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Coluna de Jurani Clementino: Chica de Varmido X Maria do Bairro

Jurani Clementino. Publicado em 14 de setembro de 2019 às 11:26

Em meados dos anos de 1990, o Sistema Brasileiro de Televisão – SBT conquistava altos índices de audiência exibindo novelas mexicanas. Na época a atriz Thalía ficou muito conhecida por aqui ao protagonizar uma série de novelas exibidas pelo SBT. As narrativas audiovisuais tinham enredos e nomes muito parecidos: Marimar, Maria Mercedes e Maria do Bairro. Nenhuma delas fez tanto sucesso quanto Maria do Bairro. A história de uma menina catadora de lixo que, após a morte da madrinha, é levada para morar na mansão de uma rica e influente família e se apaixona por um dos filhos do dono da casa. Eu e dezenas de meninos assistimos a essa novela na casa de seu Varmido. Estávamos nos meses de Setembro, Outubro e aquela casa lotada de gente, ficava exageradamente quente. Dona Chica, esposa de seu Varmido, sentia calores absurdos. E todo intervalo da novela ela entrava pra cozinha e, em dois minutos, voltava toda molhada e dizendo que tinha acabado de tomar um banho para amenizar o calor.

Nem de longe a história de Maria do Bairro lembrava a de dona Francisca e seu Varmido. Não que eles não tivessem sofrido, mas é que o sofrimento daquela menina da TV era mínimo em relação ao que aquele casal de agricultores viveu. José Varmido de Sousa nasceu em março de 1933 e teve uma infância muito pobre. Foi criado por uma família de agricultores, donos de terras, a quem serviu como gratidão por toda a vida. Ali ele foi de tudo um pouco. Do menino que entregava leite, ao jovem cuidador de gado e braço direito no roçado, quando adulto. Mas ele também decidiu que, mesmo não tendo onde morar, plantar ou construir uma casa, deveria formar uma família. E em 1958, casou com Francisca Correia de Sousa. Desde então ela passou a se chamar Chica de Varmido. Dessa união tiveram 12 filhos.

Como estratégia de sobrevivência diária, seu Varmido fez amizades com os produtores rurais da região como Néco Costa, Raimundo Guedes, João Leandro…. A quem servia juntamente com os filhos e em troca recebia apoio e alimento. Até o ano de 1971 foi morador do Sítio Baixio Verde, depois residiu de favor numa casa de taipa caindo aos pedaços já no Sítio Queixada. Até que um de seus filhos mais velhos, Airton, que havia se mudado para São Paulo, comprou um pedaço de terra e permitiu que pai construísse ali a sua própria moradia. O velho Varmido não mediu esforços para erguer a construção. Fabricou os tijolos com o apoio de um amigo e trabalhava dia e noite para pagar os serviços de pedreiro a Zé da Velha. Depois disso, já aposentado e com os filhos quase todos espalhados pelo Brasil, as coisas começaram a melhorar. Permaneceu no sítio até o ano de 2003 quando decidiu morar na cidade. Mesmo residindo no bairro Bethânia, seu Varmido fazia questão de manter os seus hábitos rurais. E praticamente todos os dias triturava no moinho o milho para o tradicional “feijão com pão”. Mesmo com tantos filhos, seu Varmido vivia dizendo que não queria passar os últimos dias de sua vida prostrados e sob os cuidados da família. Sonhava em morrer trabalhando e em casa. Já havia comentado para Deus tirar uma horinha e levá-lo. E foi isso que aconteceu no último dia doze de julho quando, aos 86 anos, ele sofreu um infarto fulminante no exato momento em que preparava o milho para o almoço.

Seu Varmido era um ouvinte assíduo do Grande Jornal da Cultura e segundo sua esposa, dona Chica, mesmo morando na cidade ele não perdia uma crônica daquele menino do Queixada. Teria inclusive comentado com uma de suas filhas, Telma, após escutar uma das crônicas: “Minha filha, do Queixada só saiu Jurani, Ô menino espritado”. Certamente ouvia minhas narrativas, mas recordava sem sombra de dúvidas, da época em que a gente invadia a privacidade de sua casa para assistir diariamente aquelas histórias das novelas mexicanas. Especialmente as histórias daquelas Marias: do Bairro, Mercedes e Marimar.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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