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Campina Grande - PB

Coluna de Jurani Clementino: João de barro

23/03/2018 às 10:20

Fonte: Da Redação

Ele nunca foi à escola. Não frequentou a universidade. Não estudou cálculos matemáticos, fórmulas físicas, combinações químicas. Jamais quebrou a cabeça medindo espaço ou analisando a qualidade do material para sua construção. No entanto sabe, perfeitamente, fazer tudo isso com uma capacidade invejável. Constrói sua casa assim: primeiro escolhe um galho de árvore com um gancho, que é para evitar um possível desmoronamento. Aos poucos vai construindo a base, o alicerce de sua casa. Recolhe o material de construção nas margens de um açude ou à beira de um riacho. Com o bico e as patas amassa o barro. Juntamente com sua companheira, faz dezenas de viagens ao local onde conseguem o material de construção. Ele mesmo acumula os cargos de engenheiro, pedreiro e ajudante. Aos poucos a casa vai ganhando forma.

Inteligente, sabe que a casa deve ficar com a porta na posição oposta do vento e da chuva. É tão certo isso, que quando acontece de a construção ficar com a porta de acesso virado para nascente, o sertanejo profetiza logo: não vai chover naquele ano. Ou, no máximo, terão um inverno ruim. Para deixar a construção ainda mais resistente às intempéries do tempo, ele junta o barro molhado com pedaços de madeira, gravetos, pequenos ganchos, palhas de milho. Casa em forma oval. Casa simples. Casa de dois cômodos. Para proteger seus ovos e filhotes de possíveis predadores. A construção dura em média duas semanas até ficar pronta. Mas a usabilidade também é pouca: apenas um ano. Depois é abandonada. E trata-se de construir um novo lar.

Conta a lenda que ele também é vingativo, possessivo, capaz de ser preso pela lei Maria da Penha. Quando traído pela companheira, essa pequena ave sertaneja, traça um plano infalível, bem ao estilo romance policial, novelas do horário nobre, ou ao livro “A emparedada da rua nova”: ele espera a companheira “infiel” entrar na casa e fecha a porta de acesso. Presa a pobre ave morre sufocada. Seria o João de Barro tão inteligente e estúpido ao mesmo tempo? Ou esta é apenas uma forma que o homem encontrou para minimizar a sua incompetência diante de um animal tão pequeno? Reflitamos.

Campina Grande – 25 de fevereiro de 2018

(*) Jurani Clementino é jornalista e professor

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