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Coluna de Jurani Clementino: A Times Square X A Grota Funda

Jurani Clementino. Publicado em 12 de maio de 2019 às 11:20

Em outubro do ano passado, enquanto estava passeando por Nova Iorque, algumas pessoas, que me acompanham pelas redes sociais, me perguntaram um tanto quanto espantadas, por que eu gostava tanto da Times Square. Na certa por terem me visto, quase que diariamente, postando uma foto ou um vídeo mostrando aquela praça iluminada que reúne turistas de todo o planeta. Dia e noite as pessoa se encontram com aqueles telões gigantes, aquela escadaria vermelha, aquela muvuca globalizada… bom, eu respondi que estava hospedado muito próximo dali, que passava diariamente pela famosa praça porque era caminho para se chegar ao hotel. Mas achei que não estava sendo claro. Precisava explicar melhor para que eles entendessem sobre o que eu estava falando. Daí me veio à cabeça uma analogia que julguei ser a mais apropriada. Falei que passar pela Times Square para chegar ao hotel, era tão necessário como atravessar o Serrote da Grota Funda para chegar a casa de meu pai, lá no sítio Queixada, interior do Ceará.

Foi aí que o Serrote da Grota Funda roubou a cena. Afinal, quase todo mundo conhece alguma coisa sobre Nova Iorque. Já viu seus pontos turísticos em algum filme da Sessão da Tarde, numa série de TV americana, numa revista de turismo, em um livro de idiomas, enfim… agora o Serrote da Grota Funda era novidade. O que danado é isso? Então fui eu explicar a expressão. Lá no sertão, o que a gente costuma chamar de serrote, trata-se de um terreno acidentado, cheio de desníveis, um pouco menor do que uma serra propriamente dita, embora possua características semelhantes. Serrote da Grota Funda, portanto, significa uma serra que não é tão grande assim. Já o termo grota faz referencia a uma cavidade, nas encostas das serras, serrotes ou dos morros. As grotas, nesse caso em especifico, são feitas pela água das chuvas em período invernoso. Imagine você que, além de ladeiras, nós temos ainda essas escavações naturais que dificultam o acesso dos que por ali precisam passar.

E toda vez que eu vou para casa, em Várzea Alegre, eu inevitavelmente passo pelo Serrote da Grota Funda. Faça sol ou faça chuva tenho que seguir por aquelas estradas esburacadas, lamacentas, empoeiradas ou, seja lá, como elas estiverem a depender do período do ano. Mesmo sendo um acesso complicado, ainda é o melhor percurso a se fazer. O Sitio Queixada fica cercado por pequenas serras. Parece uma comunidade quilombola, ali só se chega atravessando basicamente quatro serrotes: o do Croatá, do Umari dos Carlos, do Mundo Novo e, claro, o Serrote da Grota Funda. Sobre esse último existia uma lenda de que uma luz, de cor azul, assustava as pessoas que por ali passavam durante a noite. Por dentro da mata, essa tal luz seguia quem atravessava o serrote pela estrada. A perseguição iluminada começava nas Lagoas dos Nunes e só desaparecia quando a pessoa já estava próxima às casas do Queixada. Há quem afirme ter visto o tal ponto de luz azulado, andando por entre a mata fechada enquanto este se deslocava entre as duas comunidades. Passei incontáveis noites, sozinho, seja a pé, a cavalo ou de bicicleta, por aquela estrada e, mesmo com muito medo, nunca vi nada de estranho. Ah, teve um dia, um único dia, que ouvi uns barulhos de tambor e uns gritos que não sabia exatamente de onde vinham. Estava com minha irmã mais velha e voltamos correndo com medo. Nem era noite e acredito que se tratava de um batuque promovido pelos filhos de seu Antônio Estevão, um negro, certamente descendente de escravos, que morava numa casa que ficava já na descida do Serrote da Grota Funda e trabalhava como frandeiro. Possivelmente, seu Antônio estava trabalhando.

Se a existência de uma luz azul assustava quem passava pelo Serrote da Grota Funda em noites escuras, é exatamente o colorido daqueles painéis de léd´s estampados com publicidades de marcas famosas, filmes de hollywood, lojas de departamento e grifes milionárias.. quem atrai centenas de milhares de pessoas, anualmente, a uma das praças mais famosas do mundo: a Times Square. Resumindo, a Times Square em Nova Iorque e o Serrote da Gota Funda em Várzea Alegre, parecem tão distantes e tão próximos ao mesmo tempo.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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