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Coluna de Jurani Clementino: Aposentadoria rural e as Sugar baby do sertão

Jurani Clementino. Publicado em 27 de setembro de 2019 às 10:19

Quando a aposentadoria rural foi instituída como lei, no inicio da década de 1970, através da criação do Programa de Assistência ao Trabalhador Rural PRO-RURAL, para pessoas acima de sessenta anos (embora a expectativa de vida, na época, fosse de 55 anos), podemos dizer que alguma coisa mudou, especialmente para o agricultor rural, que nunca teve acesso a uma renda fixa mensalmente. Na época o valor era de apenas meio salário mínimo, somente em 1992, com muita pressão junto ao Congresso Nacional, foi que os agricultores aposentados conquistaram o direito de receber uma aposentadoria no valor integral de um salário mínimo. Bom, a existência dessa renda mensal para quem nunca teve uma remuneração certa ao final de cada mês, embora fosse atrasada, (só depois dos sessenta anos), era muito bem vinda para aqueles que sobreviviam. Aquela gente sofrida podia planejar algo, adquirir o pouco que desejava comprar e nunca teve condições financeiras para isso. 

Soube de situações em que idosos, que mesmo tendo direito a receber o auxilio do governo se negaram a aceitar. Pode haver um tipo de rebeldia, uma forma de protesto, resistência ou um temor nessa ação, mas imagino que ela só foi possível porque a pessoa a quem o dinheiro se dirigia não precisava tanto daquele auxílio. O comum mesmo era as pessoas sonharem com o dia em que chegava a tão esperada aposentadoria. E muita gente morria antes de conseguir tal intento. Um dos casos mais curiosos de uso do dinheiro da aposentadoria rural, que gerava fofocas de toda ordem e por todos os cantos era o que vou livremente chamar aqui das investidas das Sugar Baby do sertão. Para muita gente elas não passavam de bandidas, vagabundas, raparigas que viviam explorando e enganando quem encontrava pela frente para, tirar destes, algumas moedas ou importantes cifras em dinheiro vivo. Mas na verdade o termo em inglês Sugar Baby se refere a pessoas jovens que ficam com parceiros mais velhos em troca de privilégios retribuídos por estes últimos como presentes, viagens e dinheiro. 

Estou usando a expressão Sugar Baby, neste caso específico, para me referir àquelas meninas aproveitadoras que resolviam acompanhar os aposentados até o banco, especialmente os agricultores das zonas rurais, para extrair deles alguma parte do salário mensal. Não quero com isso inocentar muitos desses aposentados. Pelo contrário, às vezes eram relações compensatórias. Elas queriam o dinheiro e eles queriam um chamego. Por isso, ouvia-se muito as pessoas dizerem que fulana de tal estava metendo a mão no dinheiro do aposento de cicrano ou beltrano. Comentavam que os dois foram vistos saindo do banco. “Ah, pois agora ele se arrumou porque aquela mulher é perigosa! Vai deixar ele só com a roupa do corpo, e olhe lá”,

De todo modo, ainda hoje, grande parte da economia dessas pequenas cidades do interior é aquecida por conta do dinheiro que esses aposentados recebem todo mês. É o dinheiro do remédio, da feira e como não poderia faltar, em certos casos, é o dinheiro da “rapariga” também. Dinheiro esse que certamente chega ao comércio, bares, salão de beleza e vai movimentando a economia local. É bom frisar ainda que não foram somente as Sugar Baby que passaram a desejar e criar estratégias para ficar com parte do dinheiro dos aposentados. Tanto bancos públicos e privados quanto empresas de empréstimos consignados criaram estratégias para confiscarem o pouco dinheiro que os aposentados tinham garantido mensalmente. Para isso, passaram a oferecer vantagens mirabolantes para que estes beneficiários contraíssem os famosos empréstimos com desconto em folha. Pegava-se o valor por empréstimo, gastava-se rapidinho e a dívida com o banco prolongava-se por longos e às vezes infinitos anos. Donos de uma boa conversa e com o aval de ser instituições oficiais (ou seja, não eram as “raparigas” que se encontravam às escondidas), muito aposentado caiu nesse papo e passou a deixar, mensamente, oitenta por cento do salário pendurado no banco.. Esta última situação me fez lembrar a música “Sou do Banco” do Zé Clementino que Gonzaga gravou em 1979 e retrata uma situação de endividamento do pequeno produtor rural:

É que o matuto deu de garra dos papé
E foi bater nos banco do Juazeiro
Tirou dinheiro e comprou cinco vaquinha
E para tanto contratou logo um vaqueiro

O tangedor montou logo um alazão
E abriu os peito num aboio que não tem fim
Coitada, da boiada, 

Encabulada, com o chocai tocando assim

Eu sou do banco do banco, do banco… 

Jurani Clementino – Campina Grande 27 de setembro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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