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Coluna de Padre Assis: A doença da indiferença e do egoísmo

Padre José Assis Pereira. Publicado em 29 de setembro de 2019 às 7:42

A liturgia deste Domingo propõe-nos de novo, a reflexão sobre a nossa relação com os bens. A Palavra de Deus nos apresenta uma denúncia evangélica através de uma parábola que só é contada por São Lucas, o evangelista mais preocupado com os pobres, é a parábola do rico e de Lazaro (cf. Lc 16,19-31). Também a Liturgia da Palavra nos apresenta o contundente discurso do profeta Amós (séc. VIII a.C.), uma das invectivas mais fortes e incisivas deste profeta (cf. Am 6,1-7) que nos situa num contexto bem atual, o escândalo da sociedade de consumo, da civilização do conforto, da insensibilidade e indiferença para com os pobres.

Para o profeta Amós que foi definido como o “profeta da justiça social” Israel, o “povo escolhido” tem que viver segundo os critérios da justiça de Deus que pede a igualdade para todos e por isso ele lança seus anátemas contra todas as formas de injustiça social, contra a vida fácil e cômoda dos ricos, seus conterrâneos. A sua profecia é uma censura ao verdadeiro culto ao bem estar, ao luxo e conforto, à vida anestesiada perante os sofrimentos e carências dos outros.

“Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria!…” Quem são os destinatários da profecia de Amós? Ele denuncia uma classe social ociosa, que vive no luxo e que não se preocupa minimamente com o sofrimento dos outros. A classe dirigente do Reino do Norte, seus compatriotas que enriqueceram e vivem comodamente nos seus palácios, esbanjando luxo, que vivem numa eterna festa; verdadeiros parasitas que se deitam “em leitos de marfim”, que comem alimentos selecionados, que bebem vinhos raros em excesso, que usam perfumes importados, que se divertem (cf. vv. 4-6).

O mais grave, no entanto, que o profeta não diz diretamente, é que todo este luxo e esbanjamento resultam da exploração da classe mais pobres. Esta classe rica vive mergulhada no seu mundo cômodo, os pobres, no entanto, vivem no sufoco, trabalham duramente para sustentar o luxo da classe dirigente. É evidente que Deus não está disposto a pactuar com isto, pois este sistema injusto não tem nada a ver com o seu projeto para a humanidade. Por isso, o castigo chegará em forma de exílio, o cativeiro na Assíria no século VIII a.C..

Essa realidade descrita por Amós é uma situação bem conhecida nossa. Essa crítica é incrivelmente atual, pode se aplicar a muitos de nós cristãos que vivemos alheios às carências e sofrimentos de muita gente. Se o que temos ou somos nos torna insensíveis ou nos faz perder a capacidade de nos por a serviço das outras pessoas empobrecidas,parece que não entendemos o Evangelho que Jesus pregou.

A civilização do conforto, do ócio e do bem estar, leva as pessoas a fecharem-se egoisticamente em si mesmas, alienadas, insensíveis e indiferentes aos problemas dos outros. É desumano fechar-nos em nossa “sociedade do bem estar”, ignorando totalmente essa dura realidade de miséria.

A “parábola do rico e do pobre Lázaro” (cf. Lc 16, 19-31) é igualmente uma crítica profética, radical e direta de Jesus contra os amigos do dinheiro, que procuram tornar compatível o culto a Deus e a idolatria ao deus dinheiro, que elaboram até uma teologia justificatória da prosperidade e fundam as religiões do mercado. A parábola é uma chocante descrição e denúncia da realidade social. Lucas apresenta duas situações contrastantes: de um lado, “um homem rico que  se vestia de púrpura e linho fino e cada dia se banqueteava com requinte” (v. 19) e que não se deu conta que ali ao seu lado, “havia um pobre chamado Lázaro que queria matar a fome com as sobras que caiam da mesa do rico” (vv. 20-21).

O rico viveu feliz, sem preocupações, não se deu conta que havia um pobre lá fora! Quer dizer, seu dinheiro e sua riqueza fecharam-lhe os olhos porque via egoisticamente somente a sua felicidade e isto lhe distanciou do pobre. O que mais nos impressiona é que Lázaro não está escondido, não está a quilômetros de distância, nem na tela da TV, está à porta do rico e é ali que ele morre de fome, a poucos metros da mesa onde o rico se banqueteava e nunca foi capaz de atravessar os seus jardins e levar as sobras de sua mesa para saciar a fome de Lázaro.

Também na realidade, como na parábola, há sempre uma distância, um abismo intransponível entre ricos e pobres, que a indiferença cavou e os distancia. Entre o amor a Deus a ao pobre meu irmão a quem devo me aproximar, não deveria existir distância que nos separe, mas proximidade.

O rico cobre-se com vestes de valor. A púrpura é um tecido reservado aos reis ou aos nobres. Linho fino, delicado, que se punha sobre a pele. Ele veste-se de rei, mas lamentavelmente não é lembrado pelo nome. O pobre, no entanto, que tem como vestes a sua pele chagada, tem um nome; chama-se Lázaro, que significa “o que confia em Deus”, Lázaro é o pobre que confia em Deus e Ele o ajudou. O rico que no dia a dia da alta sociedade tinha seu nome nas páginas sociais, no entanto ironicamente está destinado ao anonimato, “a sua vida cai esquecida, porque quem vive para si mesmo, não faz história”, diz o Papa Francisco: “A insensibilidade de hoje escava abismos intransponíveis para sempre. E hoje caímos nesta doença da indiferença, do egoísmo, da mundanidade”; o pobre sim tem um nome, é lembrado para a eternidade, no “seio de Abraão”, no coração de Deus.

A parábola do rico e do pobre Lázaro em nenhum momento fala que o rico tenha explorado o pobre, tenha feito um mal a ele, não se diz que ele é mal. No entanto, sua vida inteira é desumana, porque só vive o seu próprio bem-estar e ignora totalmente Lázaro. Ele sofre de uma cegueira, não consegue olhar para além do seu mundo, feito de luxo, banquetes e roupas finas. Lázaro está logo ali, mas o rico não é capaz de enxergá-lo ou de ouvir seu clamor.

Esta parábola não é coisa do passado, não descreve Jesus uma realidade dos anos 30 na Galiléia. Ele está tentando sacudir a consciência de todos que até já nos acostumamos com a miséria e só vemos as pessoas famosas, admiradas pelo mundo, os ricos e os de alto nível.

A parábola é atual, só que multiplicados os Lázaros por milhões e em situação mais dolorosa e escandalosa. Abarca as imensas multidões de famintos, mendigos, doentes, sem teto, abandonados, sem cuidados médicos e, sobretudo, sem esperança de futuro. Não se pode esquecer a existência desta realidade. Ignorá-la significaria parecermos com o rico, que fingia não conhecer Lázaro, postado na porta de sua casa e só vai reconhecê-lo na morada dos mortos. Parece que é necessário que as coisas piorem, vão mal para que nos demos conta de nossa cegueira.

É urgente romper com a cegueira, a indiferença, a insensibilidade ante o sofrimento dos outros; aterrar os abismos e deixar-se invadir pelo pedido de socorro de tantos; não podemos viver sem ouvir nenhum grito, gemido ou pranto. Os pobres não são invisíveis, têm nome e sobrenome. Dizia santa Teresa de Calcutá que “o pior mal de nosso mundo é a indiferença. Comova-se ante o sofrimento dos fracos, não lhe seja indiferente”.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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