Fechar

logo

Fechar

Coluna de José Mário: Ronaldo Cunha Lima e a poética do Livro dos Tercetos

José Mário. Publicado em 22 de dezembro de 2018 às 12:00

Ao analisar com acurada perícia hermenêutica o livro Versos Gramaticais, urdido pela sensível imaginação poética de Ronaldo Cunha Lima, a mestra campinense Elizabeth Marinheiro sinalizou que, nele, Ronaldo pôs em cena, em tom maior, uma espécie de “haicaização da escrita”.

No limite, o máximo do dizer contracenando com o mínimo do dito, cartografia essencial de um lirismo exato, íntimo da concisão expressiva e êmulo da retórica do excesso Ronaldo Cunha Lima e a poética do livro dos Tercetose do perdularismo verbal, mais estridência que som, mais ruído que a captação da música ontológica do mundo, atributo somente passível de ser atingido pela palavra da genuína poesia: rara potência do espírito humano, estrutura linguística sumamente fundadora de sentidos, o tudo e o nada a que aludiu Octavio Paz nas memoravelmente belas e insuperáveis páginas introdutórias do seu magistral livro O Arco e a Lira.

O Livro dos Tercetos, delicada porção lírica a integrar o edifício poético erguido por Ronaldo Cunha Lima também incursiona pelo território da concisão composicional mais adredemente perseguida, configurando-se, pois, no percurso recorrente de um eu-lírico ávido por esculpir em palavras poucas, o muito das experiências de que se teceu e se desteceu o seu fremente viver cotidiano.

Aqui, dentre outros signos componenciais de uma singular diegese lírica, avultam, isotopicamente, os semas da saudade, da solidão e do desencontro, tríade hegemônica a reger os códigos da fascinante, difícil, mas indispensavelmente necessária gramática do amor, feita mais pela ordem do desejo que pelo desejo da ordem. Amor paixão, amor finitude, amor fantasia, amor agonia, eis, aqui, os vãos e desvãos de um obsessivo leit motiv a conferir régua e compasso aos delicados tercetos trazidos a lume pelo inspirado vate campinense.

Nos tercetos ronaldianos, o amor é a chama inextinguível na qual o poeta se consome e se consuma; nela nascendo, morrendo e renascendo, diria Vinícius de Morais, “em cada vão momento” em que o fulmíneo milagre do amor rompe as trevas da por vezes intranscendente vida dos seres humanos e, em direção diametralmente oposta, as transpõe e eleva tais vidas ao paraíso imaterial da plenitude suprema, a exemplo do que postulou Dante para as almas aperfeiçoadas pela luz sublime proveniente do encontro com a divindade.

Para Mallarmé, citação pontuada pelo mestre Ricardo Soares em brilhante reflexão agenciada em torno da poética de Ronaldo Cunha Lima, “a poesia é a expressão do significado dos vários aspectos da existência que a linguagem reconduz ao ritmo essencial: ela confere autenticidade ao existir e constitui primevo dever espiritual”. E arremata Ricardo Soares com a elegância estilística que lhe preside os pronunciamentos críticos: “E de fato: ao reproduzir aquilo que significa, a poesia emoldura instantâneos perenes quando flagra a mobilidade vivencial por meio de pinceladas líricas. Nada tão parecido com Ronaldo”. Nada tão similar ao que Ronaldo Cunha Lima pôs, com o cimento da linguagem e com a argamassa das palavras, nas cenas e cenários presentes nos líricos tercetos que enfeixou em seu terno e aliciante livro.

* DOCENTE DA UFCG / DA APL e da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de José Mário
José Mário

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015
Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube