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Coluna de José Mário: A flor do gol

José Mário. Publicado em 19 de dezembro de 2018 às 15:33

 

Foto: Paraibaonline

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Por José Mário

Sérgio de Castro Pinto é um craque da linguagem, um malabarista da palavra, da qual extrai com fintas rápidas, dribles desconcertantes, raciocínio certeiro e sensibilidade à flor da pele, impressionantes jogadas, matizadas, todas elas, pelo indelével brilho da beleza.

Que o diga A flor do gol, seu mais recente livro de poemas que, a exemplo dos que foram anteriormente publicados, ratifica a sua condição de um dos mais completos artistas do verso de nossa contemporaneidade lírica.

Com mais de cinquenta anos de atividade poética, Sérgio de Castro Pinto é um poeta portador de uma obra relativamente pequena do ponto de vista quantitativo, mas, por outro, marcada por uma qualidade estética verdadeiramente singular.

Qualidade essa sobrantemente apontada pela crítica literária, tanto a que milita nos quadrantes paraibanos quanto a que se potencializa noutras geografias nacionais. No campo dos criadores do gênero lírico, Sérgio de Castro Pinto já foi, entusiasmadamente, recepcionado por expoências do porte de um Mauro Mora, um Lêdo Ivo, um Carlos Drummond de Andrade. Em suma, o criador de Domicílio em Trânsito é um escritor consagrado.

A diminuta obra poética de Sérgio de Castro Pinto radica, certamente, no rigor da exigência que ele se autoimpõe, ao recusar-se a ceder aos apelos do verso emocionado, mas ingênuo, tão fácil em sua aparição quanto falso em sua não concreção linguística. Valéryano, a que se acumplicia a substancialidade humana, sem a qual a literatura se desfigura e resvala no pântano frio da mera engenhosidade verbal, Sérgio de Castro Pinto integra a família daqueles para quem

“o poema é uma festa do intelecto, e não um mero transbordamento das emoções”.
Ancorado na tríade poundiana imagem, ritmo e ideia, e no minimalismo composicional dominante, um dos traços essencializadores da sua descarnada e antirretórica poética, Sérgio brinda-nos com poemas de excelente fatura estilística.

Dividido em três partes: A flor do gol, Minha fala dos bichos e Bricabraque, nas quais o intertexto do futebol, o código de um fabuloso bestiário e um temário mais aberto e diversificado respondem pela fisionomia estética mais profunda do livro, a nova produção poética de Sérgio de Castro Pinto, jogo duro com a armadilha dos sentidos e clássico da palavra em sua exuberante reinvenção da vida, revisita, reflexiva e memorialisticamente, um curto e glorioso código onomástico dos tempos de ouro do futebol brasileiro.

Nessa ambiência recordativa, avulta Didi e sua folha seca; Vavá e sua juba encandeadora dos goleiros; Jairzinho e sua indomável volúpia de furacão; Leônidas e sua bicicleta eternizadora do tempo; e Garrincha com a exata geometria de suas pernas tortas, são personagens tão fugazes quanto a nuvem que passa e tão eternos quanto o milagre do sonho que brota no coração dos homens.

Na segunda parte do livro, ganha destaque o genial poema “O gato e o poeta”, ars poética do mais fino lavor. A parte final do livro – Bricabraque – nucleariza-se por um temário mais polifacetado: os desejos do corpo, os códices da memória, o maravilhoso espólio do cotidiano, o dialogismo textual. Pontuo o belíssimo e comovente poema “Esta lua”, digno de compor qualquer antologia nacional. Por fim, um aviso aos navegantes do oceano da palavra. Nasceu mais uma flor, A flor do gol, plantada pelo exímio jardineiro da palavra/jogo e do jogo/palavra, chamado Sérgio de Castro Pinto.

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