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Coluna de Jurani Clementino: Casas abandonadas

Jurani Clementino. Publicado em 6 de setembro de 2019 às 12:47

Tenho percebido a existência de muitas casas abandonadas pelas comunidades rurais sertanejas. Antes eu não tinha observado isso com tanta atenção. Acho que apenas via, sem necessariamente, ver. Esses dias parei para pensar sobre essa questão. Olhei para aquelas construções envelhecidas e fiquei imaginando coisas. A primeira delas é que casas abandonadas transmitem um quê de solidão, tristeza, angústia. E quem cuida de todos esses sentimentos é a ação perversa do tempo. As paredes envelhecidas parecem peles enrugadas, o telhado deteriorado lembra queda de cabelos, quando o mato e a sujeira invadem os terreiros é como se aquele ser vivo não se preocupasse mais com a vaidade, as portas sendo devoradas pelos cupins e as calçadas caindo aos poucos remetem a uma velhice que enfraquece o ser humano e pouco a pouco o transforma em pó. Até as árvores que haviam por ali, murcharam, secaram e morreram.

Já não há vida, não há cor, tudo é desilusão. E, inevitavelmente, não tem como olhar para aquelas construções e não imaginar o que pode ter acontecido com o seu dono. Teria migrado para a cidade? Deixou tudo para trás e fugido desesperadamente? Cometera talvez a indelicadeza de falecer? Por onde andarás? E seus herdeiros, por que não cuidam daquela construção envelhecida?

Vivi essas sensações recentemente ao passar em frente às casas de meu bisavô Raimundo Guedes e da minha avó materna falecida há dois anos, mas tive igual impressão ao cruzar a estrada do Baixio Verde e me deparar com as residências de Néco e Gerson Costa, ao observar as moradas dos Otávios nos Medeiros praticamente tomadas pela jurema preta. Não tem como percorrer aquelas estradas e não acionar as memórias de quando aqueles terreiros ganhavam vida com os meninos brincando, as mulheres estendendo roupas no varal, as casas com as janelas escancaradas, meia dúzia de gaiolas penduradas na parede com pássaros aprisionados, os arreios dependurados nos armadores, um cavalo amarrado debaixo de uma árvore, um cachorro vira-lata abanando o rabo e recepcionando as visitas, a fumaça do fogão a lenha atravessando o telhado e sendo levada pelo vento, galos, galinhas, porcos e bodes fazendo a festa nos quintas.

A casa é um lugar de sensações e emoções. Elas envelhecem como a gente. Por isso precisam de cuidado. Igual a todos nós, elas não gostam de ser abandonadas. As casas precisam de vida para sobrevier. O barulho para se animar. De cuidados para não perderem o brilho, a cor, os sonhos. Aquelas casas abandonadas do sertão nos transmitem uma solidão indescritível, uma tristeza devastadora e a impressão de uma espera sem fim…

Jurani Clementino – Campina Grande 22 de agosto de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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