Quantcast

Fechar

logo

Fechar

Coluna de José Mário: O inclassificável Lêdo Ivo

José Mário. Publicado em 23 de dezembro de 2018 às 18:30

Tornei-me um admirador crescente da poesia de Lêdo Ivo desde que a ela tive acesso através da leitura do excepcional livro intitulado Curral de Peixes, no qual encontramos as sobrantes virtudes de um artista da palavra verdadeiramente exímio. Mobilizando, à luz do que preconizou Ezra Pound em seu clássico livro ABC da Literatura, com acurado equilíbrio e pleno domínio do ato/processo da criação literária, os vetores da imagem, do ritmo e da ideia, Lêdo Ivo, em toda a sua variada e polimórfica obra estética, sempre se moveu na corda bamba das mais paradoxais percepções da existência humana, daí a inclassificabilidade visceral da sua fascinante poética, tanto assim que, frequentemente, o criador de Ninho de Cobras desdenhava dos que, unidimensional e reducionisticamente, intentavam enquadrá-lo em determinadas grades conceituais.

Do ponto de vista formal, por exemplo, Lêdo Ivo consorciou poemas minimalistas com versos polimétricos, transgressores, avessos a qualquer padrão convencional; versos cheios de “prestidigitação verbal e impregnados de torrencialidade bíblica”, conforme acertadamente pontuou o poeta e ensaísta Ivan Junqueira no primoroso prefácio que escreveu para a Poesia Completa do mestre alagoano, publicada pela editora Toopbooks em harmonia com a Academia Brasileira de Letras, da qual Lêdo Ivo era membro efetivo.

No plano conteudístico, por sua vez, a coreografia de contrários constituiu-se em sua marca seminal, transitando por vários territórios epistemológicos, ao mesmo tempo em que não transigia com nenhuma cosmovisão que se pretendesse dogmática e totalizadora na compreensão a ser exibida acerca da complexidade da existencialidade humana. Assim, Lêdo Ivo foi telúrico e cosmopolita; corrosivo e cultivador de esperanças possíveis para a errática travessia humana; ecológico e radicalmente inserido no coração da cidade frenética e pluralmente moderna; cético ao extremo e, ao mesmo tempo, confessando sem reservas: “ainda não desisti de encontrar Deus”. Metafísico em muitas das suas formulações líricas, e coloquial na retratação microscópica da vida que escorre, diria Antonio Candido, “ao rés do chão”.

Em todos esses patamares assumidos e simultaneamente negados pela pluridimensional poética de Lêdo Ivo, o matiz da corrosão vai sendo espraiado por todos os vocábulos, cenas e cenários urdidos pelo magistral poeta dos mangues e dos caranguejos.

Contudo, o que impede que tal perspectiva confira à poesia de Lêdo Ivo o traço frio e arrasador do puro niilismo, beco sem saída e desesperador de uma existência simplesmente vocacionada para a morte e inteiramente destituída de qualquer vestígio de teleologia, é a presença sempre ostensiva de um humor cortante e de uma refinada ironia, sempre pródigos em rirem de tudo e das suas próprias descrenças.

É exatamente nesse instante que o peso excessivo de angulações filosóficas graves dissolve-se na leveza aliciante de quem sabe transmutar em comicidade o que, em sua ontologia íntima, já vinha impregnado com o saber e o sabor das realidades trágicas.

Clássico e moderno ao mesmo tempo, Lêdo Ivo configura-se numa das maiores expressões da poesia brasileira do século vinte, cuja inclassificabilidade é senha vigorosa de sua pujança, aliás, já o proclamava o mestre criador de Plenilúnio: “desconfiai dos que tudo aceitam, explicam e compreendem. A incompreensão é um ingrediente da inteligência”.

Para André Diniz Augusto Lira, que descobriu a paixão por Lêdo Ivo.

DOCENTE DA UFCG / DA APL e da ALCG

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de José Mário
José Mário

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube