Fechar

Fechar

Coluna de Moacir Alves Carneiro: De olho na escola

Moaci Alves Carneiro. Publicado em 15 de março de 2018 às 23:05

Foto:

Por Moaci Alves Carneiro

Quinze de março é o Dia da Escola. O calendário civil nos ajuda a compreender que, sem ela, não é possível construir uma cidadania digna, participativa e confortável no palco planetário da sociedade do conhecimento.

A escola é uma espécie de “chave-mestra” para abrir todas as portas do universo complexo do enredamento cognitivo socialmente instalado. Suas funções são multifacetarias e essenciais para a busca da síntese humano-cultural enraizada nas entranhas do tecido semiológico de cada época.

A escola tem a ver com a acumulação, a sistematização e a irradiação do conhecimento historicamente produzido. Ela é a instituição criada pela sociedade para operar o aprendizado formal, integrado e crítico sob o ponto de vista da formação do indivíduo, do compartilhamento dos saberes coletivos e da ressignificação do pensamento.

Olhando no retrovisor do tempo, há angulações a revisitar na história da aprendizagem, nas rotas da educação, no percurso da escola e nas formulações do processo de ensinar/aprender.

 Primeiro: em tempos imemoriais, os traços iniciais e as manifestações do aprendizado humano emergiram no bojo dos próprios condicionamentos das situações-problema em contextos restritos. Cada instante era mediado pela possibilidade de uma resposta circunstancial rápida. Sobreviver era o verdadeiro nome do processo de ensinar/aprender.

Segundo: ninguém se preocupava em dar forma ao outro. A intencionalidade no        fazer-saber e no saber-fazer não focava um tipo de conhecimento específico, senão formas de resolver desafios emergenciais.

Terceiro: o tempo não era cronometrado burocraticamente, porque as pessoas viviam todas à procura de um mesmo lugar: o da existência. Em um tempo descalendarizado, o relógio era o trabalho feito tarefas cotidianas.

Quarto: não havia formas prevalecentes de aprendizagem, simplesmente porque os objetivos do ensinar não se sobrepunham às necessidades concretas do sobreviver.

Quinto: os mais vividos eram ensinantes. Registre-se que a vida era breve. Embora o tempo fosse uma categoria fluida, os caminhos do viver para todos eram curtos. Por isso, não se podia falar propriamente em tempo para ensinar nem  em tempo para aprender.

No cenário da pedagogia arqueológica, o formalismo não tinha vez. Educar era educar-se e todos se identificavam nesta luta. A lição de cada dia dizia-se convivência com a realidade concreta. A educação era, sobretudo, a prática do cotidiano.

A partir desta prática, ensaiava-se um processo permanente de aquisição de conhecimentos e de formas da ação capazes de aumentar o poder de intervenção do indivíduo e do seu grupo sobre a realidade desafiadora. Sem programas, sem currículo, sem calendário e sem esquemas temporais, a educação era do tamanho da própria vida.

Uma educação sem retórica e sem certificados, porém, com muita motivação para a vida e seus desafios. De fato, tratava-se de uma educação internalizada, impermeável a uma aprendizagem passiva, pois que o aprender evoluía na confrontação concreta das situações adversas que se sucediam. Este imperativo conduzia o indivíduo a uma permanente prontidão e a uma postura responsiva em face de cada nova experiência.

Nestes tempos “esquecidos”, ninguém postulava trabalho porque viver era trabalhar. Por outro lado, a educação como mecanismo de reprodução não tinha sequer forma embrionária, pois a vida não se reproduzia, mas se prolongava.

Nestes contextos, inexistia cultura formal, embora houvesse uma rica cultura do cotidiano material, que ía das experiências individuais às lides coletivas dos grupos. O percurso das pequenas populações era, de fato, a soma dos itinerários individuais. É evidente que, por estes tempos, não se falava na existência de técnicas para ensinar.

Os que sabiam, faziam. Os que não sabiam, inspiravam-se na conduta dos outros. Percebe-se que, em tais contextos, o que constituía interesse para os grupos, passava a existir como forma de ensinar e de aprender.

Agora, vem questão: em que momento surge a educação? Ora, evidentemente no momento em que começam a aparecer expressões sociais de supervisão do ato de ensinar/aprender. Parece estar aqui a gênese da aprendizagem formalizada. Introduzem-se formas artificiais de condução da prática de ensinar/aprender, engendram-se métodos embutidos em regras, delimita-se o tempo, estabelecem-se balizamentos aos saberes, e aí se produz o especialista em ensinar.

