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Coluna de Jurani Clementino: Sexta-feira da Paixão

Jurani Clementino. Publicado em 28 de março de 2018 às 9:46

Éramos todos moleques e não faço a menor ideia de quem teria nos dito que a televisão exibia toda Sexta-Feira Santa a Paixão e Morte de Jesus Cristo. Acho que a gente deve ter imaginado que: como o rádio passava o dia inteiro divulgando trechos da Bíblia que relatavam aquele momento histórico, concluímos que a TV seguia o mesmo caminho. O fato é que nós estávamos ansiosos pra assistir na tela da televisão a história mais contada de todo o universo. Como diria Xicó de O Auto da Compadecida, a história em que um homem sozinho derrota o Exército Romano inteiro. Mas como não tínhamos TV nem tão pouco energia elétrica o jeito era rumar pra o sítio vizinho e invadir a privacidade das famílias exatamente numa Sexta-Feira Santa. A gente já chegava desconfiado feito cachorro que caiu da mudança ou como se tivéssemos atirado pedra na cruz. Aquelas pessoas, donas dos aparelhos de TV deviam pensar, esses meninos não tem pai nem mãe? Ninguém bota ordem nesses moleques pra ficarem em casa num dia santo.

A Quaresma sempre foi um período sagrado para minha família. De muito respeito e rituais. Meus pais e avós, seguindo a tradição, jejuavam às quartas e sextas-feiras desse período que antecede a Páscoa – ressurreição de Jesus Cristo. Tempo também para se cobrir as imagens de santos com panos roxos. Era a simbologia do luto. Como forma de recolhimento, não se varria a casa na Sexta-Feira Santa. Nesse dia também se pedia à bênção de joelhos. Não se comia carne também nas quartas e sextas da quaresma. As mulheres não penteavam os cabelos em determinado dia da semana santa. Tudo como parte de uma tradição herdada pelos antepassados é mantida até pouco tempo. Cada um desses rituais tinha um sentido, quase todos associados ao luto e dor pela morte de Cristo.

Bem, mas era a saga de Jesus Cristo retratada na televisão que mais nos seduzia. E descaradamente estávamos lá. Na casa de dona Tetê e Chico Nunes no sítio Lagoas, ou na sala da frente da residência de seu Zé Velho. Meio sem jeito, talvez compadecidos com a gente, eles ligavam a TV praqueles meninos intransigentes. Hipnotizados por aquela caixa mágica, ficávamos lá, esperando a Paixão de Cristo. Passava de tudo: desenhos, missas, séries americanas, telejornais… menos a história do criador. Repetíamos essa viagem todo ano e não me lembro de ter assistido a Paixão de Cristo nenhuma vez. Era o dia em frente à televisão alheia. Invadindo as casas dos outros. Os rituais familiares. Recebendo pratos de comida pra não morrer de fome. Era a nossa via Crucis. Tudo em vão. Só vi de fato a famosa Paixão de Cristo na televisão quando o diretor americano Mel Gibson lançou, em 2004, o impactante filme sobre os últimos dias de vida de Jesus. Isso muito tempo depois. Quando eu nem morava mais naquelas bandas.

Campina Grande – sexta-feira 23 de março de 2018

(*) Jurani Clementino é jornalista e professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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