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Coluna de Jurani Clementino: Velório

Jurani Clementino. Publicado em 28 de abril de 2019 às 16:24

Velório é uma ocasião que reúne os sentimentos de dor, tristeza e angústia, mas também marca reencontros, promove a sociabilidade e a interação social. No último domingo, durante a minha breve passagem por Várzea Alegre – CE, em virtude do feriado de Semana Santa, estive numa dessas ocasiões fúnebres e me surpreendi com algumas presenças que ali estavam. Na verdade, parece que estavam reunidos ali todos os personagens de minhas crônicas semanais veiculadas pela Rádio Cultura.

Nem bem cheguei à casa do falecido, o Senhor Luismar que, aos 58 anos fora vítima de um infarto fulminante, e dei de cara com Maria de Jovino. Praticamente do mesmo jeito que a conheci, há quase trinta anos, na ladeira da casa do Padre ali na Lagoa de Dentro. Olhar sereno, braços cruzado sobre os seios, e, solenemente, sentada num banco feito de madeira.

À sua frente, acomodado no parapeito do alpendre da casa de Vieirinha estava o esposo de Maria, Seu Jovino, que, ao me ver cumprimentando a sua mulher, procurou saber quem era. E ela logo adiantou: eh jurandi, o menino das crônicas.

Quem veio falar comigo foi um daqueles vaqueiros que tangiam o gado alheio rumo ao município de Jaguaribe. Disse que ouviu, ou melhor, “assistiu” a crônica e tratou logo de me confidenciar outras tantas aventuras vividas e sofridas durante o translado da boiada. Zé Almir, o filho de seu Zé velho, aquele senhor, também morador do Sítio Lagoas, que assistia televisão, mesmo cego, e que voltou a enxergar depois de vinte anos de cegueira, veio contar da dor ao perder o pai e o irmão praticamente no mesmo dia. Agradeceu pela crônica feita em homenagem a sua sogra, dona Chica Posse.

Elizeu Costa, um dos homens que mais sabe contar piadas, especialmente quando o assunto é proibido para menores de dezoito anos, me perguntou quem era a mulher que ia atravessar o riacho com o menino (uma referência a crônica Piada Pronta). E onde era o tal sítio das mulheres traidoras. Respondi que não podia dizer. Que conto o milagre, mas escondo o santo. Faz parte do sigilo das fontes jornalísticas. Naturalmente que ele me contou uma anedota parecida e enquanto alguns choravam a perda do parente a gente ria com as piadas do lado de fora da casa.

Por último veio um dos penitentes me falar que assistiu “aquele negócio”, uma elegante maneira de dizer que ouviu minha crônica sobre os penitentes. João Soares, hoje praticamente cego, compartilhou comigo e com uma roda de amigos, as histórias da juventude, o período em que saia pedindo esmolas e cantando bendito madrugada a fora. Ou seja, o que menos se falou foi sobre o defunto que jazia de braços cruzados sobre o peito naquele caixão de madeira estendido na sala de estar de sua casa no sítio Lagoa dos Nunes.

Meu irmão João, ao me ver saindo para o velório, me falou em tom de lamento e ironia, que tinha pouca gente lá e que meia noite a família podia fechar as portas e dormir. Não teria mais ninguém velando o defunto. Parece que as pessoas sabiam disso por ali. Comentaram que esse é um fato comum. Não se vela defunto como antigamente. E que essa nova geração não possui um relacionamento amistoso e muito menos respeitoso com a perda de algum parente ou amigo.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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