O resultado de tudo isso pode-se chamar de escola, em um conceito primeiro e ainda fechado. Conclui-se, assim, que a educação precedeu a escola.  Enquanto aquela estava jungida ao trabalho cotidiano, esta nada mais é do que o apego a um certo modelo conceptivo de ensinar/aprender.

A Educação Escolar está enraizada bem no interior das mentes dos indivíduos. Está enfronhada na composição natural e cultural dos grupos. Funciona como traço indelével na alma da coletividade. Daí, sua feição e sua força ideológica. Ela vem de dentro, porque é dentro das pessoas que ela se hospeda. Apresenta-se como uma espécie de energia transformadora para desenvelopar os despistes ideológicos da realidade aparente.

A educação diversifica os rumos das pessoas, adensa seus projetos de vida e, ainda, contribui para reverter desigualdades. Por sua vez, na forma de vetor da educação e no formato organizacional funcionalmente adequado, a escola multiplica e potencializa as vias de libertação das pessoas, descolando-as de seus aprisionamentos socioculturais e econômicos, afastando-as de uma eventual história familiar de restrições, privação e desapossamento identitário no passado e, não menos significativo, tornando-as protagonistas sociais e não meros atores coadjuvantes nas paisagens secundárias perdidas dos acostamentos da sociedade.

A escola trabalha com indivíduos, mas não pode contribuir para exacerbar ainda mais o individualismo tão presente em nossa sociedade. Isto pode ocorrer cada vez que a ênfase do Projeto Pedagógico Escolar concentra-se no resultado de avaliações como um valor absoluto, fazendo sobrepor o indivíduo à pessoa.

Foucault (1984:107) chama atenção para este ângulo prevalecente e que deve ser mais observado. Diz ele: é o poder de individualização que tem o exame como instrumento fundamental. O exame é a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao máximo. Através do exame, a individualidade torna-se um elemento pertinente para o exercício do poder. Lee Siegel (2012) põe esta questão em perspectiva sócio-pedagógica não menos aguda ao observar: os jovens estão sendo obrigados a ser sociais, sem primeiro se tornarem socializados.

Em síntese, pode se dizer que a educação nos seus primórdios era livre enquanto não vinculada ao um certo domínio de especialidades. Os indivíduos buscavam transformar a natureza adversa em parceira pela sobrevivência.

Assim, ela era parte do próprio trabalho de complementação da natureza, sem qualquer preocupação categorizadora dos viventes. E hoje, o que cabe à escola? É oportuno frisar que a escola deve operar hoje adicionalmente com enfoques agudamente verticalizados na totalidade tecnológica e no biosvirtual. Para tanto, tem que aprender a surfar na prancha da alfabetização científica/AC.

Seu grande desafio passa a ser disponibilizar uma educação integral sem cara de genéricos, calibrando conceitos científicos e suas aplicações e as dimensões sociais das ciências e das tecnologias, sob a iluminação de fatores éticos e políticos que devem nortear todo o aprendizado humano, todas as práticas humanas e todas as experiências humanas.

Neste sentido, uma escola com qualidade social é uma espécie de extensa câmara de oxigênio para a formação das crianças, dos jovens e dos adultos. Ela ajuda a sociedade a respirar cidadania. Uma escola assim formatada é candidatíssima a ser sempre contemporânea do futuro.

Em nossos dias, presencia-se uma corrida incontida por escolas com currículos obesos, disciplinas que se desdobram sob a inspiração de conteúdos-loteria. Trata-se de malabarismos institucionais para justificar mensalidades exorbitantes. Precisamos aprender que a ideia não é quanto mais disciplinas, mais aprendizagem e, sim, quanto mais interdisciplinaridade e contextualização, mais internalidade de saberes e mais externalidade de competências.

Ouvi, do professor Henri Desroche (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/Paris,1981), esta pérola conceitual: “Não me perguntem quanto estudei, mas… como estudei!”. Eis aí uma senha para todos nós. Quando a escola fracassa, fracassamos juntos!

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Moaci Alves Carneiro

Doutor em Educação/Paris; Ex-professor da Faculdade de Educação da UnB e diretor do Encontro de Laboratórios de Cidadania e Educação/ENLACE (Brasília-DF).

[email protected]

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube