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Coluna de Padre Assis: A oração de Jesus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 28 de julho de 2019 às 8:00

A Liturgia deste Domingo nos oferece uma catequese sobre a oração, poderíamos até intitulá-lo como o “Domingo da Oração do Senhor”.

A oração cristã é antes de tudo e, sobretudo um diálogo intimo e pessoal com Deus, como falam dois amigos de suas vidas ou um filho com seus pais dos assuntos familiares. É comovente o diálogo-oração que Abraão dirige a Deus depois que Ele lhe revela seus planos de castigar as cidades pecadoras de Sodoma e Gomorra (cf. Gn 18,20-32). Duas coisas nos chamam a atenção deste diálogo.

Em primeiro lugar, a íntima amizade que transparece entre Deus e nosso pai na fé, Abraão. Deus conversa com Abraão como com um amigo fiel, e entre amigos não há segredos, por isso lhe confessa quais são suas intenções. A mesma confiança mostra Abraão ao recordar a Deus que seria impróprio dele castigar o justo junto com o ímpio.

E essa é, precisamente, a segunda coisa que chama nossa atenção neste diálogo: a intercessão levada a cabo por Abraão para evitar que a ação justiceira de Deus produza “danos colaterais”. Estamos, neste antigo relato do Gênesis, ante uma compreensão antropomórfica e primitiva de Deus que se aperfeiçoará ao longo dos séculos.

Mas, este peculiar regateio com Deus, diálogo todo ele perpassado de temor, confiança e certo atrevimento infantil no qual embarca Abraão, preocupado especialmente com a morte do sobrinho Ló, que se encontra em Sodoma, já supõe um importante avanço na maneira de entender o que é próprio, e o que não é, da Divindade Santa. Sua oração invoca o perdão divino para os “justos”, mesmo se poucos, que poderão encontrar-se nas cidades pecadoras.

A Bíblia também nos relata os encontros de Moisés com Deus: “O Senhor falava com Moisés cara a cara, como falava um homem com seu amigo” (Ex 33,11). O rosto de Deus que pouco a pouco se vai desvelando no Antigo Testamento, se nos mostra definitivamente em Jesus, o Orante do Pai. Entender a intercessão do justo pelo pecador, desviando a justa ira de Deus deste e livrando-o do merecido castigo parece uma imagem pouco a ver com o Evangelho. Não pode ser o justo quem faz Deus ser bom, não pode ser a criatura a causa da bondade do Criador. Mas sim, a criatura pode ser a mediação para que Aquele que é a fonte de todo Bem alcance regar aqueles que murcharam por estarem longe dele.

Jesus é o homem de oração. Em numerosas ocasiões se nos fala nos Evangelhos que Ele se retirava a sós para orar. Como Filho, sua relação de intimidade com o Pai e o Espírito Santo que se manifesta em sua oração é de uma qualidade única e incompreensível para nós. Mas a comunicação com a natureza humana alcançada por sua Encarnação incorpora o ser humano a uma relação filial radicalmente nova. Por isso, Jesus não só nos ensina a orar, senão que Ele mesmo é quem faz possível uma nova forma de orar, uma nova forma de relacionar-se com Deus.

Como Jesus rezava? Ele, como judeu, conservava a tradição do seu povo; amava o templo, casa de oração, frequentava a sinagoga. Casa da Palavra e fazia as orações no ambiente familiar. Muitas são as vezes que Jesus aparece em oração. São Lucas é o que mais contempla esse aspecto da vida do Mestre. Jesus é o orante do Pai, gostava de rezar a sós, durante noites inteiras. É característico de Lucas, portanto ter atribuído à oração de Jesus um lugar muito especial no seu Evangelho e revelou a verdadeira gênese do “Pai Nosso” (cf. Lc 11,1-13).

Vendo que Jesus rezava, os discípulos se convenceram de que nunca tinham rezado realmente em sua vida, nasceu-lhes um grande desejo de aprender a rezar: ”Senhor, ensina-nos a orar” (v.1) e Jesus satisfez este desejo dando-lhes sua própria oração.

“Quando orardes, dizei: Pai…” (v. 2) Esta palavra é o segredo da oração de Jesus, é a chave que Ele mesmo nos oferece a fim de podermos entrar também nós na relação de diálogo com o Pai que acompanhou e amparou toda a sua vida. A palavra original é “Abba”, de tão difícil tradução, tão cheia de ternura filial e de confiança, tão familiar e simples, quase infantil, que os judeus nunca a empregariam para chamar o Senhor.

Ao apelativo “Pai”, Jesus associa duas solicitações: “santificado seja o teu nome. Venha o teu reino.” (v. 2) Portanto, a oração de Jesus, a oração cristã, é antes de tudo dar lugar a Deus, deixando que Ele manifeste a sua santidade em nós fazendo com que se aproxime o seu Reino, a partir da possibilidade de exercer o seu senhorio de amor na nossa vida.

È certo que as relações que Jesus estabelece entre Deus e a pessoa humana são relações pessoais, de tu para tu. Mas também é verdade que essas relações passam pelo próximo, até o ponto que se nos esquecermos dos irmãos não poderemos chegar até o “nosso” Pai. Assim, pois, não se pode ser filho de Deus sem ser irmão uns dos outros. Por isso o chamamos “nosso Pai” e pedimos: “dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores.” (vv. 3-4)

Como de fato vivemos todos rodeados de tentações, tanto as que nascem dentro de nós mesmos, como as tentações que nos veem do exterior, devemos pedir a Deus que “não nos deixes cair em tentação.” (v. 4)

O “Pai nosso” é a grande escola e modelo de oração do cristão, é o resumo de tudo que há de bom e tudo o que o discípulo pode desejar obter do Pai. O Pai nosso é como um caminho ou um método de oração a ser constantemente trilhado pelos discípulos, que nunca devem se cansar de bater, pedir e procurar.

Na parábola de um amigo inoportuno que não deixa em paz seu amigo, com muita insistência pedindo que este lhe empreste três pães. (vv. 5-8) Jesus quer ensinar-nos que a oração tem que ser persistente e perseverante. Depois com o exemplo do pai bom, que não será nunca capaz de dar algo mal a seu filho (vv. 11-12) conclui Jesus: “Se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”. (v. 13) Eu creio que isso é o que nós temos que pedir sempre: que o Espírito Santo que habita em nós nos ilumine, guie a nossa oração, ore em nós e nos dê forças para que sejamos capazes de fazer em cada momento a vontade do Pai.

“Entre as coisas mais importantes que Jesus nos diz hoje no Evangelho, há uma, na qual quase nunca pensamos, é o Espírito Santo, ‘Concedei-me o Espírito Santo!’ (Papa Francisco) Devemos pedir que o Espírito Santo venha a nós. Que ele venha em nosso auxílio, pois tantas vezes não sabemos o que devemos pedir (cf. Rm 8,26). São Tiago avisa-nos: “Pedis, mas não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazer vossos prazeres.” (Tg 4,3) O Espírito inspira-nos sobre o que devemos pedir e ajuda-nos a não pedirmos por egoísmo. Daí que Jesus termine referindo-se ao Espírito Santo, pois Ele é não só o maior dom que devemos pedir e que Deus nunca recusa a ninguém (cf. Tg 1,5), como também Aquele que nos orienta para a verdadeira oração. Que ele conduza a nossa oração. Que o Espírito de Jesus ore em nós. Dá-nos o Teu Espirito!

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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