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Mulheres que se destacaram em Campina

Josemir Camilo. Publicado em 16 de março de 2018 às 7:49

O senhor sabe dizer, se na história da formação de Campina Grande tem alguma personagem mulher que podemos destacar? Solicitado, assim, por uma jovem jornalista, para um depoimento sobre o tema, tive que recorrer aos cronistas antigos da cidade e me deparo com uma grande lacuna: a ausência da mulher como protagonista. Volta-se a cair no conceito freyreano: o patriarcalismo. Hoje, tem outro nome: machismo.

Respondo que é possível, mas não lembro assim de informações. Sei que houve uma grande professora, Auta (Cândida de Farias) Leite, se não me engano; acho que final do século XIX. Conferi com Epaminondas Câmara e parece ser o primeiro registro de nome de mulher atuante: professora. No começo do século XX, aparecem mais três ou quatro professoras: Carolina Amélia de Araújo, Rosalina Tertuliana de Almeida, Maria Capitulina de Araújo Melo e Petronila Maria Efigênia de Oliveira. Até 1930, aparece uma revolucionária na educação, Apolônia Amorim, sobre quem já há trabalho de pesquisa e outras, ainda, quase, no anonimato: Brígida Guimarães dos Santos e Júlia Henriques de Araújo. Registra o velho cronista.

Mulheres fortes havia, mas na família. Os Agra e os Campos elogiam a bravura da mãe de Afonso Campos, Rosalina Agra de Souza Campos, que teria enfrentado, em diálogo áspero, o cangaceiro Antônio Silvino. Neste sentido, há, também a esposa de Afonso Campos que, ficando viúva aos nove anos de casamento, sustentou a Fazenda Ligeiro e orientou o filho, Aluízio Campos a seguir a carreira do pai. Seu nome: Porfíria Montenegro Campos, conhecida como Yayá Campos. Seu nome aparece numa lista de fazendeiros, na década de 30.

O Cronista Cristino Pimentel fala de uma preta, sapateira, que o ensinara parte do ofício. Isto no começo do século XX. Outra categoria onde aparecem mulheres é a parteiras e donas, ou empregadas de hotéis, pousadas (ranchos), barracas de comidas na feira, como registra Pimentel sobre Dona Amélia Vieira, esposa do maestro e compositor Balbino. No entanto, boa parte da memória literária preferiu o lado da degradação feminina e dos prazeres dos homens, mulheres loucas, prostitutas e, nisto, haverá destaque com a abertura do Casino Eldorado.

Outras chocavam a sociedade, como Nair Bello, que decidira fazer teatro, numa terra, cuja missão única devia ser a maternidade (creio que há algo de foto, no Museu Histórico); foi atriz, em Campina, quando a sociedade via aquele papel com maus olhos. Uma dessas aspirações que parece cortada, foi Esmeraldina Agra (Dona Passinha) que sonhava seguir os passos do primo Afonso Campos, e estudar Direito. Vetada pelo pai, em sua idade madura nos deixou escritos de história social, a pedir, hoje, publicação.

Há mulheres, no século XX que desafiavam a sociedade, escrevendo poemas. Elencamos as intelectuais, poetas, como Heloísa Bezerra e Selma Vilar, ambas campinenses e as forasteiras que, na certa, sem a censura de suas famílias, conseguiram um lugar em Campina: Iracema Marinho, Maria do Carmo de Araújo Lima, Nair de Gusmão. Não só vieram de fora, mas foram para Recife e Rio. Faltam-nos estudos sobre estas trajetórias. Assim mesmo, nenhuma destas foi escolhida como patroness (Patrona?) da Academia de Letras e, ainda bem, que a Coletânea de Autores Campinenses, de 1964/66 já as publicou.

Com a escolaridade feminina, a partir da instalação do Colégio das Damas, em 1931, e da audaciosa proposta do Tenente Alfredo Dantas, de manter um colégio misto, as mulheres jovens começam a escrever. Com a criação de cursos superiores, agora não é mais a mulher, individualmente, falando que vai aparecer, mas a categoria, melhor dizendo, o gênero. Com a redemocratização, é eleita a primeira vereadora, em Campina, Dona Dulce Barbosa. Algumas lideranças mereceriam ser resgatadas, como a de Ofélia Amorim, Leônia Leão (primeira mulher negra na Academia?), Salete Van der Poel, Maura Ramos e tantas outras que, silenciosamente, foram se libertando do falso patriarcalismo (falso, porque, em geral, existem nas sociedades étnicas – e, no Brasil, foi restaurado, apoiado na escravidão, na religião e no mando sobre as mulheres), através da atividade profissional, da política, da cultura e, outras, pelo divórcio, em busca da liberdade de trabalhar, pensar e agir. Pesa o silêncio.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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