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Coluna de José Edmilson Rodrigues: Nas dobras do tempo, vento ruim nos pegou

José Edmilson Rodrigues. Publicado em 23 de julho de 2020 às 20:02

Cá em nossa aldeia, em algum tempo do passado, outras epidemias passaram e fizeram vítimas; em cada época, muitas vítimas. Em meados do século XIX nossa província era assolada pela febre amarela e pelo cólera. Pouco depois a gripe espanhola e tantas outras também grassaram por aqui.

A população chegava a saber por meio “do boca a boca”, panfletos e jornais. O medo da iminência de algo trágico que nos abatesse tomava aos poucos feições de pânico para alguns, pois boa parte da população não tinha instrução necessária, era analfabeta e se guiava pelos saberes dos outros em relação ao disse me disse das notícias ao vento.

O tempo passou e os ares foram mudando com o avanço da tecnologia. O papo agora é outro e a era do rádio acelerava as informações sobre os mistérios que assomavam para perturbar a tacanha vida simplória dos homens.

Nos idos de 1922 aparece esse meio de comunicação e informação e sua instalação se dá em abril de 1923, embora sua massificação propriamente dita se dê nos anos de 1930. E a Televisão aportou por aqui nos anos de 1950. A notícia notifica os incautos, os parlapatões e as pessoas de bem.

O desconhecido vem com gosto e não sabemos exatamente, nem quando… então você vira um fantasma. É como um pássaro posto na janela da vida agourando a alma.

Nos dias de hoje as coisas nos chegam tão rapidamente. A tecnologia é cúmplice em tudo. E aí você abre o Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp, YouTube ou outra rede social… Você é de repente possuído, elas estão em você, na sua mente, no seu corpo atuando mediante comandos de azucrinação e nos deixando viciados. – Vês, então, que nas dobras do tempo, um vento ruim nos pegou.

Essa pandemia! Esse maldito vírus chegou barrando tudo nos recantos do mundo, sem mais nem menos, chegou com a fúria dos deuses ruins, exigindo e tirando o melhor do humano. Ora, pois, pelos quadrados cantos de nossas casas, estamos enclausurados, confinados. Penso em desistir das redes virtuais. Cozinhar, escrever e ler mais, ver filmes etc.

E quando sabemos notícias dos contemporâneos, mesmo isolados, da convivência com os amigos e familiares, nos deparávamos num velório de um ou de outro, por ser natural morrer, compreendemos isso, desde tenra idade. Entretanto, fenecer por uma imposição, vinda do ar, pelo toque, pela saliva e sei lá por onde… é uma droga desajeitada e sem resquício de doideira, literalmente, morremos sós, numa cova particularmente única e sem testemunha, apenas o coveiro, o administrador da terra e do buraco onde somos sepultados, que moléstia é essa, irmão… Que coisa mais insana.

E no canto da casa, o vinho avermelhado se apresenta e desce em tons e sabores suaves, ouvindo Johnny Cash (One), um velho disco, gostoso de ouvir. Tento esquecer o momento, porém, não há jeito, a mente fuça e arranca do cérebro instantes inquietos.

E lembro dos que se foram pelo Coranavírus, sem exceção, ele leva, todos indistintamente, independentemente de raça, cor, pobre, rico, alguns vão agonizando, outros não, mas vão.

É o pânico do século XXI, essa coisa que não é moderna e sempre existiu. Portanto, está nos tempos da modernidade e dos avanços tecnológicos, incrustado como uma ranhura nas pedras do tempo que não se apaga.

A quem culpar? Por que culpar? Uns dizem que se originou da China, através de comidas vendidas em um mercado na cidade de Wuhan, com todo tipo de iguarias exóticas. Há também quem afirme que o tal vírus foi desenvolvido em laboratório e ainda outros, pela força da grana, não estão nem aí. Nos continentes, desenvolvem vacinas e tentam lucrar de uma ou de outra maneira, e se digladiam entre si para ver mais rapidamente quem chega ao mercado.

O povo menos abastado é quem paga o pato e morre ligeiramente, restando-lhe o atenuante espiritual através de que se pede a Deus a cura. A quem mais pedir? Por aqui, os homens lucram. E percebi que o ser humano anda perdendo a elasticidade de querer bem um ao outro.

Nas postagens: o ranço, a fala sem teor de gratidão e o perdão se danou. O amor do outro está nele mesmo. A política é ácida e danosa sua corrupção. Foi aí que me acabrunhei e triste liguei o botão do “dane-se!” Vai passar…

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José Edmilson Rodrigues

* Advogado/Mestre em Literatura e Interculturalidade/Ensaísta.

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