reino no meu lugar. Não posso tomar o lugar de outro. A salvação é uma decisão intransferível.

“Mas onde está a porta? Quem é a porta? O próprio Jesus é a porta, como Ele mesmo diz no Evangelho de João: “Eu sou a porta” (Jo 10,9). Mas, por que Ele diz que a porta é estreita? Ela é estreita não porque é opressiva, mas porque exige que limitemos e contenhamos o nosso orgulho e o nosso medo, para nos abrirmos a Ele com coração humilde e confiante, reconhecendo-nos pecadores, necessitados de seu perdão. Por isso é estreita: para conter o nosso orgulho, que nos incha. A porta da misericórdia de Deus é estreita, mas permanece sempre escancarada para todos! Deus não tem preferências, mas acolhe sempre todos, sem distinções.” (Papa Francisco)

A imagem da porta sugere a ideia de passagem, do limiar entre o conhecido e o que está por trás da porta, o desconhecido. Ela se abre para um mistério; ao mesmo tempo leva psicologicamente a uma ação: abri-la, fechá-la ou ultrapassá-la. Passar para o Reino, para dele participar exige esforço, luta, superação, transformação do coração, conversão. Jesus faz-nos um convite irrecusável: “fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita” ou o que é igual, sair dos maus hábitos, dos vícios, dos egoísmos e dos fechamentos, uma mudança autêntica. Pensemos naquilo que temos dentro de nós e que nos impede de atravessar a porta estreita: os nossos pecados. E depois pensemos na outra porta, naquela porta aberta, porta da salvação, da misericórdia de Deus, que do outro lado nos espera de braços abertos para nos conceder o perdão e o abraço acolhedor de paz.

A salvação, segundo Jesus, começa pela conversão. Qualquer um, “do oriente ou do ocidente, do norte ou do sul, tomarão lugar à mesa do Reino de Deus” (v.29), pois o Reino é uma comunidade de “porta estreita” para aqueles que se opõem ao Evangelho, mas aberta para quem deseja aderir a sua mensagem humanizadora. Portanto, a questão não é quantos se salvarão, não importa saber o número, o importante é que todos saibam qual o caminho, qual a porta que leva à salvação.

Esse universalismo da salvação, Israel descobriu na dolorosa experiência de sua deportação para o exílio na Babilônia, ao viver entre os pagãos. O livro do Profeta Isaías se encerra (cf. Is 66, 18-21) abrindo o horizonte a uma visão ecumênica; à universalidade da salvação que Deus oferece a todos os povos da terra: O Senhor reunirá todas as nações e todas as línguas para que venham contemplar a sua glória e anunciá-la entre as nações. Utilizando todos os meios humanos de transporte, as nações do mundo reconduzirão a Jerusalém os filhos de Israel que estavam dispersos. E esta grande repatriação será como uma oferenda ao Senhor, pois os pagãos também são convidados para o serviço divino, pois o Senhor escolherá também dentre os pagãos, sacerdotes e levitas. De agora em diante, todos serão um só povo eleito.

Devemos aproveitar as ocasiões que o Senhor nos faz passar pela porta da salvação. Porque num determinado momento “o Senhor entrará e fechará a porta.” (v. 25). Mas se Deus é bom e nos ama, se Ele é misericordioso, por que razão a certa altura Ele fechará a porta? Porque há pessoas que se consideram com direitos sobre o Reino: são aqueles que se aproximam da porta e pedem que se lhes abra. Suas razões parecem evidentes ao menos para eles: “Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças”. (v. 26) Evidentemente são amigos e podem ter o luxo de dizer: “Senhor, abre-nos a porta!” Mas, o Senhor responde: “Não sei de onde sois; afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!” (v. 27) Ainda que pareça que sejam amigos na realidade são inimigos. Jesus não os reconhece porque são iníquos, injustos.

Visto em si mesma a mensagem de Jesus deve ser apresentada em forma de convite à conversão ou à confiança absoluta e não como ameaça. Tal é o sentido da palavra salvadora. Vista em relação com aqueles que estão fora é um motivo de esperança.

Deus oferece sua salvação a todos por igual. Já não bastará pertencer a um povo, a uma raça, a uma cultura, a uma religião para considerar-se salvo, nem a salvação será a questão mais importante a debater. A entrada no Reino ou comunidade cristã, que é porta de salvação, se realizará pela opção pessoal e pela adesão individual a mensagem vivida na prática de cada dia. É o amor que nos salva, amor que se traduz em justiça, sobretudo para com os mais frágeis dos nossos irmãos.

Com o Papa Francisco, sonhamos com uma Igreja, com portas escancaradas, que ofereça esperança de renovação. “Igreja com as portas abertas, uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos e torne possível o nascimento de um mundo novo”. Igreja sem medo, anunciando a alegria do Evangelho, não só com palavras, mas, sobretudo “com uma vida transfigurada pelo fogo do Espírito Santo.”

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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