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Coluna de Josemir Camilo: A passagem ao Romance-Memória

Josemir Camilo. Publicado em 18 de abril de 2019 às 15:43

Intimado pela garotada da Casa Paisá a fazer minha passagem de historiador a literato, para a apresentação do meu ‘manuscrito’, fi-lo a contento, mas sob expectativa de argumentações críticas. Trata-se de memórias ficcionadas e, para isto, tive que me justificar. Recorri a autores ingênuos e críticos, partindo do ‘campinense’ (por adoção), João Mendes, com seu Menino de Tracunhaém, romance ingênuo, a aceitar-se o ponto de vista do Nobel de Literatura, o turco, Orhan Pamuk em O Romancista Ingênuo. Mas, dele, segui (ou não consegui) os passos. Em busca de base narrativa, visitei Infância, de Graciliano Ramos e Menino de Engenho, de José Lins do Rego.

Fora dessas matrizes, contei aos presentes, naquela agradável sala de estar, dos anos 50, que resolvi partir de minhas próprias crônicas em jornais, principalmente no Suplemento Painel, do Jornal da Paraíba, criado pela jornalista Adelma Irineu, exatamente, para mim, como me dissera, onde colaborei por mais de uma década, dominicalmente fiel. Destas, eu já havia tentado emplacar um livrinho de lembranças, juntando as crônicas sobre minha infância, passada em Goiana, Pernambuco, ajuntando-lhe o título Memórias da Rua das Laranjeiras. Como permaneceu inédito tal ‘manuscrito’, aproveitei o ímpeto e (exa)gerei a escritura de minhas memórias, não por um vício de idade, mas pelas mudanças materiais e culturais na sociedade que me envolveram e das quais sou testemunhas. Tal como o tempo em que em minha cidade se usava luz de motor, antes de chegar a luz da Chesf, e o abastecimento de água era feito através de carroceiros aguadeiros, com suas carroças puxadas por morosos e sofridos bois (herança dos carros de boi dos engenhos?).

No entanto, não escrevi minhas memórias, mas sim as de uma criança que teria atravessado as décadas de 1950 e 1960 com e em suas próprias mudanças, mas num cenário que parecia se mover lento, e que, no entanto, vinha com carga pesada: alguém que passou do não-rádio para a não-televisão em preto e branco; da luz de candeeiro para a elétrica, dos circos mambembes para o melhor cinema do interior de Pernambuco, o saudoso Cine Urubatã etc.

Tudo isto foi traçado na massa das leituras sobre Memória, a partir de minhas aulas de Memória e Patrimônio Cultural, na Universidade Estadual da Paraíba, bem como de minha militância em estudos sobre a negritude e minha ancestralidade, parcialmente, tabajara.

Mas, falando para o pequeno e seleto público da Casa Paisá, expliquei que busquei fazer Romance e Memória, criando uma trama, de modo que fosse épico (e, aí, há uma influência indireta dos romances latino-americanos, principalmente dos cubanos e colombianos – e é claro que a sombra de Garcia-Márquez estava por trás disto tudo (desde suas crônicas jornalísticas, tornadas livros), ele que me desculpe, no limbo de Amaranta e Buendia, o ínfimo aprendizado.

Algumas reflexões sobre Literatura como gênero de narrativa já vinha cultivando, buscando entender a linguagem, a técnica, o gênero, o estilo, indo de Todorov a rebarbas de Foucault. Daí, a panaceia que parece ser e como tomei do meu ‘padrinho’ Graciliano: “De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê” (São Bernardo).

Portanto, para finalizar a fala (lá) e a escrita (aqui), digo que o alinhavado romance, escrito por um cronista de interior, não tem gênero (?) definido; provavelmente pós-moderno (penso em Saramago: Memorial do Convento?); vai fragmentado, como filme de Godard/Glauber Rocha (memória e homenagem também do e ao cinema); estruturado ao longo de 4 conjunturas de média duração que formam uma trama subliminar, em que as próprias técnicas narrativas são discutidas dentro do romance, entre cronista contratado e um dos memorialistas, gerando um intencional quiproquó entre falso narrador e suposto contratador dos serviços/personagem menor, além de fluxo de memória, de narrativa. Ufa! Obrigado! (Devo ter dito!). Procuro um editor!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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