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Campina Grande - PB

Coluna de Jurani Clementino: Viva o Sertão!

20/04/2018 às 11:35

Fonte: Da Redação

Há poucos dias, voltando do Ceará para Paraíba, eu disse, em uma rede social, que o sertão estava absolutamente lindo. Na mesma hora, um amigo me advertiu que, para ele, o sertão é sempre muito lindo. Às vezes, terrivelmente lindo. Mesmo quando há tristeza o sertão tem força e uma beleza imensa. Claro que concordei. Tenho uma paixão incondicional por essa região. Tudo o que vi e vivi ali, carrego comigo para sempre. E vi muitas coisas. Tentarei enumerar aqui algumas delas.

O sertão naturalizou em mim a imagem daquelas cabeças de boi penduradas nas estacas das estradas. Em tempos mais difíceis, ajudei botar vaca magra na cia e vi urubus procurando comida na carcaça de um bicho que morreu. Corri com medo dos sambas solitários de Zé Madalena. Atravessei o Riacho do Machado a nado e percorri léguas à cavalo. Vi trabalhadores cortando lenha com foice e abrindo broca na mata pra depois dividir ao meio a colheita com o patrão.

O sertão me ensinou a produzir pasta de dente com a casca do pé de juá. Foi lá que aprendi a fazer café de vaqueiro colocando uma pedra quente, tirada da coivara acessa, num caneco d’água. No sertão aprendi fazer arapuca para pegar lambus, galos de campina e codorniz. Vi meus amigos armarem fojos nas veredas para prender os preás. Vi meu pai, Seu Aldo, se orgulhando de resgatar boi na mata com a ajuda de amigos vaqueiros, colocar marcha em cavalo bravo e apear bezerro ladrão. Vi gavião traiçoeiro, num voo rasante, pegar um pintinho inocente no terreiro da cozinha. Sertão do mel de abelha italiana e dos caçadores como seu Zé Tomaz e Zé de Dico.

Foi o sertão que me deu as primeiras noções de medicina veterinária quando meu avô, Seu Zé Guedes, e depois seu irmão, Néu, faziam parto de vaca no curral ou castravam os cavalos e porcos no oitão da casa velha. Vi Chico Guedes, tio de minha mãe, fazendo experiência cientifica: assustado com a demora entre a flor e o amadurecimento de um jenipapo, ele resolveu contar os meses e chegou à conclusão de que demorava um ano e seis dias do desabrochar da flor ao amadurecimento do fruto. Mas também o vi morrer depois que desafiou uma venenosa cobra jararaca no roçado e foi picado por ela.

No sertão de grandes secas, tangi jumento com ancoretas d’água. Bebi água barrenta na cacimba de Dona Alice e vi Mariinha e uma dezena de mulheres, em fila indiana, equilibrando latas d´água na cabeça. Também ouvi meu avô, Seu João Leandro, aconselhar vizinhos intrigados. Vi meu irmão, Rivail, matar juriti. Minha mãe, Dona Fátima, alfabetizando uma geração de jovens. O bodegueiro Antônio Ferreira somando a conta de um pinguço e, o cavalo Pernambuco sair da bodega com meu tio Zé Malaquias completamente embriagado e lava-lo pra casa são e salvo. No sertão dormi em casa de taipa. Assisti as novenas do mês mariano e acompanhei a romaria de casa em casa por trinta dias. Cantei bendito à “Padim Ciço” num evento religioso que unia toda a comunidade. Também dançamos forró à luz do candeeiro na casa de Tio Vicente e ouvimos poetas improvisando repentes na casa de Tico Leandro e Dona Jota.

É, meus amigos, isso é apenas um pouco do que vi e vivi por ali. Não tenho como fugir do sertão. Nem quero. Porque concordando com o meu amigo, o sertão é terrivelmente e absolutamente, lindo… Viva, o Sertão.

Campina Grande – Domingo 15 de abril de 2018

(*) Jurani Clementino é jornalista e professor

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