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Campina Grande - PB

Coluna de Jurani Clementino: A idosa, a cachorra e o jovem…

12/03/2018 às 8:20

Fonte: Da Redação

Há algum tempo me dei conta de que uma senhora, presença constante no condomínio em que moro, havia desaparecido. Em situações assim, – quando pesa sobre as pessoas a idade, a gente já pensa o pior. Deve ter morrido? Temos a triste e recorrente sensação de que o destino dos velhos é sempre o cemitério. Nunca soube nome daquela senhora e também jamais puxei conversa com ela. Nosso diálogo era sempre limitado a um cumprimento formal: bom dia, boa tarde e boa noite. Na verdade é assim com quase todo mundo. Eu e minha mania de ser, involuntariamente, blasé.

Ela costumava ficar próximo a minha garagem. Sentava na calçada do prédio com seu vestido florido e na inseparável companhia de uma cachorrinha peluda. Era essa cachorrinha quem promovia a interação entre os moradores do condomínio e a dona do animal. Ela corria na direção da gente, cheirava os pés, lambia as pernas, implorava a nossa atenção. Em contrapartida, aquela velha, senhora ganhava um “Bom dia” acompanhado de um elogio ao animalzinho: “tão bonitinha”. Ao que ela respondia. “fique tranquilo, ela não morde não”. Assim foram semanas, meses. Até que sumiram os dois. Nem a cachorrinha nem a dona. Pra onde foram? O que deve ter acontecido!?

Essa semana encontrei um jovem menino maduro, de apenas vinte anos, com o qual nunca havia trocado uma palavra e parei para conversar. Morador do prédio e fumante compulsivo, compartilhamos uma carteira de cigarros e algumas horas de bate papo. Falava sobre política, cultura e Música Popular Brasileira, com uma certa propriedade. Disse que sempre me achou um cara sério, pensou que eu ensinasse matemática e que tinha semelhanças físicas com o professor da série La Casa de papel (Netflix). Conversa vai conversa vem eis que surge a história da pobre senhora e sua inseparável cadela.

Ele disse que adora ouvir as pessoas mais velhas. Não duvidei. Afinal ele já me escutava por algumas horas. Acho que já posso compartilhar minhas memórias de velho. E por gostar de ouvir os velhos ele conhecia aquela senhora. Tinha escutado suas memórias diversas vezes. Descobriu que ela desenvolvia, ao mesmo tempo, o Alzheimer com dupla personalidade. Sempre ouvia a mesma história com personagens diferentes e impressões também diferentes sobre o mesmo fato. Para aquela senhora os vilões e os mocinhos se misturavam em suas narrativas. O que era bom hoje, amanhã era ruim. E vice-versa.

O fato é que aquela senhora dividia a solidão de seu apartamento com a cachorrinha de nome mel. A família administrava sua aposentadoria, comprava algumas coisas pra ela, mas não morava junto. Mas isso era o de menos. Descobriu ele depois que após uma discussão familiar resolveram interná-la numa casa de apoio aos idosos. Levaram aquela senhora para uma casa de velhos. Porque essa parece ser a nossa recompensa para aqueles que a idade castigou. Que fim teve a cachorrinha. Não sei. Nem ele. Na verdade ele já fora visitar a senhorinha no asilo. Ficou todo contente ao reencontrá-la. Mas ela nem ao menos o reconheceu. Depois de um tempo conversando, ela teria fingido reconhecê-lo, pra agradá-lo. Ah! Essa vida.

 Campina Grande – segunda-feira 12 de março de 2018

(*) Jurani Clementino é jornalista e professor

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