Quantcast

Fechar

logo

Fechar

Coluna de Jurani Clementino: Pasta de Juá

Jurani Clementino. Publicado em 28 de maio de 2019 às 7:49

Quem nunca sentiu o gosto amargo da casca do Juazeiro durante a higiene bucal, não sabe o que é um processo primitivo de limpeza dos dentes. O Juazeiro é uma árvore símbolo do semiárido brasileiro. Está presente nos clássicos da nossa literatura como no romance “O Quinze” da cearense Rachel de Queiróz, primeira mulher a ocupar um cargo na Academia Brasileira de Letras – ABL, em 1977, e foi eternizada ainda na voz de Luiz Gonzaga em composição feita, pelo também cearense de Iguatu, Humberto Teixeira. Trata-se de uma planta da família dos Rhmnaceae, que propositadamente espera o período mais seco do ano, quando todas as árvores do sertão se fingem de mortas para sobreviver, e é exatamente nesse período, que os pés de Juazeiro se vestem de um verde cintilante e impõem sua beleza sobre a secura do sertão. De longe a gente avista aquele ponto verde em meio ao cinza da mata seca. Quem não é dessa região brasileira fica absolutamente espantado com o atrevimento dessa árvore da nossa caatinga.

A folha, embora muito verde e viçosa, não serve pra muita coisa. Os animais não costumam se alimentar com ela e acaba servindo apenas para ornamentação natural ou alimento das lagartas. Mas há quem diga que a planta possui propriedades medicinais, ajudando no combate a febre, queda de cabelo e caspa. O fruto do Juazeiro também não tem muita utilidade. É exageradamente viscoso e possui um gosto estranho ao paladar do sertanejo. A gente inventava de comer quando criança, mas logo desistia. É uma árvore que não possui uma madeira do tipo nobre. Nunca ouvi falar em mesa, cadeira, cerca ou coisa do tipo, feitas a base do caule do juazeiro. No entanto, dentre as poucas utilidades daquele pé de planta espinhoso estava o que a gente produzia a partir de seu caule. Dele retirávamos pedaços das cascas, colocávamos para secar ao sol e depois triturávamos no pilão de madeira de baraúna. O pó da casca do Juazeiro era transformado em pasta de dente. Em contato com a língua, amargava horrores. Misturado com a água, aquele pó amarelado produzia pouca espuma, mas em compensação acreditava-se que realizava a limpeza desejada nos nossos dentes e combatia a carie e a gengivite.

Aquela improvisada pasta de dente, feita da casca do Juazeiro, nos ajudava a economizar as tradicionais pastas das marcas kolinos e/ou colgate adquiridas nos comércios da cidade. Absolutamente natural, a pasta de juá não passava por nenhum processo industrial. Tudo era exageradamente artesanal. Hoje, nós que tivemos a sorte de manter sadios e limpos a nossa arcada dentária devemos muito do nosso sorriso amarelo àquelas cascas amargas de uma árvore símbolo e elegante do sertão nordestino.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube