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Coluna de Jurani Clementino: Esmolas e bombons

Jurani Clementino. Publicado em 29 de agosto de 2019 às 13:16

O mês de agosto, para quem é de Várzea Alegre – CE costuma ser marcado por alegrias. É um mês de festa. Tem espaço para a celebração religiosa na igreja matriz de São Raimundo Nonato e para outras experiências festivas fora da igreja. Na verdade, a onda de alegria e felicidade, irradiava o cotidiano de quem residia na cidade, mas particularmente de quem morava nos sítios. Principalmente quando os integrantes da própria igreja saíam pelas comunidades rurais e pelos bairros periféricos anunciando a chegada do mês do santo padroeiro São Raimundo Nonato.

Muitos de nós devemos recordar o período de arrecadação das esmolas quando o padre José Mota Mendes distribuía, entre as crianças, os bombons de vários sabores. Era uma de nossas poucas alegrias. Meninos pobres recebendo mimos em forma de confeites. No início do mês aquele religioso e sua equipe, saíam pelos sítios e, tão logo essas andanças tinham início, se espalhava com extrema velocidade essa notícia benfazeja. Todas as crianças ficavam à espera porque sabiam da existência daqueles bombons distribuídos gratuitamente. E acompanhávamos pelo rádio o deslocar do padre pelas comunidades: Tal dia iremos para o sítio x. Então, ficávamos ansiosos para a chegada, não necessariamente do padre, mas de seus bombons.

A prática de distribuir doces entre a molecada é comum no mês de Setembro quando se comemora os santos Cosme e Damião. Mas em Várzea Alegre a gente nem sabia disso, e recebia os bombons do padre de São Raimundo completamente alheio a qualquer tradição religiosa. Aquilo ocorria uma vez ao ano. E era um acontecimento. Fazia a meninada feliz e deixava os pais mais a vontade para contribuir com a festa do santo. Ao mesmo tempo em que o padre distribuía os bombons, ele recolhia sacas de milho, arrobas de algodão, quilos e mais quilos de feijão… etc. no final todos saiam agradecidos. E só de imaginar que por ali quase nada acontecia, a chegada do padre e seus esperados bombons se transformavam num acontecimento singular.

Onde ele arrumava tantos bombons, meu Deus! Seria um milagre do santo padroeiro? Porque aquele carro carregado de balas coloridas parecia uma bodega ambulante. E nós meninos frageizinhos, mirrados, amávamos aquilo e fantasiávamos comparando aquela distribuição gratuita e coletiva de confeites com uma fantástica fábrica de doces coloridos e saborosos. Não sei se era o excesso de pobreza ou a carência de afetos que davam uma dimensão simbólica aquele fato aparentemente banal. Mas era diferente. Absolutamente improvável para os dias de hoje.

Jurani Clementino

 Campina Grande – PB – 03 de Agosto de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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