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Coluna de Padre Assis: A difícil tarefa de continuar uma obra iniciada

Padre José Assis Pereira. Publicado em 2 de junho de 2019 às 9:31

Celebramos neste VII Domingo da Páscoa, a Ascensão do Senhor ao Céu. Sua Ascensão é uma forma de expressar, teológica e liturgicamente o culminar da vida e missão de Jesus e a sua exaltação total.

O sentido fundamental da Ascensão está nas palavras finais de Jesus no Evangelho de São Lucas (cf. Lc 24,46-53). Jesus antes de subir ao Céu, recorda aos seus discípulos qual será a missão deles: “Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações… Vós sereis testemunhas de tudo isso”. (vv. 46-48)

A missão que Jesus encomenda aos seus discípulos de todos os tempos é clara: aquilo que vimos, que experimentamos em nossa própria vida cristã e que celebramos a cada domingo na Eucaristia, não podemos guardar só para nós mesmos. É necessário contar aos outros, o que vimos, ouvimos e tocamos com nossas mãos. Somos testemunhas do Senhor.

Esta é a missão da Igreja e de cada cristão batizado: dar testemunho da Ressurreição de Cristo, de nossa fé, da alegria da salvação que Cristo nos conseguiu com sua morte e Ressurreição e de que temos as portas do Céu abertas por meio da Ascensão do Senhor que hoje celebramos.

Ao longo da história bimilenar do cristianismo nunca foi fácil cumprir esta missão: “testemunhar Cristo”. O mundo do século XXI apresenta todos os dias aos cristãos, novos desafios. É um tremendo desafio testemunhar, hoje, os valores do “Reino”, valores que, muitas vezes, estão em contradição com aquilo que o mundo defende. Com frequência, os discípulos de Jesus são objeto de gozação e perseguição. O confronto com o mundo gera muitas vezes, nos discípulos e discípulas; desilusão, sofrimento, frustração…

Como nós, as comunidades cristãs apostólicas do final do primeiro século viveram certa crise. Há desilusão, confusão doutrinária, mediocridade, falta de ânimo, de entusiasmo, criatividade e empenho na missão evangelizadora. O quadro geral é como o quadro de nossa realidade atual, certo sentimento de frustração e de impotência, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção libertadora de Deus continua adiada: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” (At 1,6) em outras palavras, quando vai concretizar-se de forma plena, o projeto salvador de Deus? Que pergunta tão inoportuna. Depois de tudo quanto lhes havia ensinado o Senhor acerca do Reino, depois de haver-lhes mostrado com sua própria morte de cruz que seu Reino não era deste mundo, ainda seus discípulos estão pensando em uma restauração política de Israel, em um triunfo imediato e meramente temporal.

É neste ambiente que podemos entender o texto dos Atos dos Apóstolos (cf. At 1,1-11): “Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas… até os confins da terra” e o “Vós sereis minhas testemunhas” do próprio Evangelho de Lucas. Para Lucas o projeto de salvação que Jesus veio apresentar passou, após a sua ida para junto do Pai, para as mãos dos seus discípulos, da sua Igreja nascente, animada pelo Espírito.

O envio do Espírito Santo, que será a força que impulsionará os seus discípulos a sair e a dar testemunho se celebrará no próximo Domingo na solenidade de Pentecostes. Preparemo-nos para receber este grande dom que Deus Pai nos dará por meio de Cristo Ressuscitado, que hoje sobe ao Céu.

Celebrar a Ascensão de Jesus significa tomar consciência desta missão confiada aos discípulos e a nós e sentir-se também corresponsável pela presença dos chamados valores do “Reino”, na sociedade, na história da humanidade. A Igreja de Jesus é, essencialmente, uma comunidade cuja missão é testemunhar no mundo a proposta de salvação e libertação que Jesus veio trazer a todos e que deixou nas mãos e no coração dos seus discípulos.

A Ascensão, não é nenhum momento dramático e cinematográfico nem para Jesus, nem para seus discípulos, é como a despedida de um “fundador”, idealizador, que sabe que sua obra não terminará nele, que deixa aos seus discípulos a tarefa de continuar sua obra, mas não os deixa abandonados à sua própria sorte, acompanha passo a passo os altos e baixos de sua fundação no mundo através do seu Espírito: “Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós” (v. 48).

Toda pessoa deve sentir em seu interior, na proximidade da morte, o desejo de ficar no mundo ou de deixar nele algo de si mesmo, de prosseguir no caminho, de certa maneira, ficando. Deixar um legado, deixar filhos que lhe prolonguem e lhe recordem, deixar uma casa construída por si mesmo, deixar um patrimônio, uma herança, uma obra, não importa se grande ou pequena, de caráter humanitário, social, científico, artístico, literário, político ou espiritual.

Jesus Cristo em sua condição de homem e Deus, é o único que pode satisfazer plenamente este desejo do coração humano. Ele morreu, Ele se vai, como todo ser histórico, mas também fica, e não só na memória, não só em uma obra, mas sim realmente. Ele vive glorioso no céu, e vive misteriosamente invisível na terra. Vive pela graça no interior de cada cristão; vive no sacrifício eucarístico prolongando sua presença. Vive e fica conosco em sua Palavra, que ressoa nos lábios dos pregadores e no interior das consciências. Se foi e se faz presente nos ministros servidores do seu povo, que o prolongam com seus lábios e com suas mãos. Essa presença e permanência de Jesus Cristo no mundo é real, mas também sacramental, oculta, só visível para quem tem seu olhar iluminado pela fé. Presença eficaz, mesmo que não seja visível e palpável.

A ascensão de Jesus enfim, recorda-nos, que Jesus foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de tornar realidade o seu projeto libertador no meio dos nossos irmãos e irmãs. Esta missão a que Ele nos chama a testemunhar e construir, o “Reino”, é uma tarefa que não está terminada, é preciso concretizá-la na história e exige o empenho contínuo de todos. Os cristãos somos convidados a redescobrir o nosso papel, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu. É essa a atitude que tem marcado a caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus lhe confiou? O nosso testemunho tem transformado a realidade que nos rodeia?

Só na fé e confiança no Espírito Santo prometido é que podemos dizer: Cristo pode ir-se tranquilo para o Pai, não porque seus discípulos e discípulas sejam heróis, mas porque seu Espírito os acompanhará sempre na tarefa evangelizadora, por todos os povos, geração por geração, até os confins da terra, até o fim dos tempos.

Cristo pode ir-se tranquilo, porque os discípulos proclamarão o mesmo Evangelho que Ele pregou, farão os mesmos sinais que Ele realizou, testemunharão a verdade do Evangelho igual a que Ele testemunhou até a morte na cruz.

Pode ir-se tranquilo, Jesus, porque sua Igreja, em meio às contradições deste mundo, e apesar das debilidades e misérias de seus filhos e filhas e de seus pastores, lhe será sempre fiel, até que voltes, será uma Igreja testemunha ou mártir como a palavra “testemunha” significa.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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