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Coluna de Noaldo Ribeiro: Além de Foucault (pitacos)

Noaldo Ribeiro. Publicado em 16 de abril de 2019 às 15:53

Não sei se nessa época em que se fala tanto em transversalidade, já se recomendou para a formação de um psicólogo, ou de um psiquiatra, a adoção do conto “O Alienista”, de Machado de Assis. Como não certeza, nem sei do interesse acadêmico, vou abordar questão.

O li em 1970, do século passado, a contragosto e preguiçosamente. Estava em plena segunda infância, fazia o ginasial, e a professora de português determinou a leitura como tarefa obrigatória.

Mesmo com má vontade iniciei a empreitada que pensei, seria enfadonha. Ledo engano. Quando tomei pé da narrativa, logo me interessei e quando conclui, fiquei com gosto de quero mais. A partir dali, tomei gosto pela leitura de um modo geral, embora, hoje, só consiga devorar um livro pela tela de um computador que permite aumentar as letras, forma de driblar o maldito astigmatismo.

Embora o aludido texto seja por demais conhecido, é bom rememorar o seu temário. Machado refere-se a um médico que galgou fama e respeito, tanto no Brasil como na Europa.

Retornando ao seu lugar de origem, dedicou-se à psiquiatria. Logo montou um manicômio. Em pouco tempo, o hospício lotou e os casos diagnosticados justificavam internação, notadamente os aceitos pela sociedade.

Dr. Simão Bacamarte, alcunha do psiquiatra em questão, começou a extrapolar os seus métodos de identificar a loucura (o que é loucura?), hospedando na “Casa Verde”, nome dado ao manicômio, pessoas que deixavam a população boquiaberta.

A partir de então, inicia-se uma onda de protestos contra a “Casa Verde” e o seu condutor. Os lideres dessas manifestações, no entanto, sempre foram eivados, em última instância, por interesses pessoais e esdrúxulos, principalmente de natureza política.

Em detrimento desses vícios originais, o enfrentamento ao Dr. Simão surte alguns efeitos, porém sempre enfraquecidos pela argúcia do doutor. Contudo, a situação esbarra em seu limite, ao se contabilizar que aproximadamente 75% da população já tinha como lar a “Casa Verde”.

Até mesmo D. Evarista, esposa do médico, fora internada pelo fato de passar a noite em claro, pelo fato da ausência de firmeza em escolher um vestido que usaria numa festividade.

Com a continuidade dos protestos, Dr. Simão resolve rever sua teoria que consistia, em síntese, na tese de que, majoritariamente, a população apresentava disfunções de personalidade, não seguindo um modelo-padrão. Depreendia daí, que loucas eram as pessoas que mantinham regularidade nos seus atos, demonstrando consistência de caráter.

Após rever suas conclusões teóricas por várias vezes, sempre desaguando em fracasso, Dr. Simão resolve liberar todos os internos da “Casa Verde”. Considerando que, abstraindo a si, os demais não possuíam personalidade perfeita, o eminente doutor finda a sua guisa conclusiva, considerando que o único anormal era ele. Assim, resolve trancafiar-se solitariamente na temida “Casa Verde”.

É claro que este breve texto não se trata de uma resenha. Em boa medida são reminiscências da leitura, no saudoso Colégio Pio XI, e breves consultas no texto do próprio Machado.

Por fim, fico a pensar, o quanto à discussão, nos bancos acadêmicos, seria instigada a partir dessa obra machadiana e que detém fortes ingredientes contemporâneos. Só para ficar num único exemplo, me vem à cabeça discutir a relação entre a relação dos conceitos psiquiátricos e o seu tempo e, consequentemente, entre a cultura deste mesmo tempo – coisa que Foucault aborda brilhantemente, mas que, com o auxílio inebriante de literatura de primeira linha, tornaria o aprendizado bem mais comestível.

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