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Coluna de Josemir Camilo: Pegando ‘bigu’ no francês

Josemir Camilo. Publicado em 15 de junho de 2019 às 7:01

O Dicionário Hoauiss dá, para este termo: origem obscura. Mas o registra prontamente como regionalismo nordestino, com o significado de passageiro que viaja de graça. Certo. Me lembro (licença literária, please!) como, gradativamente, bigu foi perdendo espaço, nos anos 70, para carona; agora era a novela quem determinava. Mas, qual seria a origem da palavra, se não é portuguesa legítima? Nei Lopes, em seu Novo Dicionário Banto do Brasil, também não registra o verbete; menos, ainda, José Beniste, com o seu Dicionário Yorubá Português.

Tempo inteiro, depois de minha curta e pobre imersão na língua inglesa, andei querendo que a palavra fosse uma corruptela da expressão ‘be good’, algo como: seja bonzinho, e me deixe ir sem pagar etc. E me danei a colecionar palavras estranhas, para obter suas etimologias, como ‘fute’ ‘bute’, buscando inglesismo (‘Coroné Ludugero’, dos anos 60, diria ‘ingrisia’) e discordando, pesadamente, dos cearenses que acreditavam que a palavra, negativa, ‘baitola’ viesse de bitola, em inglês. Nem sei de onde vem.

Mas, foi assistindo, por esses dias, ao filme, de Moshé Misrahi, de 1979, com Simone Signoret e Jean Rochefort, que captei algo que poderia levar a origem da palavra: Louise (Simone Signoret) fazendo a faxina (‘ménage’) da casa (e não ‘a trois’), ao recolher uma ponta de cigarro (guimba, piola, goia…) ela diz algo parecido como bigot –com o ‘o’ bem fechado, que cheguei a ouvir, literalmente, ‘bigu’. De imediato, me lembrei que, no cinema de minha cidade, Goiana, eu ouvia chamarem ponta de cigarro, também, de bigu. E o Houaiss me confirma: ponta de cigarro meio fumado que se atira fora. Também dá como significado, nos termos de hoje, de ‘penetra’: “ato de (alguém), sem ser convidado ou possuir ingresso, entrar em estádio, circo, cinema etc.”.

Corri pro meu Larousse de Poche e, lá, está que ‘bigot’ significa ‘de uma devoção minuciosa, estreita, exagerada. Em inglês, é algo como sectário, mente estreita, intolerante, o que não ajuda muito, porque, se assim o for, perdemos (até agora) o momento da retomada discursiva, a ressemantização. Seria, para o inglês ou para o francês, nos trópicos, o brasileirinho chato que lhe pedia a ponta de cigarro ou que lhe pedia para viajar de graça em seus veículos? Algo como: “olha, lá vem um ‘bigot’!”. Que, aliás é o mesmo termo, para as duas línguas.

No, caso desse regionalismo, significando tanto carona, como ponta de cigarro, a origem deve ter sido o francesismo que se implantou no Recife, a partir da ‘missão’ francesa de arquitetos que veio modernizar a capital pernambucana, a partir da década de 1840. “Pantin’, também, viria dessa geração, como ‘gamin’, jovem, que deu gamenho em Portugal e aqui; e daria ‘garçom’ (?). Pronto! Chega de pantin, para mim (diria Capiba, musicalmente) e viaje, ao menos, no loré (e aqui, já é inglês!).

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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