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Coluna de Josemir Camilo: De Jabutis e Tertúlia

Josemir Camilo. Publicado em 22 de dezembro de 2018 às 10:13

A efervescência literária foi um contágio deste último mês em Campina Grande. Além da Primeira Feira Literária (projeto-piloto?), tivemos vários lançamentos, que culminaram com eventos grandes, mas um às vésperas do outros: o embate do Raio da Silibrina (Bráulio Tavares) e o Pipoco do Relampo (Jessiê Quirino), e o lançamento do premiado Jabuti, poeta Maílson Furtado. Faltei ao primeiro, infelizmente, mas já encontrei o livro. Começo, então, com o poeta Maílson Furtado com seu lançamento de À Cidade, em Campina (15/12/18), e esta cidade se regozija, pois foi a primeira escolhida, na Paraíba, a recebê-lo, após a premiação. Ele já havia feito o lançamento em outras cidades do Nordeste, após ganhar o prêmio nacional Jabuti 2018.

De quebra, neste lançamento, conheci o cronista Jurani Clementino, um bom nome para a Academia de Letras de Campina Grande, e o poeta pernambucano (e sertanejo), Plínio Nunes de Souza, quando fui agraciado, com seu livro de poesias recifenses. Parabéns!

Mas a festa foi também pedagógica, com o lançamento do número 03, da Revista Tertúlia, ideia da professora e doutora em Linguística, Patrícia Rosas, cuja segunda edição foi uma das 10 finalistas do prêmio Jabuti, na categoria Formação de Novos Leitores. Editada por Linaldo B. Nascimento, a revista é fruto do projeto pedagógico Desengaveta meu Texto: “Ações de incentivo à leitura, produção e circulação do texto do aluno e do professor”, desenvolvido na rede municipal de Queimadas-PB, sob os auspícios da Secretaria de Educação daquele município da área metropolitana de Campina Grande. Agora a prefeitura, de lá, resolveu assumir e é por isso que foi lançado o número 3.

Maílson, além do livro premiado, já apresentava, também, seu livro posterior ao Jabuti, que o adquiri, de imediato: “Passeio pelas ruas de mim (e de outros)” (Edições Luazul, 2018). Em ambos, o que chama a atenção é o caráter jovem (Hip hop?) e neoconcretista: “tarde/tarda/alarme/que fala/que arde/que geme/ de tarde/que fica/cidade/ que falo/ cidade/ em meio a tua carne/ te rasgo/ e penetro teu âmago/ por entre veias/ e ruelas/ onde cachorros dão o ar/ da graça…. (À Cidade). Mais recheado e mais solto no segundo livro, pode-se ver: “tudo espera:/o amanhã; o/último dia. o/ ano que vem. o/ carnaval. a/ próxima copa./ godot./o messias./ o juízo final/ que vem/”.

Na palavra facultada, fiz uma intervenção, algo como: todo mundo pensa que, sendo de uma cidade do interior do Ceará, ele fosse falar ‘matutês’, ‘nordestinês’ e, no entanto, ele é moderno, jovem, hip hop, concretista. Perguntei se isto era uma intenção em frear esta versão ‘matutês’, de apresentar o Nordeste, folcloricamente, ou foi uma produção natural, espontânea (sua linguagem, digamos). Ele respondeu que bebeu de várias fontes etc. Citou Ferreira Gullar e um grande poeta cearense que foi indicado para Nobel, mas não levou, o grande poeta épico, cearense, da Academia Brasileira de Letras, (e conheci, parcialmente, sua obra) chamado Gerardo de Mello Mourão (em tempo, eu cochichei para uma amiga, que havia má vontade para com ele, nos anos 70, porque fora cassado). No entanto, não há nada em Maílson, que lembre cordel ou ‘nordestinês’; lugares são citados, nomes, sem ‘matutância’; universalizou o lugar, deu ‘caráter’ (no que parece seguir seu guru, este, sim grande, Mourão) a cidade, onde mora, sua gente, sem cair no folclorismo ou pieguice.

Mesmo falando da (sua) cidade, o trivial se renomeia, através de um texto moderno. São frases curtas em cascatas e, aqui e acolá, com arremates, estancadas poéticas, fechos – poemas minimalistas. Ele sai do lugar comum, da zona de conforto, não mostra mais do mesmo, mas uma coisa nova; ouvi de uma leitora. Embora, entenda que tudo parece o mesmo, o léxico, por exemplo; mas foi a modalidade escolhida, a métrica, cadente, poesia no pé, como os antigos gregos, ritmo. É sua métrica que chama a atenção, nela, efetua a ‘poeisis’, cria.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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