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Coluna de Josemir Camilo: Um pouco da verve do poeta Ronaldo

Josemir Camilo. Publicado em 23 de março de 2019 às 16:49

Vejo-me, na rua, perdido, com um pacote comprido e meio pesado, que um confrade da Academia de Letras de Campina Grande entregou-me como sobras de um lançamento. Tratava-se, nada mais, do que o Habeas Pinho, de Ronaldo Cunha Lima, o político poeta. Até chegar à sede, a inquietude e o (im)ponderável me assaltou e saiu a seguinte reflexão nada poética:

“Quanto pesa a poesia?”. “Pesa, a poesia, pedra,/ pesa o ar, fora de regra:/ pesa a dor da partida/ e o calor da refrega./ A poesia pesa quanto/ de dentro, sair o pranto;/ pesa menos, para os poetas/ que versejam a constante,/ palavras com rimas certas./ Mas pesa a poesia um fardo,/ quantos Habeas Pinho eu guardo.”

Hoje, 18/03, a Academia comemora o aniversário natalício do poeta RONALDO JOSÉ DA CUNHA LIMA (Guarabira, 18/03/1936; Campina Grande, 07/07/2012). Ocupante fundador da Cadeira de nº 16, cujo Patrono é Severino de Andrade Silva (Zé da Luz), e tem, como segundo ocupante, o confrade José Mário da Silva Branco. Em Campina Grande, Ronaldo foi vereador, deputado estadual, Vice-prefeito de Campina Grande (cassado em 1968), prefeito de Campina Grande, Governador da Paraíba, senador e, novamente, deputado federal. Advogado, orador, poeta, deixou vários livros de poesias. Ronaldo, o político, tem uma história mais recente, agora imortalizado na biografia que lhe fez o historiador José Octávio de Arruda Mello. Longa vida à memória poética do imortal Ronaldo José da Cunha Lima!

Aqui, pretendo fazer uma referência ao político fazendo poesias, mesmo em situações sérias, como ficou clássico o seu Habeas Corpus, por um violão boêmio, preso pela autoridade, por estar quebrando o silêncio. Cerca de três anos atrás, quando descobri o documento político, publiquei como artigo, “O poeta e o militante”, aqui, pelo paraibaonline. Agora, reproduzo parte dele.

“Quem mexe com pesquisa, vez por outra, encontra algo que tem a ver com a realidade. Trago à baila um documento que pode servir à Academia de Letras de Campina Grande, mas, também, parcialmente, à história da negritude.

É o caso de um encontro de intenções entre os senadores Abdias Nascimento, (fundador da Frente Negra e militante do Movimento Negro, senador pelo PDT) e o senador Espiridião Amin, através de um requerimento, tendo, por parecerista, Ronaldo Cunha Lima, para implementar o Prêmio Cruz e Sousa, em 1998, através de concurso em homenagem ao centenário de morte do poeta negro catarinense”.

Nascido, em 24/11/1861, de ex-escravos, o poeta João foi, praticamente, criado pela ‘senhora patroa’. Era uma cria, como a elite branca chamava, crioulo. Ele adotou o sobrenome dessa família, João da Cruz e Sousa, o que não o livrou de discriminações, como a de que lhe foi recusado o cargo de promotor, por ser negro, ou como, em sua morte, que seu corpo foi transladado no vagão destinado a animais.

No entanto, em homenagens póstumas, seu nome figura, hoje, no frontispício do Museu Histórico de Santa Catarina, como Palácio Cruz e Sousa, em Florianópolis. Poeta simbolista, autodidata, aprendeu francês e alemão, e ciências e matemática. Mas teve uma vida curta, arrebatada pela tuberculose.

A acolhido o requerimento pela mesa do Senado, o relator, senador Ronaldo da Cunha Lima, em prosa, criticou a falta de comemorações culturais no país e, principalmente, no caso de Cruz e Sousa. Escreveu: “representante de uma raça submetida a uma das mais odiosas e indignas discriminações que o ser humano já pode perpetrar contra seus semelhantes”. Sendo assim, resolveu dar seu parecer em formas de versos:

“O resgate da memória/ da vida, da trajetória/ do vate catarinense/ é gesto pra ser louvado/ é mérito para o Senado/ é honra que nos pertence./ O poeta simbolista/ integra pequena lista/de poetas geniais/ tem uma história bonita/ é triste, mas não evita/ belezas sentimentais./ Era filho de um escravo/ mas, preto e pobre, foi bravo/ ante tudo que sofreu/ caso com Gavita Rosa/ que morreu tuberculosa/ como o poeta morreu./ Sua esposa enlouqueceu/ depois que um filho morreu/ e um outro morreu depois/ e a morte não satisfeita/ ainda ficou na espreita/ e em breve levou os dois.”

Continuou o senador: “A obra de Cruz e Sousa/ imensamente repousa/ em ‘Tropos’ e ‘Fantasia’/ Em ‘Missal’ e ‘Evoluções”/ ‘Broquéis’, ‘Faróis’ emoções/ de um mundo de poesias./ Acato o requerimento/ e lhe dou deferimento/ por seu aspecto legal/ Será um belo concurso/ e vai ter muito discurso/ na sua terra natal./ Os autores, na verdade/ revelam identidade/ que cada história projeta/ Abdias pela raça/ e Amim por ter a graça / de ser da mesma praça / onde nasceu o poeta./ Meu voto é favorável/ a esse gesto louvável/ por essa justa medida/ Que nosso plenário acate/ essa homenagem ao vate/ que var servir de resgate/ duma história e duma vida/”.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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