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Coluna de Jurani Clementino: Galos, noites e sertões…

Jurani Clementino. Publicado em 23 de fevereiro de 2018 às 13:10

Quem é do sertão sabe que existem várias formas para se administrar e perceber o passar do tempo. A gente identifica o decorrer das horas pela sombra das árvores, pela réstia da casa, olhando a posição do sol no céu, ouvindo o relinchar de um jumento ou o cantarolar dos galos. O jumento parece ser o mais comum. De hora em hora ele abre o berreiro e acerta na lata. É o animal relinchar que o povo diz, sem medo de errar: “eita já é tal hora”.

Quando a sombra da casa vai ganhando o terreiro significa que a tarde vai passando e à noite se aproxima. O sertanejo diz: quando essa sobra bater acolá é quatro horas da tarde. O agricultor também costuma proteger os olhos com as mãos, levantar a cabeça para o céu, observar a posição do sol e dizer: “ainda não é nem dez horas”. Não tem erro, pode acreditar.

Se os relógios do sertanejo durante o dia são: as sombras das casas e das arvores, a posição do sol no infinito azul do céu e o relinchar dos jumentos, à noite o contar das horas fica sob a responsabilidade dos galos. Eles geralmente sobem cedo ao poleiro, porque já sabem: meia noite precisam tecer coletivamente um canto e quebrar o silêncio noturno dos sertões. Canta um daqui, responde outro de lá, e quando menos se percebe os galos todos estão numa cantoria só. Aos poucos silenciam e voltam a dormir.

Por volta de quatro da madrugada retomam seus cantos e amanhecem o dia nessa animação. Abrem o peito, batem asas e fazem a festa. Lá pras cinco, seis horas os pássaros também se animam. Saúdam o dia em algazarra. Galos de campina, pardais, andorinhas compõem uma serenata. É a natureza agradecendo ao criador por mais um dia. É um momento de festa espontânea.

Contudo, nos últimos anos, ao retornar ao sertão, tenho percebido coisas estranhas, principalmente com os galos. Não sei se é o estresse do dia a dia, os desentendimentos com as galinhas, mas os galos andam meio atordoados. Você acorda dez horas da noite e eles estão cantando, duas da madrugada e eles cantando. A toda hora que você acorda os galos estão lá, na cantoria. Andaram desregulando os galos do sertão.

Comentei isso com alguns amigos que me disseram ter percebido também. O que houve com os pobres galos sertanejos? Será que já não se fazem mais galos como antigamente? Agora é torcer para que os jumentos continuem acertando as horas. E que as sombras das casas não desapareçam. Ah, esperar também que os galos acertem seus ponteiros e continuem fornecendo as horas das noites sertanejas.

Campina Grande – Quarta-feira 21 de fevereiro de 2018

(*) Jornalista, escritor, professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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