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Coluna de Jurani Clementino: O vaqueiro e a ordenha

Jurani Clementino. Publicado em 20 de setembro de 2019 às 10:35

Relendo umas anotações feitas aqui no celular, encontrei um mote, salve engano, em decassílabo, que improvisei, dia desses, olhando uma fotografia minha na qual aparecia ordenhando uma vaca debaixo de um pé de manga próximo a casa de meu pai, lá no Ceará. Vou deixar para citar os versos depois, porque antes vou falar um pouco sobre a atividade de tirar leite de vaca, geralmente realizada pelo vaqueiro, dia após dia, nos currais dos sítios e fazendas sertanejas.

Tirar leite, ou ordenhar, uma vaca exige técnica, jeito e disciplina. Trata-se de uma arte e para tal necessita de alguns procedimentos. Primeiro é preciso apear o animal com uma corda acima do joelho do animal para evitar que o vaqueiro seja atingido por um coice; se for uma vaca muito brava, se faz necessário, também, amarrá-la numa espécie de mourão – um tronco de madeira fixado dentro do curral; o bezerro também é preso nas patas frontais da vaca, logo após ele realizar as primeiras mamadas… depois disso o vaqueiro lava, com um pouco de água, as tetas da vaca, massageia o úbere e dá inicio ao processo. Agachado ou sentado num banco de madeira que, quase sempre, fica preso ao corpo dele.

Tecnicamente tudo parece muito simples. Para quem apenas observa de longe não tem nenhum mistério, mas para quem nunca realizou aquele trabalho e tenta fazer pela primeira vez, logo percebe o engano. O pulso dói, falta força para apertar o mamilo da vaca porque o que predomina não é necessariamente a força, mas a técnica, uma arte que só se aprende praticando e com um pouco de empenho e dedicação. Até onde sei não existe curso para se aprender isso. É uma tradição, geralmente passada de pai para filho e perpetuada de geração em geração. Essas condições são capazes de fazer de uma criança curiosa, um jovem tirador de leite. Trata-se ainda de uma atribuição quase que exclusivamente do vaqueiro, mas é comum, ainda, o dono do gado, dividir essa atividade, uma vez que ela é realizada em horários de pouco calor como inicio da manhã e final da tarde.

Quando a vaca dá cria, existe um tempo que o vaqueiro chama de desmame, aquele primeiro leite só pode ser consumido pelo bezerro recém-nascido.  Só depois de oito dez dias é que aquele produto poderá ser consumido por humanos. O animal que aparece na foto a que me referi, no inicio dessa crônica, havia acabado de parir, por isso realizávamos a ordenha apenas para facilitar que o bezerro alcançasse as tetas da mãe. Os versos diziam algo assim:

Uma vaca pelo chifre amarrada

No mourão enfiado no curral

Um magrelo ordenha o animal

Como quem tá com medo da chifrada

Sob a sombra da árvore sincopada

E um chapéu de um santo protetor

Puxa as tetas da vaca com furor

E dali tira o leito abençoado

Tem “granfino” da rua enganado

Se achando vaqueiro aboiador

Jurani Clementino

Campina Grande – 17 de setembro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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