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Coluna de José Mário da Silva: Humberto de Campos, o mais discutido

José Mário. Publicado em 13 de janeiro de 2019 às 19:13

Para o confrade Geovaldo de Carvalho, cronista maior.

O presente texto emerge, em primeira instância, como resposta a um justo protesto levado a cabo pelo meu amigo do, diria Adélia Prado, “país de memória e sentimento”, José Geraldo Correia de Melo. É que, num dos ensaios que publiquei sobre o grande escritor campinense Robério Maracajá, arrolei um expressivo e variado código onomástico sinalizador dos principais cultores da crônica literária em terras campinenses e paraibanas de um modo geral.

Ao fazê-lo, depois da citação de vários nomes, omiti, injustificadamente, com certeza num indício de involuntário esquecimento, o nome do imenso Humberto de Campos, figura sumamente destacada no cenário esportivo de nossa cidade, dado que se notabilizou como um dos mais brilhantes radialistas, comentarista de futebol poderoso e temido pela maneira dura com que encarava aquele que, com acerbo sarcasmo, chamava de o submundo do futebol.

Aliás, Jogo Duro era o título da coluna diária que Humberto de Campos escrevia no Diário da Borborema, na qual, nas lépidas asas de um português escorreito, o atilado cronista voava alto nos céus da sua aguda sensibilidade, fértil imaginação e, sobretudo, agudo senso de observação dos fatos que integravam o cotidiano do nosso futebol.

Advogado, professor universitário, jornalista, atleta amador de futebol, mais precisamente goleiro, e monstro sagrado da radiofonia campinense, além de boêmio inveterado, Humberto de Campos se impôs como uma das expressões mais significativas da inteligência vicejante em nossa cidade.

Personalidade forte e invariavelmente contundente na manifestação dos seus pontos de vista, Humberto de Campos sempre manteve protocolar e infrangível distância dos cognominados corifeus dos clubes da nossa cidade. Assim procedeu a vida inteira, não por ser portador de espírito belicoso ou refratário aos fios de relacionamento social, engendrados pelos homens em suas interações cotidianas.

A prova disso é que, frequentemente, o víamos rodeado pelos que compunham o seu particular paideuma de afetos, no qual ele vivenciava um milagre de ternura chamado de amizade. A sua postura em relação ao mandarinato esportivo reinante na Serra da Borborema exibia outro nome e acolhia outra semântica: a que atende pelo conceito de autonomia moral e intelectual, o direito inalienável de poder expressar-se desassombradamente, como ele sempre o fez, sem as filigranas dos subterfúgios, nem os temores advindos das pressões dos poderosos ou dos que, tolamente, julgavam-se detentores de alguma fatia de poder.

Radialista culto, ouvir os comentários de Humberto de Campos era um deleite, todos ancorados na mobilização de uma linguagem padrão, signo indesmentível de quem nutria pela “Inculta e bela flor do Lácio”, o mais indisfarçável zelo. Realidade, hoje, diga-se de passagem, bastante vilipendiada, haja vista que não são poucos os que se instrumentalizam de microfones sem o devido preparo para tal ofício.

Já dizia Rui Barbosa que “a inteireza do espírito principia no escrúpulo para com a linguagem”. Elegante na oralidade, Humberto de Campos, de igual maneira, foi artífice de uma crônica esportiva estilisticamente rica e pródiga na utilização de alguns componentes retóricos altamente emblemáticos.

Primeiro: certamente como um bom leitor do mestre Machado de Assis, “o terrorista disfarçado de diplomata” no certeiro dizer do ensaísta Alfredo Bosi, Humberto de Campos fez da ironia, ponto de partida e de chegada das suas lancinantes intervenções no universo do que ele classificava como o ludopédio paraibano.

Ironia essa que era acionada em conexão com outros códigos que cartografavam a ferina percepção que o eminente cronista campinense punha em cena acerca da complexa realidade, tanto a do futebol, quanto a que dele transbordava.

A música, o cinema, a literatura, dentre outros saberes aduzidos por Humberto de Campos em seus escritos cotidianos, temperados, todos eles, pelos ingredientes de uma espécie de inescondível risibilidade, funcionavam como verdadeiros leitmotivs de um particular e qualificado cronicário.

A crônica esportiva brasileira já ganhou atestado de maioridade estética na pena iluminada de artesãos da palavra do porte de um Armando Nogueira, um Tostão, um Nelson Rodrigues, um João Saldanha, dentre tantos outros nomes igualmente qualificados, os quais sabiam trocar carícias com a bola-palavra e fazer belos gols de beleza estética na grande área da linguagem.

A essa plêiade de notáveis cronistas esportivos, criadores de arte e produtores de linguagem, diria o mestre Eduardo Portella, não hesitamos em inserir o nome de Humberto de Campos, o mais discutido.

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