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Coluna de Josemir Camilo: Pai-patrão 

Josemir Camilo. Publicado em 11 de agosto de 2019 às 19:50

– Vai, Josa! Vai burniando logo esses sapatos que, depois, eu quero mandar você lá em Seu Antônio! Falava o pai, para que o menino aprendesse a respeitar os mais velhos. Você vai me comprar essa medida aqui de vaqueta marrom, viu? Preste atenção! Depois de ter passado o burnidor na beirada dos calçados, deixando novinho, na meia sola que o pai botara no velho sapato, Josa se sentia aliviado de sair correndo da cadeia, onde o pai-soldado mantinha sua banca de sapateiro, ganhava a rua, mesmo que ainda tivesse que exercer tarefas, mas já ia livre, saltitando e correndo, bodejando e freando como um V-8. Se encontrasse um amiguinho, chamaria para ir apostando corrida até o Trapiche do Meio, que lhe dava um negobom: “Seu Antônio, pai mandou pedir isso de vaqueta!”

O mundo das palavras novas, este era o encanto de Josa. E a profissão do pai, tanto a oficial, soldado, como a de sapateiro, lhe fazia aprender palavras novas, como esconso, Chã do Esconso, soldado Luís de Chã do Esconso. E a própria palavra chã, que já havia ouvido, não sabe se antes, ou depois da de esconso, quando o pai localizou parte de sua família em Chã de Sapé, na Paraíba.

Dos consertos de sapatos, Josa aprendeu a botar a sola de molho em uma lata de cola, vazia, para o pai solar (daí a graça que encontrou, no seminário, ao ouvir que um colega ia solar uma canção…), pois o pai solava a marteladas na sola fria, espichando-a, tornando-a mais compacta, dura, seca. Corria na cidade que o soldado Camilo era quem botava a melhor meia-sola de sapato, porque a sua sola era da melhor qualidade, não era raspa de sola, como alguns faziam, em que o sapato retornava, dentro de poucos meses, para o conserto. Se o filho não aprendeu a manusear, aprendeu como fazer no futuro, a arte de usar a sovela. Via como o pai pegava aquele instrumento de cabo de madeira, com uma agulha dura, (tinha a reta e tinha a curva), com que o agora mestre sapateiro furava, tanto o couro, como a sola, e até bolas marrons de futebol, para costurá-los. Também aprendeu a passar sebo de boi na linha de costurar, a sovela. No final do expediente, varria a pequena área em torno da banca, juntava as aparas de sola, apanhava algum prego que se perdera; tampava as latas de tinta, ele mesmo que já tinha dado demãos de marrom, em um sapato masculino, recolhia chumaços de algodão já usados na sola, depois do ‘burniê’, momento em que se separava o feio do algodão, do brilho preto ou amarronzado, a gosto do freguês e, no caso, do tipo e cor de sapato. Havia quem gostasse de trocar a cor do pisante, já que não podia comprar um novo, ou simplesmente, me cansei dessa cor, Vicente, quero outra!

Quanto aos pregos, Josa trocava experiências entre a banca de sapateiro do pai e o balcão de fazer caixões de defuntos, lá em Seu Orlando. Com o pai, trabalhava, da a tacha ao prego, mas todos pequenos, um quarto e meia-polegada, no máximo, como o senhor pai-patrão mandava comprar nas lojas, ou em Antônio Sapateiro, no Trapiche do Meio. Já na funerária, a ordem era prego grande (e aqui, mais uma vez o genial e safado Augusto Sapopemba, do DIVA, aparecia com seus trocadilhos, que quando queria dizer que ele, ou alguém, estava em boa situação, dizia: “prego duro”. No ginásio do Dr. Clóvis, foi a vez de Chico-meu-Fíi fazer a versão para o inglês: hard nail). Na ordem de Pedro Marceneiro, até entrava o meia-polegada, para pregar tecido em caixão de pobre, porque nos de remediados, ou ricos, o que entrava eram tachas de metal, de cabeças arredondadas, chique! E já não chamava simplesmente pano, mas forro e, às vezes, veludo ou tecido diferente, encorpado e com dobraduras artesanais, em que era mestre, o Pedro, discípulo que fora do próprio Seu Orlando. (Recebia até elogios, o Pedro: Eu faço móvel bem, nada! Só tapeio! Era seu biscate, para não morrer de fome, mais cedo).

Ainda, quanto a pregos, uma coisa comum havia nos dois ofícios, o martelo pé-de-cabra, um menor com o mestre sapateiro, e um maior com o mestre marceneiro. Com este último, Josa abria, na funerária, muitos caixões de cebolas, que o velho comprava no comércio para desmontar, aproveitando não só a madeira, mas até mesmo os pregos, botando o menino para desentortar pregos, que ficava com os dedos doloridos. E isto sem ganhar regularmente nada, apenas um miúdo que vinha do troco e passeios, tanto como ajudante, na caminhoneta, ou no Ford de bigode. Longas estradas!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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