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Campina Grande - PB

Coluna de Jurani Clementino: Tarde de domingo

19/03/2018 às 11:00

Fonte: Da Redação

Eles formam um casal. Um belo casal. Desenvolvem um namorico alheio a muvuca da cidade. Ele seduz a parceira batendo as asas. Encosta o bico em pontadas que simulam carinho. Aproxima-se num lento ritual de acasalamento. Bico no bico é como se beijassem. Desinibidamente. Atendendo a um chamado do amor. Uma intimação espontânea, natural. Uma terceira ave ameaça aquele namoro. Ele deixa a parceira por um instante e vai tomar satisfação com o intruso. Expulsa-o. Volta e pousa ao lado da amada. É um retorno imponente. De soltado vitorioso. Recomeça o ritual. Balança as assas. Tenta seduzir. Reconquistar.

São duas aves com pena de tons roxos. Na minha infância conhecia por rolinhas “caldo de feijão”. Voltemos ao ritual de acasalamento. Finalmente o macho recebe a permissão. Equilibrados num fio de energia elétrica ele sobe em cima dela. A parceira está preparada. Permite o assédio. Fazem amor ali. Trepada mínima. Rápida. Coisa de segundos. Sobre os olhos do frequentadores do bar. Estes nem ligam. Aparentemente, estão mais atentos a música que toca insistentemente no som do carro ali estacionado. Quase ninguém ver. A natureza realiza-se ali. Como numa poesia indiscreta, mas sem essa pretensão. A poucos metros do chão. Duas aves desavergonhadas. Sem pudores. Tomadas por instintos. Animalmente.

Eram quatro horas da tarde. Após o ato elas se afastam uma da outra. Cada uma amacia as penas. Cada qual no seu canto. As duas compenetradas em si mesmo. Aquele pós-sexo onde prevalece a individualidade. Quando o que antes era compartilhado coletivamente, agora passa a ser a expressão do egoísmo. Da individualidade. Será que o ninho está pronto? Quando nascerão os filhos daquele casal? Duas aves. Duas rolinhas caldo de feijão. Que em breve serão ovos e filhotes. É a natureza se realizando ali, na nossa frente.

Enquanto isso, um bêbado mal educado, acabou de acertar uma unha de meu pé direito com uma cadeira do bar. Derrubou mesmo em cima. Finjo não sentir nada. Seguro, elegantemente sobre a unha atingida, uma pedra de gelo fornecida gentilmente pela garçonete.  Dói.

Campina Grande – domingo 18 de março de 2018

(*) Jurani Clementino é jornalista e professor

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