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Coluna de José Mário: Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos

José Mário. Publicado em 6 de abril de 2019 às 17:26

No albor de uma juvenília feita de apenas sessenta e cinco anos de idade, e vivendo, apesar de algumas limitações físicas que pesavam sobre ele, corporificadas em recorrentes crises de coluna, um momento altamente produtivo e abençoado em seu ministério pastoral, o reverendo Paulo Anglada foi chamado por Deus para fazer a viagem que salta do tempo para a eternidade.

Na segunda-feira, dia quatro de fevereiro do ano em curso, possivelmente vitimado por problemas de natureza cardíaca, o amoroso e pastoral coração do reverendo Paulo Anglada parou, impregnando de tristeza e saudade o coração de tantos quantos com ele conviveram, com especialidade, as ovelhas pastoreadas por ele, anos a fio, no âmbito da Primeira Igreja Presbiteriana de Belém do Pará, da qual ele era pastor emérito.

Diferentemente dos cultivadores do existencialismo pregado por Sartre, para quem o homem era uma paixão inútil ou uma piada trágica num universo inteiramente destituído de sentido e teleologia, o cristão, assim como o era o reverendo Paulo Anglada, crê na realidade gloriosa do Deus autossuficiente, amoroso, soberano, misericordioso e bom, que criou todas as coisas para o seu louvor e glória; criou o homem à sua imagem e semelhança; e, quando o homem caiu no pecado, arruinando-se a si mesmo e comprometendo, radicalmente, a sua comunhão com o criador; ele, o criador, arquitetou um majestoso plano de redenção, que teve na pessoa e na obra do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, o seu grande, definitivo e suficiente executante.

Eis a razão primacial por que para o cristão, a morte jamais será o fim; antes, o começo da plena e verdadeira vida. A morte jamais terá a palavra final da história, pois ainda, e para sempre, ecoarão nos ouvidos de quem recebeu o dom da fé, de quem crê, incondicional e irreservadamente, em Jesus Cristo, as consoladoras palavras proferidas pelo bendito Filho de Deus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11.25). Assim sendo, a tristeza que sentimos com a partida inesperada do reverendo Paulo Anglada nada tem de desesperadora ou amargurante, mas apenas é timbrada pelo justo, humano e inevitável sentimento que nos invade quando tomamos conhecimento da partida de alguém precioso, a quem amamos. Até mesmo Jesus Cristo, que era verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, chorou, ao se deparar com o túmulo do seu amigo Lázaro, a quem ele ressuscitou, depois de quatro dias de morto e sepultado.

Não conheci, pessoalmente, o pastor Paulo Anglada, mas sempre fui edificado por seu ministério de pregador e escritor de notáveis livros teológicos, mantendo com ele, mesmo com a distância da geografia que nos separava uma espécie de fraternidade enaltecente do espírito. Pouco tempo depois de ter sido alcançado pelo evangelho da graça salvadora de Cristo Jesus, caiu-me nas mãos um opúsculo de autoria do pastor batista inglês Charles Spurgeon intitulado eleição, originalmente um sermão, no qual o admirável príncipe dos pregadores ancorado no porto de farta chancela bíblica, demonstra que a salvação é proveniente, única e exclusivamente, da ação monergística e soberana de Deus, que elege, predestina, chama, justifica e, enfim, salva, completamente, a todos aqueles a quem ele preordenou para a vida eterna; e em quem fixou, em harmonia com os seus infalíveis decretos, os seus eternos, irresistíveis e redentores afetos.

Daí por diante, li tudo quanto pude de Charles Spurgeon, e, mais adiante, dou de cara com o livro Spurgeon e o evangelicalismo moderno, de autoria do pastor Paulo Anglada, a porta que se abriu para que eu passasse a conviver com os outros vários e preciosos livros emergidos do coração piedoso e do privilegiado cérebro do pastor Paulo Anglada.

