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Coluna de José Mário da Silva: O inesquecível Raymundo Asfóra

José Mário. Publicado em 29 de dezembro de 2018 às 19:07

DOCENTE DA UFCG / DA APL e da ALCG

Para Ricardo Soares, erudição e elegância na superior ensaística que produz

 

Mais que a exuberância das suas paisagens, o brilho sedutor da sua opulência arquitetônica, a força realizadora das suas potencialidades econômicas, ou quaisquer outros fastígios garantidores da sua particular fisionomia humana e estética, uma cidade avulta e se pereniza pela grandeza dos seres que a habitam; e por cujas ações prenhes de operosidade e energia, criadoras, a cidade se agiganta, se ilumina e se perpetua no imaginário coletivo, configurando-se, pois, numa afetuosa mistura de tempo, história e eternidade.

É assim com todas as cidades, personagens protagonistas das plurais poéticas da contemporaneidade, recorrente motivo e infaltável componente do romance da travessia humana em sua indeslindável interação com os espaços que lhes são conferidos para habitação.

É assim, de igual maneira, com a nossa amada e sempre Grande Campina, notadamente, pela dimensão altaneira dos vultos que compuseram e compõem a sua diegese íntima, a exemplo do inesquecível Raymundo Yasbeck Asfóra, bravo e leal forasteiro, cearense de nascimento, mas campinense de coração, filho amado desta terra, a qual, em todo o vasto alcance do seu ser/fazer, serviu, com unção roçante da mais fervente religiosidade, em todas as áreas em que atuou fazendo, sempre, do inegociável bem público, o seu mais perseguido e indeclinável compromisso ético e objetivo cidadão.

Raymundo Yasbeck Asfóra é código onomástico que impõe respeito, é signo coletivo numeroso e multiplicado, para cuja adequada apreciação faz-se necessária uma hermenêutica aberta, pluridimensional, a única capaz de dar conta de personalidade tão rica e diversificada, matéria prima para as novas gerações, inexaurível tesouro para alentadas pesquisas.

Por qualquer ângulo que se examine a exponencial figura de Raymundo Asfóra, ganhará, indubitavelmente, relevo, dentre as muitas passíveis de serem fartamente encontradas: a imagem do refinado cultor da linguagem em estado de estesia, do primoroso esteta da palavra, do poeta em tempo integral, sempre pródigo em demonstrar, nas memoráveis formulações verbais produzidas, que, efetivamente, conforme preconizava Rui Barbosa: “a inteireza do espírito principia no escrúpulo para com a linguagem”, daí que os seus arrazoados constituíam-se, sempre, num admirável conúbio entre o bem pensar e o bem dizer.

Raymundo Asfóra foi um consumado mestre da arte tribunícia, do culto à oratória em tonalidade elevada, e na acepção semântica mais rigorosa a recobrir essa arte-ciência tão nobre e, ao mesmo tempo, tão combatida nos tempos do agora, sobretudo em face da tarefa demolidora levada a efeito pelos iconoclastas modernistas de mil novecentos e vinte e dois, ávidos por despirem a palavra literária da monumentalidade altissonante hegemonizada pelos arautos do parnasianismo mais ortodoxo.

A intenção foi boa, mas o gesto tingiu-se de formulações conceituais demasiadamente generalizadoras; e, nunca é demais lembrar, toda generalização é perigosa, injusta e inconsistente do ponto de vista teórico. A retórica, conforme doutrina o enciclopédico pensador francês Roland Barthes: “reúne todas as formas sociais do dizer”. Assim, ignorar tal aspecto do discurso e dos peculiares modos do dizer oral, e jogá-lo na vala comum daquilo que Antonio Candido chamou de mero estilo maçante e roncante, que é a retórica em seu mau uso, é um rematado equívoco. Vieira, Euclides, dentre tantos outros, até mesmo o nosso genial Machado de Assis, são clássicas ilustrações da manifestação da retórica em clave superior.

No livro da retórica, a Paraíba comparece com grandes capítulos e brilhantes personagens: Vital do Rêgo, Ronaldo Cunha Lima, Osmar de Aquino, Alcides Carneiro, Félix de Souza Araújo, Félix Araújo Filho, Argemiro de Figueiredo, José Américo de Almeida, Amaury de Vasconcelos, dentre outros hábeis cultores da arte da palavra.

Em meio a esses gigantes, Raymundo Asfóra despontou como um dos mais abalizados, aquele em cuja retórica, ritmo, conceito e imagem, de conformidade com os postulados teóricos de Ezra Pound ao referir-se ao fenômeno poético, acasalavam-se de maneira realmente admirável, isto é, o que se dizia e o modo como se dizia instauravam os vetores da superior literariedade.

Nos emblemáticos discursos proferidos por Raymundo Asfóra, a exemplo dos que consagrou ao falecimento de Severino Bezerra Cabral e ao assassinato de João Pedro Teixeira, líder camponês, à exatidão dos conceitos aduzidos plasmava-se o convincente poder da poesia, que transcende a imediaticidade do fato concreto evocado e, ato contínuo, o transporta para os transcendentes territórios da universalidade.

Seria o caso de convocarmos a parceria de Carlos Drummond de Andrade, que em lapidares versos sentenciou: “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. Sentimento do mundo que Raymundo Asfóra, como um autêntico produtor de linguagem, diria Eduardo Portella, exibia em seus candentes pronunciamentos. No discurso dedicado a Severino Bezerra Cabral, avultou a tópica da imorredoura saudade do legendário “pé de chumbo”, enquanto no que se direcionou a João Pedro Teixeira, o que emergiu foi o visceral signo da liberdade e da vida, em contraposição à opressão e à morte, conduzidas pelo braço armado e feroz do latifúndio.

Raymundo Asfóra era um tribuno que se agigantava no espaço libertário da praça pública, cuja arte da improvisação se refinava e engrandecia em contato com o povo, sua paixão indesviável e seu interlocutor privilegiado. Enfim, a oratória de Raymundo Asfóra encantou a Paraíba e reverberou para bem além das fronteiras geográficas do nosso Estado, granjeando, meritoriamente, os aplausos e o justo reconhecimento do país.

Tribuno consagrado, Raymundo Asfóra configurou-se, também, no laureado professor de direito penal da Universidade Estadual da Paraíba, tendo formado, de acordo com o depoimento dos que tiveram o privilégio de ter sido o seu aluno, inúmeras gerações de advogados, que tiveram no grande mestre, o autor de eloquentes e decisivas lições.

Boêmio inveterado, que permutava, deliberadamente, a noite pelo dia, Raymundo Asfóra era presença obrigatória em alguns bares e restaurantes de Campina Grande, nos quais, ao lado dos seus fiéis e incontáveis amigos, aos quais devotava lealdade incondicional, recitava poemas, criava literatura e entabulava a difícil, mas fascinante e necessária, arte-ciência do cultivo da alteridade, dado que com Eduardo Portella aprendemos que “somos um ser para o outro e fora do diálogo o que existe é o precipício”.

Parte dessa convivência vivida na ambiência lúdica da Flórida foi cartografada, de acordo com informação prestada por Antonio Lima Simões em seu ótimo livro: ASFÓRA EM NOITE E VERSO (Lances de vida e poesia), liricamente, por Raymundo Asfóra, num texto intitulado BACURAU, publicado no Diário da Borborema, no qual se evidencia o talento de Raymundo Asfóra para o cultivo do delicioso e autenticamente nacional gênero literário chamado crônica.

No tribunal do júri, na Paraíba e fora dela, Raymundo Asfóra pontificou como um exímio conhecedor do direito penal, um argumentador emérito, que com singular destreza esgrimia as suas teses, não raro demolindo as que eram sustentadas pelos oponentes de ocasião.

Político respeitado e infrangivelmente comprometido com as causas populares que abraçava passionalmente, Raymundo Asfóra foi irretocável paradigma comportamental de homem público, sobretudo pela rigorosa honestidade exibida no trato com o dinheiro público.

