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Coluna de Jurani Clementino: Dona Chica Posse

Jurani Clementino. Publicado em 10 de novembro de 2018 às 10:17

Eu nunca ouvi falar sobre o marido de Dona Chica Posse. Pra mim ela sempre foi uma senhora solitária que vivia numa casa de taipa localizada às margens da Lagoa de Dentro. Sempre achei que sua vida fora uma viuvez constante. Encontrei-a muitas vezes, sozinha ou na companhia de dois cachorros vira-latas. Algumas vezes usava roupas masculinas, chapéus de palha e quando avistávamos de longe não sabíamos ao certo se tratava de um homem ou de uma mulher. Era uma senhora de temperamento forte e corajosa, extremamente solidária e amiga. Vivia da agricultora, por isso plantava e colhia praticamente tudo o que precisava ao redor de sua casa. Uma construção antiga ladeada por um frondoso pé de cajarana. Aquela árvore fazia sombra no terreiro durante o dia e com o cair da noite, os sapos da lagoa promoviam uma festa para embalar o sono de Dona Chica. Com os primeiros raios de sol eram as aves que produziam uma animada serenata e sobrevoavam aquele espelho d’água anunciando a chegada do amanhecer.

Católica praticante, Chica Posse adorava frequentar os eventos religiosos. Vivia de missa em missa e não perdia as novenas à Nossa Senhora das Dores realizadas na Capela do Divino Espírito Santo nas Lagoas. Mas também era metida a curandeira. Fazia uns chás à base de ervas medicinais pra todo tipo de doença. Descobriu um pé de balsando lá no Sítio Queixada e vivia coletando as cascas daquela árvore pra fazer uns xaropes caseiros. Segundo ela, aquela água escura que aparecia após o cozimento das cascas servia pra tudo.

Ontem a noite sonhei com Dona Chica e seus cachorros companheiros. Acordei querendo saber notícias dela e rascunhei algumas lembranças daquela senhora. A última vez que a vi estava residindo na cidade de Juazeiro do Norte. Dava pena. Ela havia perdido a noção das coisas. Falava demais, fazia perguntas sem sentido. Repetia as mesmas histórias infinitamente. Depois de uma semana na casa de amigos e conhecidos na minha comunidade, estava voltando pra casa em Juazeiro, mas nem sabia o endereço. Alguém havia anotado no papel, mas ela mesma tinha pedido dentro da mochila com roupas sujas que carregava consigo.

Conheci alguns de seus filhos, principalmente Maria e Zulmira. Soube que havia mais outros três e ela tinha adotado um sexto menino que se chamava “Neguim”. Disseram-me também que Dona Chica reencontrou, depois de muitos anos de viuvez, um antigo namorado da juventude. Na verdade, Enóck teria sido o seu primeiro grande amor. Na ocasião, ele também estava viúvo, e os dois resolveram passar os últimos anos de vida juntos. Pois é, eu não sabia, mas Chica Posse faleceu há pouco mais de um ano. Seu corpo foi sepultado em Juazeiro do Norte em abril de 2017. Ela estava com 84 anos. Às margens da Lagoa de dentro ainda resistem sua casa, hoje fechada, e suas memórias, muitas delas protegidas por aquele velho pé de cajarana.

Jurani Clementino

Campina Grande – quarta-feira 07 de novembro de 2018

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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