Portador de uma sólida formação teológica que incluía a realização de mestrado e doutorado em centros especializados fora do país, o pastor Paulo Anglada exerceu, com perícia e invulgar destreza, a arte-ciência de um escritor competente, íntimo dos temas que abordou, mas, sobretudo, comprometido com a edificação do povo de Deus.

Conquanto erudito e versado nas línguas originais nas quais as Escrituras Sagradas foram redigidas, os livros do pastor Paulo Anglada nada tinham de áridos e impenetráveis em suas formulações conceituais, sendo assim sumamente úteis tanto para os estudantes de teologia, afeitos às especificidades da vida acadêmica, quanto para os crentes de um modo geral, amantes da boa leitura, mas não necessariamente iniciadas no modus operandi dos estudos teológicos mais, digamos, pesados.

Combinando profundidade conteudística com simplicidade expositiva, Paulo Anglada imprimia à linguagem em que se consubstanciavam os seus escritos, um admirável poder comunicacional, próprio de quem, ao escrever, não turvava as águas, antes tinha como objetivo indesviável, o esclarecimento do seu interlocutor.

Outro traço inarredável da fecunda produção teológica do pastor Paulo Anglada era a sua inegociável submissão aos ditames normativos da infalível e inspirada Palavra de Deus, diante da qual ele sempre se postou com humildade e mente cativa à sua autoridade, jamais transigindo em face de ensinamentos incoadunáveis com a revelação que Deus fez de si mesmo, de maneira especial, nas Sagradas Escrituras.

Dentre a vasta bibliografia produzida pelo pastor Paulo Anglada, toda ela matizada pelo indelével selo da qualidade, ponho em relevo os clássicos livros: Introdução à Pregação Reformada e Introdução à Hermenêutica Reformada, referências inafastáveis para quem anela adquirir conhecimentos seguros sobre essas importantes matérias. Escritor e teólogo primoroso, Paulo Anglada também pontificou como um exímio pregador da Palavra de Deus.

Pregador que, em sintonia com a melhor tradição reformada e puritana, não abria mão de expor o texto em sua integralidade, não sem antes realizar acurada exegese textual, extrair as doutrinas centrais da passagem bíblica focada e, por fim, aplica-las à igreja, com o desiderato de obter as transformações espirituais que somente a Palavra de Deus, pelo poder do Espírito Santo, é capaz de operar.

De maneira humilde, confiando, sobretudo, nas santas e iluminadoras persuasões do Espírito Santo de Deus, o pastor Paulo Anglada constituiu-se num precioso instrumento nas mãos do Senhor, na proclamação firme da fé reformada, que procura nortear crença e prática, todo o tempo e o tempo todo, pelas prescrições emanadas da santa Palavra de Deus.

Escrevendo, pregando, ensinando, pastoreando, o pastor Paulo Anglada, por qualquer ângulo que seja examinado o seu ministério, com as imperfeições inerentes a tudo o que é humano e tingido pelas nódoas do pecado, foi uma bênção para a igreja do Senhor e Salvador Jesus Cristo que serve a Deus no Brasil. Igreja essa que ainda pranteia a sua inesperada morte. Pranteia, mas sabe que ele está com Jesus Cristo, “o que é incomparavelmente melhor”, (Filipenses. 1.23), conforme preconiza o apóstolo Paulo. Pranteia, mas sabe que “preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos” (salmo 116.15).

Pranteia, mas sabe que “esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (I João 2.25). Pranteia, mas sabe que são “bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem de suas lutas e trabalhos, porquanto as suas obras os acompanham” (Apocalipse 14.13). Pranteia, mas sabe que o pastor Paulo Anglada, amado servo do Senhor, “combateu o bom combate, completou a carreira, guardou a fé.

Desde agora, a coroa da justiça lhe está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, lhe dará naquele Dia; e não somente a ele, mas também, a todos os que amarem a sua vinda” (2 Timóteo 4.7, 8). Ao nosso Deus, toda a glória, sempre, por presentear a sua igreja com homens fiéis, que o amam e vivem para a promoção da sua justa glória e merecido louvor. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.

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