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Campina Grande - PB

Coluna de Jurani Clementino: Catadores de algodão

09/04/2018 às 9:35

Fonte: Da Redação

* Por Jurani Clementino

Até o final dos anos de 1980 e início da década de 1990 existia o cultivo de algodão no sertão cearense. Já havia passado o auge da produção algodoeira, mas o produto ainda era chamado de “Ouro Branco”. De fato as roças e capoeiras ficavam alvas com tanto algodão. Seja do tipo herbáceo (aquela planta pequena) ou arbóreo, (também conhecido popularmente como mocó), as plantas tingiam de um branco reluzente aquela paisagem semiárida. A colheita começava em agosto. Botávamos bornais ou lençóis nos ombros ou nas costas e íamos pra capoeira. Passávamos o dia no roçado. A gente recebia por quilos de algodão catado. A cada vinte quilos tínhamos o que a gente chamava de arroba.

Catar algodão era atividade predominantemente masculina. As mulheres se ocupavam basicamente com o descaroçamento da lã. Após esse processo, feito todo manualmente, usava-se um fuso de madeira para transformar aquela lã em longos fios. Os fios eram armazenados em novelos e levados para os teares. Os mais conhecidos pertenciam a Rosa Ferreira, uma senhora que nunca casou e quase a gente não a via fora de sua residência e Dona Laura de Seu Idelfonso, que morrera recentemente de forma inesperada. Essas duas artesãs transformavam aqueles fios em redes de dormir.

Toda a produção de algodão daquela comunidade era comercializada com os atravessadores. Na minha época o mais conhecido era Françuar. Ele comprava o algodão de quase todos os produtores daquela região e vendia nas usinas de beneficiamento do produto que ficavam nas cidades de Cedro ou Iguatu. Meu avô, seu João Leandro, enchia um quarto inteiro de pluma de algodão. Ficava batendo no teto. A gente escalava aquela montanha branca e se escondia lá em cima. Era nosso monte Evereste. Depois reunia os filhos e ensacava tudo para ser vendido. Para colocar nos sacos era preciso alguém pisotear o produto com força enquanto os outros jogavam o algodão dentro do saco com as mãos.

Os atravessadores transportavam a safra do produto em caminhões. Faziam varias viagens. A pesagem era feita numa pequena balança industrial ou em outra mais rústica que consistia em duas bases de madeira. Numa se colocava o algodão, na outra uma pedra correspondente ao peso do produto. Na roça a gente já tinha mais ou menos uma base do que havíamos catado. Colocávamos as trouxas de algodão na cabeça e fazíamos um cálculo de quanto pesava. Muitos acertavam. Com o tempo você também sabia o que era capaz de catar num dia de trabalho. Era sua meta. A gente dizia: “hoje quero manter a mesma meta de ontem: catar três arrobas”. Os meninos malandros colocavam pedra pra aumentar o peso. Quando neblinava ou com o próprio orvalho da noite anterior, o algodão ficava encharcado o que nos ajudava também porque a umidade deixava a lã mais pesada.

Pra não perder tempo alguém da família levava o almoço na roça. A comida mais saborosa que já comi nessa vida foi baião de dois com galinha torrada debaixo de um frondoso pé de juá. Mas o dissabor dos produtores rurais estava começando. Uma praga pequena que causou um estrago enorme nas plantações recebeu o nome de “bicudo”. Ele roubou o sonho e o dinheiro de muita gente. Nunca mais o “Ouro Branco” tingiu aquelas caatingas. Foi a ruína de muita gente. Foi o fim de uma era. Foi o adeus forçado aos catadores de algodão.

* Jornalista e professor

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