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Campina Grande - PB

Coluna de Noaldo Ribeiro: A Criatividade de João Gonçalves

24/04/2018 às 9:11

Fonte: Da Redação

Foto: Ascom

Para João Gonçalves e Claudô Nascimento

O sexo faz parte de tudo que fazemos. Não vejo problema em falar ou representar isso, acrescenta Robson Adorno, vocalista da banda Black Style e compositor dos hits Rala a tcheca no asfalto e Amassa a latinha com a bunda. (Humor bem picante é a marca das músicas de Carnaval, Juliana Dias e Maíra Azevedo, A TARDE).

Este fragmento da matéria do jornal soteropolitano anistia previamente qualquer acusação de que a música baiana venha a conter conteúdos inadequados com potência de contaminar a conduta da juventude (futuro do nosso país varonil), o que é de certa forma chancelado pelo antropólogo Roberto Albergaria da UFBA quando diz: “A música baiana sempre teve muita brincadeiragem. Isto é uma característica da cultura popular”.

Particularmente, não sei que conceito de cultura popular albergaria está usando e nada contra a indústria cultural da Bahia, mesmo porque não tenho vocação para sensor, exceto quando me valho do direito de homem livre, em pleno gozo dos direitos cidadãos, de usar a maior invenção da tecnologia: o controle remoto.

A minha radicalizada intolerância a qualquer tipo de censura não recebeu nenhuma influência de Caetano Veloso quando, além da axé music, declarou a Mônica Vasconcelos, da BBC/Brasil em Londres que: “O funk no Brasil hoje é uma coisa totalmente brasileira. E as letras, que às vezes são muito obscenas, ou ligadas ao narcotráfico e à bandidagem, ficaram cada vez mais criativas. Os efeitos sonoros também“.

Não se sabe se Caetano inclui nesse amplo balaio de criatividade o funk de MC Diguinho que diz: Taca a bebida/ Depois taca a (pi, pi…) / E abandona na rua”.  

A minha defesa a favor da fala, musicada ou não, de quem quer que seja, vem da crença de que só se pode viver efetivamente em estado civilizacional quando se aprender a respeitar as infinitas diferenças que formam a diversidade que se apresenta a nossa vista. É claro que materializar uma tarefa desse tipo não é nada fácil. Precisamos demasiadamente, como diria o saudoso físico Stephen Hawking, aprendermos muito com as crianças.

Deixando as celebridades de lado, analisemos a seguinte situação: São “quatro jogadores nessa mesa, frente a frente para jogar…”. Um deles percebe fraude e reclama: “Sou pixote/não sou profissional/mas conheço de buraco a pacará/Sem trapaça/eu jogo duro e sou calado/mas roubando o meu direito é reclamar/Eu que o ás de copa/Eu quero o ás de copa/Tá tudo errado isso é jogo pra maloca…”.

A julgar por este trecho de Ás de Copa, música de João Gonçalves, não há nenhum resquício pornô, a não ser na interpretação que cada um venha a fazer.  Na verdade, pode ser incômodo para os preconceituosos, mas o que há é uma incrível habilidade do compositor de brincar inteligentemente com a riqueza dos verbetes da língua portuguesa, como já assinalei, inteligentemente.

Outra situação, aliás de cunho “educativo”, é a de um sujeito que desmaia num forró em uma área rural qualquer. Sem sinal de celular, não dá para chamar o SAMU. E aí, o que fazer? A resposta foi dada por João: “O ‘perecaio’ dançando um forró queimado/rebolou tanto que no salão desmaiou/E corre gente, acode gente, chega gente/No reboliço uma voz assim falou/Traz álcool pra ele/Dá álcool pra ele/Esfrega na venta dele/para o rapaz melhorar…”.

Saindo da seara meramente cotidiana, João Gonçalves entra em incursões de costumes de época que posteriormente seriam teorizados por teóricos pós-modernos quando dizem, que nesse novo período, o originário seria substituído pelo seu protótipo. Assim, João compôs Hippie de Araque: Pra que tu quer isso pendurado ai, Luizão/Pra que tu quer isso pendurado ai/Essa correia de couro cru no pescoço, Luizão/Pra que tu quer isso pendurado ai/Uma corrente de ouro ou mesmo de prata, Luizão/Ainda passa ou pelo menos tem valor/
Mais essa tira de soldado e alpercata, Luizão/E as baratas vão gostar do seu odor/Corte essa barba e passe um pente no cabelo, Luizão/Tua cabeça parece um arapuá/Vai tomar banho e tire esse lodo do corpo, Luizão/Que o macacão já tá com cheiro de gambá”.

Mais uma vez, o que dizer, senão ressaltar a inteligência de João que não se sabe como, mas cabe na sua própria cabeça. Definitivamente não usaria, nem remotamente, o controle remoto para “censurar” o talento tropical de João Gonçalves, coisa que não hesitaria em fazê-lo com a criatividade literária e sonora de certos funks.

(*) Noaldo Ribeiro é ativista cultural

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