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Coluna de José Mário: A solidão dos olhos e as vertigens do tempo

José Mário. Publicado em 21 de maio de 2019 às 14:18

Embora inconceituável em seu cerne indesviável e ontologia íntima, a poesia pode ser reconhecível em seus direcionamentos mais explícitos e vocação mais claramente identificável.

Sendo, assim, a que se plasma no corpo poemático de A Solidão dos Olhos e As Vertigens do Tempo, produção lírica de autoria de José Edmilson Rodrigues, parece ancorar no porto de uma escrita que consorcia minimalismo composicional com acendrados incursionamentos por temários que dizem respeito às grandes questões que perfazem o acidentado itinerário humano no palco da história.

Querendo o máximo de dizer, com o mínimo do dito, na construção de poemas curtos e concentrados do ponto de vista de uma refreada discursividade, José Edmilson Rodrigues, conforme asseverou o mestre Ricardo Soares em lapidar juízo crítico exponenciado sobre o aludido poeta, urde os seus versos em indesviável conexão com o solo concreto das experiências efetivamente hauridas no cotidiano, no limite, em comunhão com a complexidade misteriosa do existir, com uma postura assumidamente divorciada da mera técnica verbal, da engenhosidade linguística fria, árida e destituída dos menores vestígios da emoção.

O poema inaugural de sua travessia lírica, transida entre a solidão dos olhos e as vertigens do tempo, parece indiciar tal percurso vitalista, em cujo estuário texto e existência acumpliciam-se, como face e contraface de uma mesma e inseparável moeda estética e existencial: “Folhas esculpem o ar / Ao vento pantomimas / Criam a vida e se confundem / Vida e arte”.

Óbvio que com que Yuri Lotman em seu clássico livro A estrutura do texto artístico, aprendemos que arte não é documento, mas monumento, pressuposto pacífico da cada vez mais intrincada Teoria da Literatura, o que não impede, contudo, de divisarmos em certas construções literárias, o pulsar latejante da vida, vida que se transfigura no corpo palpável das palavras e no dorso escorregadio da linguagem.

José Edmilson Rodrigues sabe, com o imenso Octavio Paz e sua emblemática antropologia poética presente no belíssimo livro O Arco e a Lira, que, em última análise, a indefinibilidade da poesia contracena com a inexauribilidade do ser humano, sendo aquela a tentativa recorrente e inalcançável de tradução deste; e, sendo esse, o perquiridor incansável daquela. Nessa coreografia protagonizada pela poesia do ser e pelo ser da poesia irrompe, como elemento aferidor implacável, a realidade do tempo, em que se consomem e se consumam todas as realidades.

Por esse patamar, o tempo é energia, combustível perene a conduzir o vagão da existência, leitmotiv que atravessa, obsessivamente, o imaginário poético engendrado por José Edmilson Rodrigues. Tempo que, conforme pontuou Lêdo Ivo em seu magistral livro de poemas: Curral de Peixes é encarado como sendo irmão caçula da morte, veículo que nos transporta para a estação final do existir. Contra essa “injúria de tornar-se pó”, ainda de acordo com Lêdo Ivo em seu genial poema “A vã feitiçaria”, José Edmilson Rodrigues, em acendrada postura metalinguística constata que “o que resta é a palavra”, frágil-forte senha de eternidade, sobretudo porque “o homem é apenas metade de si mesmo, a outra metade é a sua expressão”, no acertado dizer de Emerson em seus filosóficos ensaios.

Com efeito, ao viajar por outros territórios, José Edmilson Rodrigues tangencia dimensões metafísicas que perquirem a condição humana em suas irremediáveis fissuras, cindida entre luz e trevas, lama e estrelas, em suma, José Edmilson Rodrigues tematiza o homem “endurecido pela natureza do existir”, travando ensandecida luta entre o que o eleva, e o que o arruína; entre o que o plenifica e o reconcilia com a sua originária vocação para as alturas, e o que o faz rastejar nas sombras vasqueiras de sua incurável impotência.

Por vezes emparedado por suas insuperáveis interdições, a humanidade cartografada por José Edmilson Rodrigues, a exemplo do que ocorre com tantos outros cultores da palavra em estado de estesia, vislumbra no amor, senão a redenção definitiva das suas aporias, ao menos a passagem subterrânea para outros universos existenciais menos asfixiantes.

É aqui que a lírica do vate campinense se amplia, elastece os seus compassos; e, firmada na função conativa da linguagem convoca o outro para tornar-se parceiro de um projeto existencial solidário, no qual o perdão e o amor andam de mãos dadas, diria o Carlos Drummond de Andrade do poema “Romaria”, “sonhando com outra humanidade”. Cedamos a palavra ao poeta: “Fujamos da vilania / e atemos o coração ao leme / do perdão e da vida, / busquemos nos traços / e gestos a epifania do amor”.

Destaque, aqui, para o signo epifania, termo de natureza religiosa, e que aponta para a manifestação súbita e iluminadora de uma realidade, com a qual sempre estamos em contato, mas cuja dimensão profunda nos escapa, por estar tragada pelo nevoeiro que rotiniza as nossas percepções cotidianas. Fenômeno frequentíssimo na ficção dos narradores pós-realistas, dos quais, entre nós, Clarice Lispector pontificou como uma das mais competentes praticantes, a epifania é clarão repentino, revelação impressentida, “ritmo novo no espaço” do ser, conforme tocante verso do Fernando Pessoa ortonímico.

Na poética de José Edmilson Rodrigues, portanto, o amor é visitação graciosa, luz fulgurante que desacinzenta a vida, reinventando-a, porque conforme preconizou a imensa Cecília Meireles: “a vida, a vida só é possível reinventada”. Outra dicção também explorada, exemplarmente, por José Edmilson Rodrigues é a que conflui para o código memorialístico. Se, como afirma o narrador posto em circulação por Machado de Assis no conto “Verba Testamentária”: “esquecer é uma necessidade”, lembrar pode ser uma exigência do afeto ditada por categóricos imperativos da existência. Memória que teima, como um visgo indespegável, a se incrustar nas fímbrias mais interiorizadas do coração.

Em suma, tomando como ponto de partida e de chegada, o fundamental estatuto da literariedade, divisor de águas nos estudos literários que irromperam com os formalistas russos no início do século vinte, A Solidão dos Olhos e As Vertigens do Tempo assinala, inquestionavelmente, um crescimento do autor no trato com a palavra poética. Que outros frutos brotem do criativo pomar literário do irrequieto escritor campinense José Edmilson Rodrigues.

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