Óbvio que a honestidade deveria ser o traço seminal do homem público, mas, infelizmente, entre o ideal e o real interpõem-se abismos quase intransponíveis; e, na realidade concreta da classe política brasileira, a honestidade, lamentavelmente, tem se tornado uma exceção, e não uma regra, que o diga o crescente número de políticos, de todos os partidos e colorações ideológicas, envolvidos em toda sorte de práticas, digamos, antirrepublicanas.

Defensor intransigente de Campina Grande, da Paraíba e do nordeste em sua integralidade, Raymundo Asfóra foi uma voz que ressoou forte na tribuna do Congresso Nacional, sempre vigorosa e firme na defesa dos lídimos interesses do povo brasileiro. Como diria Vital do Rêgo, Raymundo Asfóra conferiu dignidade aos mandatos que lhe foram outorgados pela livre e consciente decisão do povo paraibano.

Orador que embevecia as multidões; jurista que amealhou fama nas lides forenses; e político que enobreceu o parlamento nacional, Raymundo Asfóra foi, sobretudo, um magistral poeta: artífice poderoso de versos emblemáticos e de poemas sumamente belos, tanto em sua escorreita compleição formal e fatura estilística, quanto na substância humana neles impregnada.

Sonetista impecável, Raymundo Asfóra esculpiu, ora em versos sáficos, ora em versos heroicos, poemas habilmente consorciadores de três componentes fundamentais do texto lírico: o ritmo, a imagem e o conceito, os quais em suas mãos eram trabalhados com o fino lavor do joalheiro, tudo, bem urdido e correlacionado, em poemas tingidos por ostensiva dicção simbolista, densa, por vezes hermética, adornada por atmosfera cheia de presságios, ambiguidades, tessitura maviosa de mistérios, música sibilina a evocar estranhos fenômenos da existência.

Como elemento constatativo do juízo crítico que estamos a expender, veja-se o belo soneto: “Sombra”, em cujo estuário, quase roçante da fantasmagoria noturna, emergia: “A criança correndo atrás da sombra do pai morto”. Aliás, quase um leit motiv, a figura do pai reaparece no poema “Visões”, com a mesma tonalidade elegíaca presente no poema anteriormente citado: “a face de meu pai, aquela fria/ névoa, estática, no ar… O lusco-fusco/ abria a madrugada, como um túmulo!”.

No poema “O Gesto”, a coreografia de contrários que perpassa do texto, o ancora no porto de uma poética visceralmente barroca, cindida ao meio, voltada para conciliar o aparentemente inconciliável: o passado vs. o futuro; a claridade vs. a escuridão; a eternidade vs. a efemeridade.

A dicção existencial confere régua e compasso ao poema “Projeto”, no qual, portando incomum habilidade técnica, o poeta mobiliza o recurso do cavalgamento, por meio do qual vai fiando e desfiando um pensamento poético cheio de cuidadosa sutileza verbal, cujo arremate reafirma o anelo perseguido pelo eu-lírico: “Quero plantar meu tempo neste espaço! Como um homem constrói a sua casa, construa-se a si mesmo e nele habite”.

No poema “Caos”, a tonalidade surreal, a meu ver, dialoga, intertextualmente, com o universo poético engendrado pela insólita lírica do genial Augusto dos Anjos, que o diga a torrencialidade de imagens que desrealizam o real, ao mesmo tempo em que instauram o poético em estado puro e encantatório.

Raymundo Asfóra compôs uma poesia densa; grávida de inescondíveis acentos metafísicos e permanentemente inquiridora do fenômeno humano em seus fascínios e mistérios, sobretudo o mais enigmático de todos eles: morte, estação final e inevitável das peripécias humanas engendradas no impuro palco da história.

Plural em seus multiplicados fazeres cotidianos, Raymundo Asfóra cujos méritos o fazem arrebatado para a imortalidade, fez história e é história nas cenas e cenários de Campina Grande. Raymundo Asfóra: memória vida e legenda luminosa nos céus de Campina Grande.

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