Fechar

logo

Fechar

Coluna de Jurani Clementino: Marizada

Jurani Clementino. Publicado em 13 de julho de 2019 às 11:21

Em frente à casa de meu pai tem um Riacho. À beira desse riacho tinha um pé de mari. Você deve tá pensando: também em frente à casa dos pais de Jurani tem de tudo. Não, não tem de tudo, mas tem ou tinha muita coisa. Já falei de algumas delas, hoje vou falar sobre um velho pé de mari que existia por lá. Aquele não era o único pé daquela planta frondosa que existia por ali. Bastava andar um pouco mais, margeando o riacho, que encontrávamos outros. A marizeira, como costumávamos chamar aquela árvore, passava o ano inteiro fazendo sombra para os bichos, servindo de morada para os pássaros e durante o inverno promovia a nossa felicidade juvenil. Quando tudo estava molhado, os riachos cheios e a passarada em festa, aquele pé de mari ficava amarelo de frutos. Era um fruto meio oval. Quando amadurecia caia naturalmente e a gente tratava de coletar para fazer as chamadas marizadas. E o que eram essas marizadas? Nada mais do que uma imensa panela de maris cozidos.

Daquele fruto a única coisa que a gente comia era a semente. Mas estas sementes eram protegidas por uma casca muito resistente. E para conseguir extrair as sementes daquela casca a gente botava os maris no fogo para cozinhar. Mas engana-se quem acha que esse processo de cozimento era algo rápido. Do tipo, coloca no fogo pela manhã para se comer durante o almoço. Nada disso. Uma panela de mari demorava cerca de 12 horas ininterruptas ao fogo da lenha do sabiazeiro (madeira de uma planta chamada sabiá) para poder ficar boa. Geralmente a gente catava os frutos logo cedo, lavava-os para retirar a poupa que envolvia o caroço e a noite, depois que o fogão estava desocupado, ou seja, quando as mulheres já haviam finalizado as outras tarefas domésticas, esses maris eram colocados naquela fornalha e por ali ficava até o dia seguinte. Uma pessoa se responsabilizava de se levantar durante a noite ou madrugada adentro para botar lenha na fornalha do fogão e repor a água quando esta estivesse secando.

Nas primeiras horas da manhã seguinte era necessário conferir se aqueles frutos estavam com uma parte que a gente chamava de bico, aberto. Acredito que de tanta pressão do fogo a semente rachava. Mas era o sinal de que a marizada estava pronta para o consumo. Só que faltava um último ritual: quebrar aquelas cascas e retirar as sementes cozidas. Para essa ultima etapa usávamos martelos ou pequenos pedaços de madeira. No interior daquelas cascas resistentes estavam duas amêndoas, passávamos o dia comendo aquilo. Tinha gosto de castanha. Ah! Não sei quem nem porque, mas cortaram o velho pé de mari que tinha em no riacho em frente à casa de meu pai. Ficaram apenas as histórias, as memórias e o gosto das marizadas que animaram e deram sabor a nossa infância sertaneja.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube