Fechar

Fechar

Coluna de Jurani Clementino: O Sertão e os Trovões

Jurani Clementino. Publicado em 14 de abril de 2018 às 8:30

* Por Jurani Clementino

Quando vim morar em Campina Grande, Cida, a professora que me trouxe pra cá, disse: sempre que puder, volte pra casa. Visite seus pais para eles se acostumarem e, ao mesmo tempo, compreenderem que você não os deixou completamente. Obediente, sempre que tenho a oportunidade, volto pra casa. E cada retorno é inevitavelmente marcado por uma nova despedida. Antes era mais doloroso. Hoje parece mais natural. Já saí de casa de madrugada, meio dia, meia noite. Debaixo de sol quente, chuva fina, a pé, de carro, de moto; em estradas empoeiradas ou lamacentas.

A última vez que deixei a casa de meus pais, lá em Várzea Alegre, Ceará, foi debaixo de muita chuva e escorregando na lama. Na noite anterior quase não consegui dormir com tanto trovão. Não me recordo de ter vivido uma noite tão animada quanto aquela. Parecia que eu havia esquecido como eram movimentadas as noites de chuvas no sertão. Um festival de luzes e estrondos tomou conta do céu. Quando o claro dos raios invadia a casa pelas brechas das portas, janelas ou falhas no telhado, podia esperar, imediatamente em seguida, o barulho do trovão. Alguns até comportados, outros espalhafatosos, escandalosos, ensurdecedores. Quando era criança ouvia os mais velhos explicarem esse fenômeno de maneira muito prática: é São Pedro arrumando a mobília do céu. Quanta poesia pra explicar algo que envolve correntes elétricas, aquecimento do ar, combinação de frio e calor atmosférico, etc.

Essa minha última experiência me fez entender que antes, raramente um barulho de trovão me acordava, hoje qualquer um, por menor que seja, não me deixa dormir. Duas horas de chuvas e trovões são duas horas sem pregar o olho. Não por medo. Até gosto de ouvir aquela sonoridade celestial. E fico na cama, localizando, através da imaginação, o deslocamento dos trovões no céu. Isso mesmo, a gente acompanha os trovões passeando pelo infinito. Ele começa longe e vem se aproximando. Quanto mais perto, mais barulhento. Chega uma hora que o trovejar estaciona exatamente acima de nossas casas. Só falta desabar sobre nossas cabeças. Tem vezes que sentimos o chão tremer. A intensidade do trovão também estabelece relação com o tamanho da chuva. Quando ele é muito barulhento a chuva tende a aumentar.

Tem gente que morre de medo de trovões. Minha vozinha, Dona Dengosa, quando pensava que o inverno estava chegando só imaginava nos trovões. Mesmo nos últimos dias de vida, praticamente surda, conseguia ouvir os estouros que vinham depois dos raios. Minha tia Iracema, também não possui uma relação muito amistosa com os trovões. Em noites de chuvas, raios e trovões, ela foge da cama e vai atrás de alguém que lhe transmita segurança. Noites de chuva e trovoadas para essas pessoas são um tormento. Mas de maneira geral, elas representam um alívio para a vida do homem sertanejo.

* Jornalista e professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube