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Campina Grande - PB

Coluna de José Mário: Saudades de Creuza Vilar

31/03/2018 às 9:10

Fonte: Da Redação

Por José Mário da Silva (*)

Costumava chamá-la de a nossa Lygia Fagundes Telles. A analogia não se ditava pelo fato de ela ser, a exemplo da magistral criadora de As Horas Nuas, uma arquiteta das palavras, uma transfiguradora do real no dorso escorregadio da linguagem. As similaridades entre a monteirense Creuza Vilar e a paulistana Lygia Fagundes Telles eram outras, mas, igualmente, reais, legítimas e ostensivamente observáveis.

Elas principiavam pela irretocável elegância, comum a ambas. Dona Creuza Vilar era sinônimo de vestuário refinado, impregnado de bom gosto, quaisquer que fossem as circunstâncias. As aduzidas semelhanças entre as ilustres damas ganhavam corpo, na beleza física que as adornava, tingidas por um timbre clássico que tinha na exata proporção das formas, o seu traço mais emblematicamente realçado.

Portadora de fala mansa, pausada, como se obedecesse ao ritmo interior proveniente de uma alma serena e pacificada pela graça de Cristo: “amado e amada” eram os signos privilegiados de sua interlocução com o outro, tradução perfeita de quem, em vez de muros, somente aprendeu a construir pontes.

Visitei-a inúmeras vezes em seu casarão aconchegante e silencioso, no qual acolhimento e fidalguia conferiam o tom do diálogo que travávamos, à luz da Palavra de Deus e das doces consolações que emanam do gracioso evangelho da salvação. Em nossos últimos encontros, era visível o seu estado de fragilização crescente, cartografado por um corpo que, a pouco e pouco, ia vergando diante do império da enfermidade dominante.

A despeito de todo o sofrimento que a afligia sobremaneira, e contra o qual ela não proferia uma só palavra de murmuração, presumia que o seu itinerário entre nós ainda experimentaria um efetivo prolongamento. A providência divina, entretanto, já abreviava o calendário da existência terrena de Dona Creuza, ao mesmo tempo em que a preparava para inserir-se na eternidade, lá onde Cristo reina, soberanamente. E estar com Cristo, segundo o inspirado dizer do apóstolo Paulo, “é incomparavelmente melhor”.

Saudades de Dona Creuza Vilar, admirável consórcio de fé inabalável, finura de espírito e incontestável beleza física. Agora, a amada irmã Creuza Vilar e o Amado e Bendito Salvador e Senhor das nossas vidas estão juntos para sempre no indizível reino de luz, paz e amor chamado céu. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.

 (*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

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